RELAÇÃO ENTRE O CÂNCER DE ESÔFAGO E BEBIDAS QUENTES   
1GUILHERME OLIVEIRA BONADIO COSTA, 2JULIA AITA FERRARIN, 3MARIA LAURA SOUZA MARCONDES COLOGNESI, 4RODRIGO JACHIMOWSKI BARBOSA
1Acadêmico de Medicina/UNIPAR
2Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
3Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
4Docente da UNIPAR
Introdução: O câncer de esôfago (CE) constitui uma neoplasia de prognóstico difícil, frequentemente caracterizada por um desenvolvimento insidioso e um diagnóstico precoce complexo. Conforme descrito por Azevedo (2025), o CE é predominantemente classificado em dois tipos histológicos principais: o carcinoma de células escamosas do esôfago (ESCC), que pode surgir em qualquer segmento do órgão, e o adenocarcinoma esofágico (EAC), mais comumente localizado na junção esofagogástrica. Além dos reconhecidos fatores de risco genéticos e ambientais, estudos têm consistentemente apontado o consumo regular de bebidas e alimentos em temperaturas elevadas como um fator de risco significativo para o desenvolvimento dessa malignidade. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) classificou o consumo de bebidas muito quentes (≥65 °C) no Grupo 2A, indicando que são "provavelmente carcinogênicas para humanos" (MASUKUME et al., 2022). Embora baseada em evidências consideradas limitadas na época da classificação inicial, pesquisas subsequentes, incluindo estudos de coorte, reforçam a associação, sugerindo um risco elevado de ESCC entre indivíduos que consomem habitualmente bebidas como chimarrão, chá ou café em altas temperaturas (INOUE-CHOI et al., 2025).
Objetivo: Este estudo teve como objetivo investigar, por meio de uma revisão de literatura, a associação entre o consumo frequente de bebidas em altas temperaturas e a incidência de câncer de esôfago, caracterizando as evidências disponíveis que correlacionam esse hábito com a ocorrência de carcinoma esofágico.
Desenvolvimento: Estudos robustos têm demonstrado que o consumo regular de bebidas em temperaturas muito elevadas está diretamente associado a um aumento do risco de carcinoma esofágico. A principal hipótese para esse mecanismo reside na lesão térmica direta à mucosa do esôfago. Líquidos com temperaturas superiores a 60–65 °C são capazes de provocar danos celulares, resultando em inflamação crônica e estimulando a proliferação celular, eventos que, em conjunto, favorecem o processo de carcinogênese (LACHENMEIER et al., 2024). Essa ação térmica pode atuar de forma sinérgica com outros agentes carcinogênicos, como os compostos presentes no tabaco e no álcool. Em estudos com modelos animais, a exposição a líquidos extremamente quentes já demonstrou causar danos térmicos esofágicos, elevando o risco oncológico. Em humanos, a interação entre o consumo de bebidas quentes e hábitos como tabagismo e etilismo pode potencializar significativamente o risco (ISLAMI et al., 2009). Em contraste, em indivíduos não fumantes e não consumidores de álcool, o aumento do risco foi mais modesto, embora presente (YU et al., 2018). Adicionalmente, investigações experimentais indicam que o consumo excessivo de bebidas quentes induz hipertermia local, o que pode estimular a formação endógena de espécies reativas de nitrogênio e nitrosaminas. Estes compostos são conhecidos por seu potencial de danificar o DNA. No âmbito molecular, um estudo recente de Wang et al. (2023) demonstrou que a exposição ao calor em modelos animais e culturas celulares induz um aumento significativo na expressão do microRNA miR-132-3p em células esofágicas. Ensaios de luciferase corroboraram que o miR-132-3p interage com o gene KCNK2, bloqueando a expressão de sua proteína, e que o estímulo térmico