TRAUMA OCULAR E FRATURA EM ÚMERO DIREITO EM CORUJA MOCHO-DIABO (Asio stygius)
1LINCOLN GONCALVES MARCILIO, 2ADEMAR FRANCISCO FAGUNDES MEZNEROVVICZ, 3MARINA MARANGONI, 4ANA LETÍCIA RODRIGUES MARQUES, 5NICOLE WIRSCHKE DE AZEVEDO, 6PAULO HENRIQUE BRAZ
1Discente do Curso de Graduação em Medicina Veterinária, Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Realeza, Paraná
2Pós-graduando em Saúde, Bem-Estar e Produção Animal Sustentável na Fronteira Sul – Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS)
3Mestre em Saúde, Bem-Estar e Produção Animal Sustentável na Fronteira Sul – Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS)
4Mestre em Saúde, Bem-Estar e Produção Animal Sustentável na Fronteira Sul – Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS)
5Discente do Curso de Graduação em Medicina Veterinária, Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Realeza, Paraná
6Docente da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Realeza, Paraná
Introdução: A coruja mocho-diabo (Asio stygius), pertencente à ordem Strigiformes e família Strigidae, apresenta plumagem escura e dois tufos de penas acima da cabeça, formando ʻorelhasʼ. Assim como outras corujas, é uma ave de rapina noturna, dotada de visão aguçada, garras fortes e bico curvo (König & Weick, 2008). Entre os principais desafios clínicos observados em aves de rapina, destacam-se as lesões traumáticas, que podem comprometer tanto a visão quanto a locomoção.
Um estudo recente apontou que 30% dos ferimentos em aves de rapina envolvem os olhos, ressaltando a importância dos exames oftálmicos na classificação da gravidade e na definição de reabilitação e possível soltura (Ribeiro et al., 2024). Já no sistema osteoarticular, pesquisas realizadas pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres - CETAS PR, ao comparar aves rapinantes (RP) e não rapinantes (NRP) vítimas dessa afecção, mostraram que em ambos os grupos, os membros torácicos foram os mais acometidos. Nas aves do grupo RP,  a ulna foi o osso mais atingido (28%), seguido pelo úmero (21%) e o rádio (20%), estruturas fundamentais para o voo e sobrevivência (Piovesan et al., 2024).
Compreender os impactos dessas lesões é crucial para o aumentar as chances de reabilitação das espécies afetadas. O presente estudo descreve um caso de uma mocho-diabo selvagem, com trauma grave e comprometimento neurológico, o que afetou sua mobilidade e caça, impossibilitando o retorno à natureza. Dessa forma, esse relato reforça a importância do diagnóstico, do manejo adequado voltado para aves selvagens, visando a necessidade de preservação da espécie e principalmente a reintrodução do animal na natureza, de forma integral, com plena condição de voo, busca por alimento e fuga de predadores.
Relato de Caso: Foi atendida uma mocho-diabo, apresentando a asa direita caída. Por se tratar de um animal silvestre, não havia histórico clínico. No exame físico, constatou-se que os sinais vitais estavam normais (FC 140 bpm; FR 32 mpm; TPC 1 segundo). Observou-se também opacificação ocular direita, laceração cutânea, rompimento de nervos e fratura exposta do úmero da asa direita. Para diagnóstico complementar, foi solicitado exame radiográfico do membro torácico direito nas exposições: craniocaudal e mediolateral. Por meio da radiografia simples, obteve-se como diagnóstico fratura segmentar e aberta em diáfise média de úmero direito, com desvio de fragmentos ósseos. Havia ainda sinais de inflamação em tecidos moles adjacentes. 
Este caso apresenta relevância clínica por se tratar de uma fratura aberta e segmentar em ave selvagem, com associação de lesão ocular proveniente de trauma e lesão em nervos em decorrência da fratura de úmero, inviabilizando a osteossíntese, levando a necessidade de amputação de asa, condição que eleva o risco de infecção e dificulta o manejo, tratamento e principalmente, a liberação do animal ao seu habitat natural.
