BIOFILMES COMO ALTERNATIVAS SUSTENTÁVEIS PARA A REDUÇÃO DE PERDAS PÓS-COLHEITA  
1TAINARA DE ALMEIDA DA SILVA, 2THIAGO ALBERTO ORTIZ
1Discente de Agronomia, PIC, Universidade Paranaense (UNIPAR)
2Professor titular, Orientador, Biotecnologia aplicada à agricultura e Agronomia, Universidade Paranaense (UNIPAR)
Introdução: Em um contexto global marcado por condições humanitárias adversas, a América Latina e o Caribe enfrentam desafios significativos para erradicar a fome e a desnutrição em todas as suas formas. Apesar dos avanços obtidos nas últimas décadas na redução da desnutrição infantil, a fome e a insegurança alimentar vêm aumentando desde 2014, atingindo seu pico durante a pandemia de COVID-19. A região apresenta elevados índices de desigualdade e o maior custo de uma dieta saudável no mundo (FAO, FIDA, OPS, PMA e UNICEF, 2023). Segundo Costa et al. (2024), os países latino-americanos registram altas taxas de perda de alimentos, caracterizadas pela diminuição da quantidade e da qualidade dos produtos nas três primeiras etapas da cadeia alimentar, principalmente durante o armazenamento. Nesse contexto, a produção de biofilmes à base de polímeros naturais tem se mostrado uma alternativa promissora, com potencial para otimizar as propriedades e aumentar a vida útil dos alimentos, sendo alvo de constantes pesquisas (Santos et al., 2021).
Objetivo: Analisar o uso de biofilmes como alternativa sustentável para reduzir perdas pós-colheita de alimentos, aumentando sua durabilidade e preservando sua qualidade, contribuindo para a segurança alimentar.
Desenvolvimento: A utilização de biofilmes e revestimentos comestíveis surge como uma alternativa promissora para reduzir perdas pós-colheita e aumentar a vida de prateleira de frutos, além de representar uma opção sustentável frente aos polímeros sintéticos. Esses revestimentos, geralmente à base de polissacarídeos, são biodegradáveis, atóxicos e capazes de atuar como barreira contra agentes microbianos, perdas de umidade, oxigênio e danos mecânicos, além de servirem como veículo para compostos bioativos (Alves et al., 2022). Nogueira, Cordeiro e Silva (2021) destacam que revestimentos comestíveis em frutas, como os produzidos a partir de resíduos de caranguejo-uçá (Ucides cordatus), podem aumentar significativamente a vida de prateleira, atuando como barreira à perda de umidade e mantendo a integridade dos frutos. A concentração do biofilme é um fator determinante, influenciando diretamente a conservação do produto. Biofilmes à base de fécula de mandioca têm demonstrado eficiência na preservação de frutas altamente perecíveis. Stracke et al. (2023) relataram que concentrações de 3 a 4% não alteram o sabor das frutas e proporcionam conservação segura de ameixas em temperatura ambiente, contribuindo para a redução de perdas e desperdícios pós-colheita. De forma semelhante, Tomaz et al. (2021) observaram que, para frutos de mamão, soluções de fécula de mandioca com concentrações inferiores a 4% são recomendadas para conservação pós-colheita. Revestimentos à base de carboximetilcelulose e melatonina mostraram-se eficazes na redução do chilling injury e na manutenção da qualidade de bananas ʻPrata-Anãʼ, além de atenuarem a acidificação da polpa durante o armazenamento, embora os estudos tenham se limitado a uma única cultivar e condição de armazenamento (Gonçalves et al., 2025). Biofilmes ativos de amido de mandioca enriquecidos com soforolipídios, produzidos por Starmerella bombicola, foram eficazes no aumento da vida de prateleira de morangos, atuando como alternativa às embalagens convencionais. As propriedades antimicrobiana, emulsificante, umectante e plastificante dos biossurfactantes contribuem para essa preservação (Costa et al., 2021). Por outro lado, biofilmes produzidos a partir de gelatina associados a extrato oleoso de cravo-da-índia reduziram a proliferação de bolores em morangos nas concentrações de 5% e 10%, porém, mesmo minimizando a perda de umidade, não foram suficientes para manter a aparência comercialmente aceitável dos frutos e aumentar significativamente o tempo de prateleira em comparação aos frutos in natura (de Almeida et al., 2024). Dessa forma, a literatura evidencia que o uso de biofilmes e revestimentos comestíveis pode representar uma solução biotecnológica eficaz para a conservação de frutos, reduzindo perdas pós-colheita e minimizando o impacto ambiental de embalagens sintéticas. Estudos futuros devem explorar diferentes variedades de frutas, contextos de aplicação, otimização de concentrações e estratégias de escala industrial para tornar esses sistemas comparáveis aos polímeros tradicionais (Alves et al., 2022).
