TREINAMENTO MENTAL E ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO DE JOVENS ATLETAS DE GINÁSTICA ARTÍSTICA E A EMERGÊNCIA DA INTERDISCIPLINARIDADE  
1GABRIELA ROGGIA NUNES, 2JULIANE DA SILVA MAIESKI, 3MANOELLA MENSOR MARTINHAGO, 4ALESSANDRA VIEIRA FERNANDES
1Estudante de Psicologia, Universidade Paranaense, Campus de Francisco Beltrão/PR
2Acadêmica do Curso de Psicologia da UNIPAR
3Acadêmica do Curso de Psicologia da UNIPAR
4Docente da UNIPAR
Introdução: No contexto esportivo, o papel do psicólogo não está em aumentar resultados, rendimentos, predizer e controlar comportamentos ou emoções, e sim em criar espaços de confiança, escuta, compreensão e construção conjunta de sentido e autonomia numa relação de ajuda e cuidado através das experiências, o que está em concordância com Mattos (2010), visto que a Abordagem Centrada na Pessoa utilizada no contexto do esporte favorece o desenvolvimento global do atleta, permitindo que ele seja reconhecido como uma pessoa em processo atualizante de crescimento e desenvolvimento - e não apenas como executante de desempenho. Diante disso, esse estudo visa relatar a experiência do primeiro semestre de acompanhamento psicológico de crianças e adolescentes atletas de ginástica artística vinculadas a um projeto social.
Relato de Caso: O acompanhamento da equipe contemplou intervenções grupais (subdivididas entre dois grupos conforme a faixa etária e grupo de treino, totalizando 19 encontros), assim como observações de treinos e acompanhamento em competição (Camilo, 2019), bem como atividades e entrevistas para coleta de dados e compreensão das necessidades das atletas. O trabalho foi desenvolvido por meio de rodas de conversas, ensino de técnicas de respiração, relaxamento, e alívio da ansiedade, técnicas de visualização, e uso de instrumentos dialógicos como atividades lúdicas, dinâmicas de grupos e recursos psicoterapêuticos. O contato inicial se deu na introdução entre as atletas, comissão técnica e o grupo de estagiários, já as práticas iniciaram com apresentação, estabelecimento de rapport e esclarecimento sobre aspectos éticos, bem como a construção coletiva de combinados com o grupo. Foram propostas atividades para fortalecimento da confiança mútua e trocas entre os participantes. As intervenções buscaram propiciar processos de reconhecimento diante da própria identidade como pessoa-atleta e da identificação das emoções, manejo da ansiedade e desenvolvimento de habilidades de autopercepção e comunicação diante de situações no esporte e no dia a dia. Utilizamos o recurso terapêutico “baralho das emoções” com mímica, e a temática do filme “Divertidamente” para construir um caminho lúdico de aprendizagem e experienciação, através de oficina terapêutica com miçangas. Refletimos sobre o estabelecimento de metas e objetivos individuais e coletivos em curto, médio e longo prazo. Além disso, dinâmicas lúdicas como “emboladão”, “tudo sobre mim” e “desenho do contorno do corpo”, também favoreceram o desenvolvimento da comunicação, do respeito e do trabalho em equipe. O manejo da ansiedade foi trabalhado por meio de técnicas de relaxamento, como o “relaxamento progressivo de Jacobson”, “respiração diafragmática”, “respiração 4-7-8”, “respiração 4x4/quadrada”, e “técnica dos 5 sentidos/ 5-4-3-2-1”, as quais foram compiladas e exercitadas por meio de um ebook psicoeducativo que foi disponibilizado para as atletas antes e durante a competição. O encerramento do semestre contemplou devolutivas das facilitadoras, e atividade com a técnica da equipe, além da partilha das percepções acerca da competição, e um momento de confraternização, resgatando os resultados e experiências construídos ao longo do processo.
Discussão: Neste acompanhamento reconhecemos a necessidade de alinhar a preparação psicológica, em perspectiva micro e macro (Rubio, 2007), sendo congruente com os objetivos pessoais dos atletas, respeitando suas experiências e singularidades, buscando oferecer um ambiente acolhedor e empático, e alinhados ao trabalho interdisciplinar possibilitado entre atletas, comissão técnica e as facilitadoras, o que torna factível a criação de vínculos orientada pela horizontalidade e pela desconstrução de hierarquias (Rocha; Farinha, 2022). As estratégias favoreceram a experienciação, ampliando processos de comunicação e congruência, possibilitando a construção de significados por meio das vivências grupais (Messias; Cury, 2006). A Psicologia do Esporte, como área que agrega seus conhecimentos e técnicas ao contexto esportivo, contribui, sobretudo, no aprimoramento e desenvolvimento de habilidades e competências psicológicas por meio de técnicas que almejam o fortalecimento da confiança, a redução da ansiedade e a manutenção da motivação (Marques; Markunas, 2019). 
Conclusão: O vínculo construído e a coparticipação e engajamento das atletas e da equipe técnica nos permitiram o planejamento personalizado do acompanhamento psicológico, o que conforme alinhado com as necessidades, potencialidades, objetivos e dificuldades, torna possível os avanços depreendidos em processos comunicativos e de coesão grupal, diante do desenvolvimento de habilidades de compreensão empática, confiança e motivação coletiva. Além disso, percebemos a contribuição nos processos de reconhecimento, autoconhecimento e regulação das emoções a partir do uso das estratégias trabalhadas no processo terapêutico no dia a dia, bem como em treinos e competições. 
Referências:
CAMILO, E. L. Psicologia do esporte e desenvolvimento humano: fundamentos e possibilidades de atuação profissional. In: RUBIO, K. (org.). Psicologia do esporte: fundamentos e interfaces. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2019. p. 97–118.
MARQUES, R. F.; MARKUNAS, M. A. Psicologia do esporte no Brasil: atuações e intervenções. In: RUBIO, K. (org.). Psicologia do esporte: fundamentos e interfaces. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2019. p. 145–164.
MATTOS, L. A. da S. Abordagem Centrada na Pessoa e Psicologia do Esporte: uma proposta de atuação psicológica. In: RUBIO, K. (org.). Psicologia do esporte: temas de pesquisa e atuação profissional. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010. p. 173–188.
MESSIAS, J. C. C.; CURY, V. E. Psicoterapia centrada na pessoa e o impacto do conceito de experienciação. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 19, n. 3, p. 355–361, 2006.
MESSIAS, L. A.; CURY, R. L. Psicologia do esporte: intervenção no campo esportivo. In: RUBIO, K. (org.). Psicologia do esporte: temas de pesquisa e atuação profissional. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006. p. 209–226.
ROCHA, D. A. S.; FARINHA, A. R. O setting esportivo e a atuação do psicólogo: desafios e possibilidades. In: RUBIO, K. (org.). Psicologia do esporte: fundamentos e interfaces. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2022. p. 119–134.
ROCHA, S. A.; FARINHA, M. G. A posição horizontal entre cliente e psicólogo na abordagem centrada na pessoa. Research, Society and Development, v. 11, n. 2, 2022.
RUBIO, K. Ética e compromisso social na psicologia do esporte. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 27, n. 2, p. 304–315, jun. 2007.
RUBIO, K. Planejamento e intervenção psicológica no esporte. In: RUBIO, K. (org.). Psicologia do esporte: temas de pesquisa e atuação profissional. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007. p. 129–144.