OSTEOSSÍNTESE COM FIXADOR EXTERNO EM ULNA DE TUCANO-DO-BICO-VERDE (Ramphastos dicolorus)  
1MEL TAKAZONO LEMES, 2ANDRIEL GUSTAVO FELICHAK, 3ADEMAR FRANCISCO FAGUNDES MEZNEROVVICZ, 4MARINA MARANGONI, 5GENTIL FERREIRA GONÇALVES, 6PAULO HENRIQUE BRAZ
1Acadêmica de Medicina Veterinária na Universidade Federal da Fronteira Sul
2Acadêmico de Medicina Veterinária na Universidade Federal da Fronteira Sul
3Pós-graduando em Saúde, Bem-Estar e Produção Animal Sustentável na Fronteira Sul, na Universidade Federal da Fronteira Sul
4Mestre em Saúde, Bem-Estar e Produção Animal Sustentável na Fronteira Sul, na Universidade Federal da Fronteira Sul
5Docente da Universidade Federal da Fronteira Sul
6Docente da Universidade Federal da Fronteira Sul
Introdução: A maioria das fraturas em aves ocorrem nos ossos longos das asas ou pernas, sendo resultados de traumas de origem automobilística, balística e colisão contra objetos (Kothamdi et al., 2016; Ünsaldi & Ünsaldi, 2023). Atualmente, para este tipo de ocorrência, existe uma variedade de tratamentos disponíveis, incluindo bandagens, pinos intramedulares, fixação externa, técnicas de cerclagem e empregos de ʻʼbone muffsʼʼ (Bennett & Kuzma, 1992). Desse modo, objetiva-se relatar  uma osteossíntese de ulna realizada em um ranfastídeo de vida livre, encaminhado para atendimento clínico-cirúrgico.
Relato de caso: Um tucano-do-bico-verde foi encaminhado pelo Instituto Água e Terra (IAT) para a Superintendência Hospitalar Veterinária Universitária (SUHVU) da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Realeza para atendimento clínico após ser encontrado responsivo, mas incapaz de voar. No exame físico, o animal estava consciente, com escore corporal 4, não permissivo à manipulação. Apresentava ferida em região cervical, exposição da ulna na asa direita e assimetria nos movimentos deste membro. Ao exame radiográfico, foi observada fratura completa, transversa, aberta e irregular no terço distal da diáfise da ulna, além de fratura completa, oblíqua longa, fechada e regular no terço distal da diáfise do rádio, acompanhadas por processo inflamatório nos tecidos moles adjacentes. O animal foi submetido à osteossíntese de ulna, utilizando cetamina (10 mg/kg), midazolam (1 mg/kg) e morfina (2 mg/kg) como medicação pré-anestésica via intramuscular; isoflurano para indução e manutenção anestésica; e lidocaína (3 mg/kg) para anestesia  locorregional em plexo braquial, sendo as escolhas farmacológicas e de dosagem selecionadas com base no Formulário de Animais Exóticos (Carpenter & Harms 2022). O membro afetado foi isolado, e foi realizada incisão de pele e subcutâneo no terço médio da face lateral do antebraço, com o uso de um bisturi de cabo nº 4. Foi realizada incisão no terço médio lateral do antebraço para exposição e higienização do fragmento proximal da ulna, com afastamento do periósteo. Introduziu-se um fio Kirschner de 1 mm de forma retrógrada no canal medular. O fragmento distal foi exposto, o tecido conjuntivo removido e o fio ajustado para aproximar os fragmentos ósseos. Dois fios Kirschner transversos (1 mm) foram inseridos, um em cada fragmento, estabilizando o fio intramedular. Os fios foram fixados externamente com torção e resina auto-polimerizável. A pele foi suturada com nylon 3-0 em padrão simples isolado. No pós-operatório, o paciente foi mantido em recinto com enriquecimento ambiental, alimentação ofertada 2-3 vezes ao dia, higienização regular e mínima interação humana. Durante a internação, apresentou comportamento agressivo e tentativas frequentes de fuga. O tratamento incluiu Tramadol (5 mg/kg), Meloxicam (0,1 mg/kg) e Ampicilina (40 mg/kg) por 14 dias, via intramuscular. Após 15 dias, o exame radiográfico mostrou calo ósseo formado na fratura de rádio, bom alinhamento e coaptação dos fragmentos, mas com calo incompleto na ulna e leve deslocamento do fragmento distal, além de inflamação em tecidos adjacentes. Duas semanas após o procedimento , o calo ósseo estava completamente formado e o animal apresentou boa adaptação ao voo. Após a retirada do fixador externo, o tucano foi reintroduzido  à natureza.