Conclusão: Os biofilmes e revestimentos comestíveis, especialmente à base de polissacarídeos e polímeros naturais, representam alternativas sustentáveis para reduzir perdas pós-colheita de frutas. Estudos mostram que esses materiais atuam como barreira contra perda de umidade, agentes microbianos e danos mecânicos, além de prolongar a vida de prateleira e preservar características sensoriais e nutricionais. Apesar dos avanços, a eficácia depende de composição, concentração e tipo de fruta, sendo necessária padronização de protocolos e ampliação das pesquisas para diferentes espécies, cultivares e condições de armazenamento. Assim, os biofilmes surgem como estratégia inovadora e ambientalmente sustentável, com potencial para reduzir desperdícios, aumentar a segurança alimentar e substituir parcialmente embalagens sintéticas.
Referências:
Alves, A. S. S. et al. Revestimentos comestíveis à base de polissacarídeos em frutas: uma revisão narrativa. In: Verruck, S. (Org.). Avanços em ciência e tecnologia de alimentos – volume 6. Guarujá: Editora Científica Digital, 2022. cap. 24.
Costa, B. V. de L. et al. Food loss and food waste research in Latin America: scoping review. Ciência & Saúde Coletiva, v. 29, e04532023, 2024.
Costa, N. J. A. et al. Aplicação de soforolipídios produzidos por Starmerella bombicola em filmes ativos para revestimento de morangos. Brazilian Journal of Development, v. 7, n. 9, p. 88834-88849, 2021.
De Almeida, K. M. et al. Avaliação da atividade biofilme do extrato do cravo da índia (Syzygium aromaticum) diante do desenvolvimento de bolores em morangos (Fragaria L.). Revista Contemporânea, v. 4, n. 1, p. 2887-2904, 2024.
FAO; FIDA; OPS; PMA; UNICEF. Panorama regional de la seguridad alimentaria y nutricional – América Latina y el Caribe 2022: hacia una mejor asequibilidad de las dietas saludables. Santiago de Chile, 2023. https://doi.org/10.4060/cc3859es
Gonçalves, L. M. F. et al. Revestimento à base de carboximetilcelulose e melatonina em bananas prata-anã armazenadas sob refrigeração. Caderno Pedagógico, v. 22, n. 9, e17909, 2025.
Nogueira, E. S.; Cordeiro, C. A. M.; Silva, E. M. da. Avaliação de biofilme de quitosana na conservação pós-colheita de frutos de acerola (Malpighia emarginata D.C.). In: Cordeiro, C. A. M.; Afonso, A. M.; Silva, B. A. da. (Orgs.). Ciência e tecnologia do pescado: uma análise pluralista: volume 2. Guarujá: Científica Digital, 2021. cap. 2.
Santos, V. S. et al. Avaliação e caracterização de biofilme comestível de carboximetilcelulose contendo nanopartículas de quitosana e Curcuma longa. Revista Matéria, v. 26, n. 1, 2021.
Stracke, M. P. et al. Aplicação de biofilme comestível em ameixas para aumentar seu armazenamento. Observatório de la Economía Latinoamericana, v. 21, n. 6, p. 4029-4050, 2023.
Tomaz, P. H. de A. et al. Conservação de frutos de mamão na pós-colheita com uso de biofilme à base de fécula de mandioca. Brazilian Journal of Development, v. 7, n. 9, p. 88564-88574, 2021.