ENDOSCOPIA COM BIÓPSIA DUODENAL NA CONFIRMAÇÃO DIAGNÓSTICA DA DOENÇA CELÍACA: ACURÁCIA E IMPORTÂNCIA NA PRÁTICA CLÍNICA  
1ANA CLARA CAMILO FERRONATO, 2LUCAS ROBERTO CANTELLI PENAZZO, 3MARCUS VINICIUS GOMES DO NASCIMENTO FILHO, 4PAULO HENRIQUE KINOSHITA CANDIDO, 5LAINY LEINY DE LIMA
1Discente do Curso de Medicina da Universidade Paranaense - UNIPAR
2Discente do Curso de Medicina da Universidade Paranaense - UNIPAR
3Discente do Curso de Medicina da Universidade Paranaense - UNIPAR
4Docente do Curso de Medicina da Universidade Paranaense - UNIPAR
5Docente do Curso de Medicina da Universidade Paranaense - UNIPAR
Introdução: A doença celíaca (DC) é uma enteropatia caracterizada pela intolerância permanente ao glúten, fração proteica encontrada no trigo, cevada e centeio e é desencadeada por mecanismos autoimunes nos indivíduos geneticamente predispostos e as manifestações clínicas e as alterações histológicas regridem com a retirada do glúten da dieta (Silva; Furlanetto, 2010). Ladino e colaboradores (2009) evidência que, a DC é caracterizada por atrofia grave da mucosa do intestino delgado, o que leva a uma digestão prejudicada e má absorção de nutrientes e, consequentemente, distúrbios gastrointestinais e alterações nos parâmetros antropométricos. O diagnóstico final de DC depende de uma combinação de quadro clínico, testes sorológicos e histologia intestinal. Por isso, não existe um padrão ouro para o diagnóstico de DC, sendo necessário uma abordagem sequencial com testes sorológicos seguidos de biópsia duodenal (Raiteri et al., 2022). A endoscopia  e  as  técnicas  avançadas  de imagem revolucionaram o diagnóstico da doença celíaca, melhorando a precisão e a eficiência do processo. A videoendoscopia por cápsula (VCE) é considerada uma alternativa promissora à endoscopia tradicional, permitindo a visualização completa  do  intestino  delgado  através  de  uma  cápsula  que  é  ingerida  pelo paciente (De Andrade et al., 2024). Os pacientes com sorologia positiva deverão ser encaminhados para biópsia intestinal para confirmação diagnóstica. A realização da biópsia também deverá ser considerada quando existe suspeita clínica evidente, mesmo se a sorologia for negativa. Sendo assim, a comparação dos resultados sorológicos com a biópsia se torna muito importante para o diagnóstico correto da doença (Liu et al., 2014).
Objetivo: Avaliar o papel da endoscopia digestiva com biópsia duodenal no processo de diagnóstico da doença celíaca, com ênfase em sua aplicabilidade clínica e contribuição para a tomada de decisão terapêutica.