Discussão: O uso de fixadores externos em aves promove alinhamento ósseo adequado, imobilização e favorece a recuperação, porém apresenta riscos de fragmentação óssea e requer conhecimento técnico para a escolha correta do diâmetro dos pinos e do peso do aparelho em relação ao porte da ave (Bellageon & Patat, 1984; Egger, 1991). Em aves de vida livre, recomenda-se a associação de pinos intramedulares com fixadores externos para otimizar o retorno ao habitat natural (Rupley, 1999). O uso de dois pinos perpendiculares em pombos domésticos demonstrou maior estabilidade do sítio de fratura e melhor formação de calo ósseo quando comparado à aplicação de um único pino associado à fixador externo (Dalmolin et al. 2007). No presente caso, o deslocamento dos fragmentos e a inflamação dos tecidos moles adjacentes justificam-se pelo comportamento do tucano, que colidia com o recinto devido ao estresse e à tentativa de fuga, comportamento relacionado ao territorialismo e à alta susceptibilidade dessas aves ao estresse durante contenção e limitação de atividade física (Alaniz et al., 2022). Esse cenário difere do observado por Dalmolin et al. (2007), cujos animais encontravam-se sob supervisão e adaptados à interação antrópica por 15 dias antes da cirurgia.
Conclusão: A escolha da abordagem cirúrgica deve considerar fatores como espécie, comportamento e porte do paciente. No presente caso, a associação de dois fios externos posicionados perpendicularmente com um pino intramedular mostrou-se eficaz, proporcionando adequada estabilização óssea e favorecendo a recuperação clínica, o que possibilitou o retorno do animal ao seu habitat natural.
Referências:
ALANIZ, A. J. et al. Rapid behavioral recovery based on environmental enrichment of a white-throated toucan (Ramphastos tucanus: Ramphastidae) affected by collision trauma. Journal of Veterinary Behavior, v. 57, p. 1-5, 2022. Disponível em: researchgate.net/publication/362485368_Rapid_behavioral_recovery_based_on_environmental_enrichment_of_a_white-throated_toucan_Ramphastos_tucanus_Rampastidae_affected_by_collision_trauma. Acesso em: 9 set. 2025.
BELLAGEON, M. PATAT, E. L. Osteossíntese das asas dos pássaros. A hora veterinária, Porto Alegre, n. 21, p. 13-20, 1984. Disponível em: https://www.cabidigitallibrary.org/doi/pdf/10.5555/20113098073. Acesso em: 9 set. 2025.
BENNETT, R. A. KUZMA, A. B. Fracture management in birds. Journal of Zoo and Wildlife Medicine, v. 21, p. 5-38, 1992. Disponível em: jstor.org/stable/20460265. Acesso em: 9 set. 2025.
CARPENTER, J. W. HARMS, C. A. Exotic Animal Formulary. 6. ed. St. Louis: Elsevier, 2022.
DALMOLIN, F. et al. Modificações do fixador externo para osteossíntese umeral em pombos domésticos. Ciência Rural, Santa Maria, v. 37, n. 2, p. 443-449, 2007. Disponível em: scielo.br/j/cr/a/btbVhLH3fM6fLpPssW9YHmF/?lang=pt. Acesso em: 9 set. 2025.
EGGER, E. L. Complications of External Fixation - A problem-oriented approach. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 21, n. 4, p. 105-733, 1991. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1897082/. Acesso em: 9 set. 2025.
KOTHAMDI, U. Y., et al. (2016): Fracture repair in birds, a clinical study. Indian J. Vet. Surg. 37, 51-53. Disponível em: researchgate.net/publication/311518138_Fracture_repair_in_birds_-_A_clinical_study. Acesso em 9 set. 2025.
RUPLEY, A. E. Sinais músculo-esqueléticos. In: Manual de cirurgia aviária, c. 12, p. 220-225, 1999.
ÜNSALDI, S. & ÜNSALDI, E. A retrospective study on the treatment of bone fractures in 14 wild birds of different species and ages by bone muffs. Veterinarski Arhiv, v. 93, p. 367-380, 2023. Disponível em: cabidigitallibrary.org/doi/pdf/10.5555/20230465062. Acesso em 9 set. 2025.