ESTUDO RADIOGRÁFICO DE UMA ONÇA-PARDA (Puma concolor) ATROPELADA NO SUL DO BRASIL  
1ANA LETICIA RODRIGUES MARQUES, 2MARINA MARANGONI, 3MEL TAKAZONO LEMES, 4EMANUEL CAON, 5GENTIL FERREIRA GONÇALVES, 6PAULO HENRIQUE BRAZ
1Bolsista CAPES do Programa de Pós-graduação em Saúde, Bem-estar e Produção Animal Sustentável na Fronteira Sul, UFFS
2Aprimoranda do Programa de Aprimoramento Profissional em Medicina Veterinária, UFFS
3Discente do Curso de Graduação em Medicina Veterinária, Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Realeza, Paraná.
4Médico Veterinário, Superintendência Unidade Hospitalar Veterinária Universitária da UFFS
5Docente da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Realeza, Paraná
6Docente da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Realeza, Paraná
Introdução: A onça-parda (Puma concolor) é um dos maiores felinos do continente americano, amplamente distribuída e considerada espécie guarda-chuva.Trata-se de um predador generalista que necessita de grandes áreas para sobrevivência, geralmente superiores a 100 km2, devido à sua capacidade de dispersão por longas distâncias, mesmo em cenários de fragmentação de habitat (Labarge et al., 2022; Azevedo et al., 2023). Apesar de sua relevância ecológica, encontra-se sob intensa pressão antrópica, especialmente por atropelamentos e ferimentos por arma de fogo, eventos que refletem diretamente a sobreposição de habitats com áreas de uso humano intensivo (Azevedo et al., 2023). Diante disso, o diagnóstico das causas de morte em animais silvestres é fundamental não apenas para fins clínico-patológicos, mas também para embasar estratégias de conservação e auxiliar em processos periciais (Navas-Suárez et al., 2022). Nesse contexto, a radiografia representa uma excelente ferramenta, uma vez que possibilita a identificação de fraturas, luxações, projéteis e sequelas de traumas. O objetivo desse trabalho é, portanto, relatar os achados radiográficos post-mortem de uma onça-parda vítima de atropelamento no município de Toledo, Paraná, destacando as alterações encontradas e suas implicações clínicas, ecológicas e de conservação da espécie.
Relato de Caso: Foi encaminhada a Superintendência Unidade Hospitalar Veterinária Universitária (SUHVU) da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) uma onça-parda jovem encontrada morta às margens de uma rodovia no município de Toledo, Paraná. Radiografias em diferentes projeções foram realizadas no espécime, abrangendo crânio, tórax, abdome e membros, com o objetivo de investigar a causa da morte e possíveis traumas associados. Na avaliação do crânio, observou-se perda do alinhamento da articulação temporomandibular direita e esquerda (luxação mandibular bilateral) e separação da linha média dos incisivos (fratura de sínfise mandibular). Foram identificadas fraturas em ossos maxilar, frontal, occipital e nasais, em 3ª vértebra cervical e 12ª e 13ª costelas. No membro torácico direito (MTD), evidenciou-se uma fratura completa no terço médio do úmero direito, bem como uma fratura consolidada na região do colo ulmeral e do sulco intertubercular do mesmo osso, com remodelamento ósseo e pouca reação periarticular, indicando lesão antiga. Associada a esse achado, na altura da articulação do úmero direito, foi observada a presença de múltiplos fragmentos metálicos radiopacos compatíveis com projétil oriundo de arma de fogo, também exibindo discreta reatividade de tecido mole adjacente. O abdome apresentou conteúdo radiopaco heterogêneo compatível com ingestão de material ósseo, adequado à espécie, sem evidências de obstrução ou dilatação anormal. As demais estruturas esqueléticas não apresentaram alterações significativas.
Discussão: Os achados radiográficos evidenciaram lesões compatíveis com traumatismo decorrente do atropelamento, sugerindo o trauma crânioencefálico (TCE) como a causa da morte (Navas-suárez et al., 2022). O TCE é reconhecidamente uma das principais consequências de atropelamentos em grandes carnívoros, frequentemente reportado em necropsias (Quintana et al., 2022; Navas-Suárez et al., 2022). A presença de fratura consolidada no úmero associada a fragmentos de projétil demonstra um histórico prévio de ferimento por arma de fogo, o que possivelmente resultou em claudicação crônica do MTD. Essa condição pode ter comprometido a capacidade locomotora do animal, reduzindo sua eficiência predatória, reprodutiva e, sobretudo, sua habilidade de fuga diante de situações de risco, como a travessia de rodovias (Navas-Suárez et al., 2022; Quintana et al., 2022). O caso evidencia como diferentes impactos antrópicos podem atuar de forma sinérgica, aumentar a vulnerabilidade individual e contribuir para o declínio populacional de grandes carnívoros (Cullen et al., 2016; Azevedo et al., 2023). Os atropelamentos são uma das principais causas de morte não natural em P. concolor e estão diretamente relacionados à fragmentação do habitat e expansão da malha viária (Cullen et al., 2016; Labarge et al., 2022; Navas-Suárez et al., 2022). A espécie apresenta comportamento de deslocamento médio de cerca de 9 km por noite, o que aumenta a probabilidade de encontros com rodovias e, consequentemente, o risco de colisões fatais (Azevedo et al., 2023). O presente relato ressalta também a importância da utilização do diagnóstico por imagem post-mortem, permitindo a análise topográfica precisa, bem como o discernimento de lesões agudas e lesões crônicas. Desse modo, além do valor científico e conservacionista, tais achados têm relevância pericial, uma vez que fornecem subsídios técnicos para a responsabilização em crimes, ou mesmo no estabelecimento de políticas de preservação da fauna silvestre (Navas-Suárez et al., 2022; Yamada et al., 2023).
Conclusão: O exame radiográfico post-mortem de uma onça-parda encontrada morta em rodovia no Paraná revelou múltiplas fraturas em ossos do crânio, lesão compatível com TCE decorrente de atropelamento, além de uma sequela antiga de ferimento por arma de fogo. O conjunto dos achados sugere que a condição locomotora debilitada decorrente da lesão crônica contribuiu para a vulnerabilidade do animal, resultando no atropelamento. Este relato evidencia a necessidade de medidas integradas de mitigação de atropelamentos em rodovias e de combate à caça ilegal, fatores que, em conjunto, comprometem a conservação da onça-parda no sul do Brasil.
Referências:
AZEVEDO, F. C. et al. Puma concolor (Linnaeus, 1771). Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade, SALVE - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio, 2023.
CULLEN, J. R. L. et al. Implications of fine-grained habitat fragmentation and road mortality for jaguar conservation in the Atlantic Forest, Brazil. PLoS One, v. 11, n. 12, p. e0167372, 2016.
LABARGE, L. R. et al. Pumas e Puma concolor como agentes ecológicos: uma revisão de suas relações bióticas. Mammal Review , v. 52, n. 3, p. 360-376, 2022.
NAVAS-SUÁREZ, P. E. et al. Characterization of traumatic injuries due to motor vehicle collisions in neotropical wild mammals. Journal of comparative pathology, v. 197, p. 1-18, 2022.
QUINTANA, I. et al. Severe conservation risks of roads on apex predators. Scientific Reports, v. 12, n. 1, p. 2902, 2022.
YAMADA, K. et al. Role of autopsy imaging in veterinary forensic medicine: experiences in 39 cases. Journal of Veterinary Medical Science, v. 85, n. 3, p. 301-307, 2023.