Desenvolvimento: O diagnóstico da DC baseia-se na integração de dados clínicos, sorológicos, genéticos e histológicos. Dentre esses, a endoscopia digestiva alta com biópsia duodenal é considerada o padrão-ouro para confirmação diagnóstica, sendo imprescindível na maioria dos casos, especialmente em adultos (Oliveira et al., 2019). A histologia duodenal permite identificar alterações típicas da DC, como hiperplasia de cripta, infiltração linfocítica intraepitelial e atrofia das vilosidades, classificadas de acordo com a Escala de Marsh , sendo o grau 3, caracterizado por atrofia vilositária subtotal ou total, é altamente sugestivo da doença (Marsh, 1992). Estudos mostram que a acurácia diagnóstica aumenta significativamente quando são coletados pelo menos 4 a 6 fragmentos da mucosa duodenal, incluindo o bulbo (parte inicial do duodeno, logo após o piloro), local frequentemente acometido (Husby et al., 2020). Em pacientes com sorologia positiva (anti-transglutaminase tecidual IgA e/ou anti-endomísio IgA), a biópsia continua sendo essencial para confirmação diagnóstica, salvo em situações pediátricas muito específicas, conforme as diretrizes da ESPGHAN (European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition). Segundo Husby et al. (2020), nesses casos pode-se abrir mão da biópsia quando há níveis de anti-transglutaminase IgA ≥10 vezes o limite superior da normalidade, confirmados por anticorpos anti-endomísio IgA e presença de HLA-DQ2/DQ8. No entanto, na prática clínica adulta, a endoscopia com biópsia permanece ferramenta mandatória. Além disso, a endoscopia pode evidenciar sinais indiretos sugestivos de DC, como a nodularidade da mucosa duodenal, perda das pregas e visualização de vasos submucosos. Embora tecnologias avançadas estejam em estudo, como magnificação e cromoscopia, sua aplicação ainda é restrita a centros especializados e carece de validação ampla em diretrizes baseadas em evidências (De Andrade et al., 2024).Portanto, a endoscopia com biópsia duodenal não apenas confirma o diagnóstico da DC, como também diferencia de outras enteropatias (ex.: giardíase, hipogamaglobulinemia, enteropatia autoimune, entre outras) que podem cursar com histologia semelhante. A ausência de biópsia pode levar a erros diagnósticos e intervenções dietéticas desnecessárias (Oliveira et al., 2019).
Conclusão: A endoscopia digestiva alta com biópsia duodenal é uma ferramenta indispensável para a confirmação diagnóstica da doença celíaca, sobretudo em adultos. Sua realização criteriosa, com coleta de múltiplos fragmentos, possibilita a aplicação da classificação de Marsh e confere alta especificidade ao diagnóstico. Além disso, a endoscopia permite a exclusão de diagnósticos diferenciais e a documentação objetiva da resposta à dieta isenta de glúten em seguimento. Dessa forma, sua utilização na prática clínica deve ser priorizada, em consonância com as diretrizes nacionais e internacionais.
Referências:
DE ANDRADE A. A. S. et al. A Importância da Endoscopia e dos Métodos de Imagem para Diagnóstico da Doença Celíaca: uma revisão sistemática. Rev. Foco, v. 17, n. 9, p. e6121-e6121, 2024. 
GREEN, P. H.; CELLIER, C. Celiac disease. New England Journal of Medicine, v. 357, n. 17, p. 1731-1743, 2007. 
HUSBY, S. et al. European society paediatric gastroenterology, hepatology and nutrition guidelines for diagnosing coeliac disease 2020. Journal of pediatric gastroenterology and nutrition, v. 70, n. 1, p. 141-156, 2020. 
LADINO, L. et al. Detection of anti-tissue transglutaminase IgA antibodies (tTG IgA) in children with type 1 diabetes mellitus. Rev. Fac. Med. v. 68, n. 3, p.347-351. 
LIU, S. M. et al. Doença celíaca. Rev Med Minas Gerais, v. 24, n. Supl 2, p. S38-S45, 2014.
MARSH, M. N. Gluten, major histocompatibility complex, and the small intestine: a molecular and immunobiologic approach to the spectrum of gluten sensitivity (ʻceliac sprueʼ). Gastroenterology, v. 102, n. 1, p. 330-354, 1992. 
OLIVEIRA, J. S. et al. Diagnóstico da doença celíaca em adultos. Rev. Associação Médica Brasileira, v. 65, n. 9, p. 1225-1231, 2019. 
RAITERI, A. et al. Current guidelines for the management of celiac disease: A systematic review with comparative analysis. World Journal of Gastroenterology, v.28, n. 1, p. 154-175. 2022. 
SILVA, T. S. D. G.; FURLANETTO, T. W. Diagnóstico de doença celíaca em adultos. Rev. Associação Médica Brasileira, v. 56, p. 122-126, 2010.