Diante da necessidade de amputação da asa afetada em decorrência do trauma ósseo e nervoso, associada a presença da opacificação ocular, sugestiva de uveíte traumática, foi estabelecido um prognóstico desfavorável. Assim, optou-se pela submissão do animal à eutanásia, dado ao fato de se tratar de um rapinante que necessita intrinsecamente das asas e da visão para sobrevivência e caça.
Discussão: Fatores singulares do caso clínico abordado, como o comportamento selvagem e consequentemente a ausência de histórico do animal, associados com as alterações encontradas, são fundamentais para a compreensão do prognóstico (Cope et al., 2022).
Corujas vítimas de trauma ocular grave, associado a fratura de úmero e lesão nervosa, principalmente quando há necessidade de amputação da asa, geralmente são impossibilitadas de retornar à vida livre na natureza. Alterações visuais, como descolamento de retina, catarata e uveíte, comprometem a predação e orientação espacial da ave afetada (Carter; Lewin, 2021). Os resultados observados neste caso apresentam semelhança com um estudo retrospectivo sobre fatores de risco e recuperação funcional de aves de rapina vítimas de fraturas umerais complexas e danos nervosos, que evidenciaram o comprometimento da função do voo, reduzindo significativamente a probabilidade de soltura na natureza (Coutant et al., 2022). 
Quando a amputação de asa se mostra necessária, a ave é direcionada ao manejo em cativeiro ou eutanásia, pois aves selvagens dependem essencialmente das asas para capturar presas, escapar de predadores e desempenhar seus comportamentos naturais (Aymen et al., 2022). Semelhantemente com o resultado apresentado pela ave rapinante atendida.
Conclusão: Conclui-se que casos de traumas graves em aves de rapina, como fratura umeral associada a lesão nervosa e ocular, resultam em condição desfavorável e impedem sua soltura. Nesses casos, deve-se avaliar a possibilidade de manutenção em cativeiro, com enriquecimento ambiental adequado para simular o habitat natural. Porém, essa alternativa nem sempre é viável.
Referências:
AYMEN, J.; FITZGERALD, G.; LAIR, S.; VERGNEAU-GROSSET, C. Outcomes of birds of prey with surgical or traumatic wing amputation: a retrospective study from 1995 to 2017. Journal of Avian Medicine and Surgery. v. 36. n. 1. p. 45–56. 2022.
CARTER, R. T.; LEWIN, A. C. Avaliação oftalmológica de aves de rapina vítimas de trauma ocular. Journal of Avian Medicine and Surgery. v. 35. n. 1. p. 2-27. 2021.
COPE, H. R. et al. A systematic review of factors affecting wildlife survival during rehabilitation and release. PLoS One. v. 17. n. 3. p. e0265514. 2022.
COUTANT, T. et al. Risk factors and prognosis for humeral fractures in birds of prey: a retrospective study of 461 cases. Journal of Avian Medicine and Surgery. v. 36. n. 1. p. 10–19. 2022.
KONIG, C.; WEICK, F. Owls of the world. 2. ed. New Haven, Connecticut: Yale University Press. 2008.
PIOVESAN, E. J. et al. Lesões ósseas e articulares em aves tratadas em centro de resgate de vida selvagem no sul do Brasil – CETAS/PR. Caderno Pedagógico. v. 21. n. 12. p. e10801-e10801. 2024.
RIBEIRO, L. et al. Ocular lesions in birds of prey in Portugal: a retrospective study. Birds. v. 5. n. 4. p. 637-647. 2024.
SERUCA, C. et al. Consequências oculares de trauma contuso em duas espécies de aves de rapina noturnas (Athene noctua e Otus scops). Oftalmologia Veterinária. v. 15. n. 4. p. 236-244. 2012.