promove a carcinogênese mediada por esse microRNA. A injúria térmica também compromete a função de barreira do epitélio esofágico, aumentando sua vulnerabilidade a carcinógenos intraluminais (CHEN et al., 2015). Além disso, outros microRNAs oncogênicos (oncomiRs), como miR‑21, miR‑155 e miR‑92a, são frequentemente superexpressos no carcinoma de esôfago, enquanto microRNAs supressores de tumor, como os da família miR‑200 e miR‑26a, apresentam expressão diminuída. Isso sugere que a desregulação epigenética induzida pelo estresse térmico pode impactar múltiplas vias moleculares envolvidas na carcinogênese (ZHOU et al., 2021; LIU et al., 2020). Uma meta-análise de 2021, que incluiu mais de 500 mil participantes, demonstrou que o consumo de chá quente foi associado a um risco 2,04 vezes maior de carcinoma espinocelular de esôfago (ZHAU et al., 2021). Mais recentemente, o estudo do UK Biobank, com mais de 450 mil participantes, confirmou que o consumo de 4–6 xícaras/dia de bebidas "muito quentes" elevou o risco de ESCC em quase 2x, mesmo após ajustes para o tabagismo e o consumo de álcool (MAHDAVI et al., 2024). O risco térmico não se restringe às bebidas, mas também envolve alimentos ingeridos em altas temperaturas, como sopas, caldos e mingaus, sendo essa prática mais comum em determinadas culturas. Para mitigar esse risco, recomendações práticas sugerem aguardar um período mínimo de 4 a 5 minutos após a fervura para que a temperatura da bebida diminua abaixo de 60 °C antes do consumo.
Conclusão: A exposição térmica elevada é um importante fator carcinogênico, causando danos celulares, inflamação crônica e alterações epigenéticas que favorecem o câncer de esôfago. Diante disso, são necessárias campanhas de conscientização para prevenir o consumo de bebidas e alimentos muito quentes e proteger a saúde pública.
Referências:
AZEVEDO, Beatriz. Tudo sobre Câncer de Esôfago: Um guia completo. Drª Beatriz Gastro, 25 fev. 2025. Disponível em: https://www.drabeatrizgastro.com.br/tudo-sobre-cancer-de-esofago. Acesso em: 19 ago. 2025.
CHEN, Y.; TONG, Y.; YANG, C. et al. Consumo de bebidas e alimentos quentes e o risco de câncer de esôfago: uma meta-análise de estudos observacionais. BMC Cancer, Londres, v. 15, art. n. 449, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s12885-015-1185-1. Acesso em: 19 ago. 2025.
INOUE-CHOI, M. et al. Ingestão de bebidas quentes e câncer de esôfago no Biobanco do Reino Unido: estudo de coorte prospectivo. British Journal of Cancer, p. 1-8, 2025.
ISLAMI, F.; BOFFETTA, P.; REN, J. S.; PEDOEIM, L.; KHATIB, D.; KAMANGAR, F. High-temperature beverages and foods and esophageal cancer risk—a systematic review. International Journal of Cancer, v. 125, n. 3, p. 491-524, 2009. Disponível em: https://doi.org/10.1002/ijc.24445. Acesso em: 19 ago. 2025.
LACHENMEIER, D. W. et al. Gerenciando o Risco de Câncer por Bebidas Muito Quentes: Influência da Temperatura de Preparo nas Características Sensoriais do Café. In: PROCEEDINGS. Basel: MDPI, 2024. p. 13.
MAHDAVI, R. et al. Tea and coffee consumption and risk of esophageal cancer: A systematic review and meta-analysis. Nutrition and Cancer, v. 76, n. 3, p. 435-445, 2024. DOI: https://doi.org/10.1080/01635581.2023.2291421.
MASUKUME, G. et al. Índice de exposição térmica a alimentos e bebidas muito quentes e risco de câncer de esôfago no Malawi e na Tanzânia: descobertas dos estudos de caso-controle ESCCAPE. British Journal of Cancer, v. 127, n. 6, p. 1106-1115, 2022.
SHI, J. et al. Hot food and beverage consumption and the risk of esophageal squamous cell carcinoma: A meta-analysis. Oral Oncology, v. 139, art. n. 106291, 2023. DOI: https://doi.org/10.1016/j.oraloncology.2023.106291.