MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS E PROGNÓSTICO EM PACIENTES PRÉ-TRANSPLANTE HEPÁTICO – ESCORE MELD, COMPLICAÇÕES SISTÊMICAS E CORRELAÇÕES COM SOBREVIDA  
1ANDRE FELIPE MORESCO RITT, 2GUILHERME PARIZE CAVALCANTE, 3JOAO GABRIEL FEITOSA DE OLIVEIRA, 4ISABELA MOTA ALVES, 5MARIANA VITORIA GASPERIN
1Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
2Acadêmico do Curso de Medicina da UNIPAR
3Acadêmico do Curso de Medicina da UNIPAR
4Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
5Docente da UNIPAR
Introdução: O transplante hepático é atualmente o tratamento definitivo para pacientes com doença hepática em fase terminal, insuficiência hepática aguda fulminante ou alguns tumores primários do fígado. Essas condições apresentam alta mortalidade e impacto importante na qualidade de vida, o que torna fundamental o uso de critérios claros para a seleção de candidatos ao transplante. No passado, o tempo de espera era o principal critério utilizado, mas esse método mostrou-se falho, já que muitos pacientes em estado grave não resistiam até chegar sua vez (MORAES; OLIVEIRA; FONSECA-NETO, 2017). Nesse contexto, foi criado o escore MELD (Model for End-Stage Liver Disease), que se consolidou como um instrumento importante para estimar a sobrevida em curto prazo e organizar a fila de transplante.
Objetivos: Este trabalho tem como objetivo discutir as manifestações clínicas e o prognóstico de pacientes em pré-transplante hepático, com foco no escore MELD, nas complicações sistêmicas e em sua relação com a sobrevida, através de revisões literárias de trabalhos publicados em plataformas como UpToDate, PubMed e Google Acadêmico.
Desenvolvimento: Pacientes com doença hepática avançada costumam apresentar uma série de sintomas e complicações que causam a perda gradual da função do fígado. Entre os mais comuns estão icterícia, ascite, fadiga, sangramento gastrointestinal e encefalopatia hepática (UFSC, 2025). Complicações graves incluem hemorragia por varizes esofágicas, que ainda apresenta mortalidade de 15% a 20% em 30 dias em casos de cirrose descompensada (GOLDBERG et al., 2025), peritonite bacteriana espontânea, síndrome hepatorrenal e síndrome hepatopulmonar. Em muitos desses casos, o transplante hepático é a única opção de tratamento eficaz. O escore MELD foi criado em 2000, inicialmente para prever mortalidade em três meses após a colocação de TIPS (shunt portossistêmico intra-hepático transjugular), sendo aprovado o uso em 2001 para pacientes com doença hepática crônica em estágio terminal. Em 2002, passou a ser utilizado nos Estados Unidos como critério de alocação de fígado (BAMBHA; KAMATH, 2024). No Brasil, sua adoção ocorreu em 2006, por meio da Portaria nº 1160, resultando em redução da mortalidade em lista de espera e aumento no número de transplantes (MORAES; OLIVEIRA; FONSECA-NETO, 2017). O cálculo do MELD utiliza valores laboratoriais de bilirrubina, creatinina e INR, e posteriormente foram adicionados sódio, albumina e sexo. Os resultados variam de 6 a 40, e valores mais altos indicam maior gravidade da doença e pior prognóstico (UFSC, 2025). A hiponatremia é reconhecida como um marcador de gravidade independente, e sua inclusão no MELD-Na, em 2016, aumentou a precisão do modelo. Mais recentemente, em 2023, o MELD 3.0 foi implementado, trazendo ajustes para reduzir diferenças de gênero e melhorar a previsão de risco (BAMBHA; KAMATH, 2024). Apesar de ser um avanço importante, o MELD não é suficiente para prever sozinho os resultados no pós-transplante. Estudos mostram que fatores como idade do receptor, uso de doadores idosos, transfusões sanguíneas e presença de comorbidades influenciam diretamente a sobrevida (BOIN et al., 2008; MORAES; OLIVEIRA; FONSECA-NETO, 2017). Em pacientes com MELD ≥25, a sobrevida em 12 meses foi significativamente menor, especialmente quando associada à hiponatremia ou à necessidade de múltiplas transfusões. Por outro lado, escores mais baixos estão ligados a melhores taxas de sobrevida após o procedimento. No cenário brasileiro, a introdução do MELD trouxe aumento significativo de redução da mortalidade em fila de espera. Entretanto, como observado em diferentes estudos, esse escore não apresenta boa correlação com a sobrevida de longo prazo após o transplante (MORAES; OLIVEIRA; FONSECA-NETO, 2017). As taxas médias de sobrevida após transplante hepático permanecem elevadas: 82% em 1 ano, 71% em 5 anos, 61% em 10 anos e 43% em 20 anos (UFSC, 2025). Entretanto, a mortalidade é mais acentuada no primeiro ano, o que reforça a necessidade de acompanhamento próximo nesse período crítico.
Conclusão: O escore MELD é hoje uma das ferramentas mais importantes para a organização da fila de transplante hepático. Contudo, não deve ser interpretado de forma isolada. O prognóstico pós-transplante é influenciado por uma série de outros fatores clínicos e cirúrgicos. O surgimento do MELD 3.0 mostra um avanço no sentido de melhorar a precisão e corrigir distorções, mas a avaliação completa do paciente e o manejo adequado das complicações continuam sendo fundamentais para garantir melhores resultados em transplante hepático.
Referências:
BAMBHA, Kiran; KAMATH, Patrick S. Modelo para Doença Hepática Terminal (MELD). UpToDate, versão 48.0, 2024. Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2025.
BOIN, Ilka de Fátima Santana Ferreira et al. Aplicação do escore MELD em pacientes submetidos a transplante de fígado: análise retrospectiva da sobrevida e dos fatores preditivos a curto e longo prazo. Arquivos de Gastroenterologia, v. 45, n. 4, p. 275-283, 2008.
FLEMMING, Jennifer A.; LUCEY, Michael R. Assessing surgical risk in patients with liver disease. Clinics in Liver Disease, v. 23, n. 4, p. 625-637, 2019.
GOLDBERG, Eric; CHOPRA, Sanjiv; TAPPER, Elliot; ROBSON, Kristen M. Cirrose em adultos: visão geral das complicações, tratamento geral e prognóstico. UpToDate, versão 54.0, 2025. Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2025.
MORAES, Ana Claudia Oliveira de; OLIVEIRA, Priscilla Caroliny de; FONSECA-NETO, Olival Cirilo Lucena da. Impacto do escore MELD na alocação de fígado e nos resultados dos transplantes hepáticos: uma revisão integrativa. ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva, v. 30, n. 1, p. 65-68, 2017.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA. Transplante Hepático. Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2025.