EFEITO DO EXTRATO DE Hypericum perforatum ASSOCIADO A BIOMEMBRANA EM FERIDAS CUTÂNEAS DE RATOS WISTAR
1IGOR MALAVAZI SERRANO, 2IGOR FABIANO DA SILVA, 3HENZO COLAUTI MEDEIROS, 4WESLEY ALVES TRINDADE, 5LAYNE DE LIMA, 6RICARDO DE MELO GERMANO
1Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
2Acadêmico do Curso de Medicina da UNIPAR
3Acadêmico do Curso de Medicina Veterinária da UNIPAR
4Doutor em Ciência Animal com Ênfase em Produtos Bioativos, UNIPAR
5Docente da UNIPAR
6Docente Titular de Fisiologia e do Programa de Pós-graduação em Ciência Animal da UNIPAR
Introdução: A cicatrização de feridas é um processo fisiológico complexo, que envolve mecanismos celulares e moleculares para restaurar a integridade do tecido (El-Nashar et al., 2021; Farasati Far et al., 2024). Produtos naturais têm despertado interesse como adjuvantes nesse processo, destacando-se a erva-de-são-joão, comumente conhecida como Hypericum perforatum (HP), com propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes, antimicrobianas e cicatrizantes (Zivari-Ghader et al., 2024; Jonuškienė et al., 2023; Velingkar; Gupta; Hegde, 2017). Paralelamente, a engenharia de tecidos desenvolve biomateriais como biomembranas, capazes de acelerar o reparo cutâneo (García-Hernández et al., 2022).
Objetivo: Avaliar o potencial cicatrizante de um gel contendo extrato da planta HP administrado topicamente em feridas cutâneas induzidas em ratos Wistar, protegidas por biomembrana comercial, por meio da análise histopatológica das lesões aos sete dias de pós-operatório.
Material e métodos: Os procedimentos adotados neste estudo foram aprovados pelo Comitê de Ética no Uso de Animais (CEUA) da Universidade Paranaense sob protocolo n° 37004/2020. Foram utilizados 90 ratos machos, da linhagem Wistar, divididos em cinco grupos, com 18 animais cada, onde foram induzidas feridas cutâneas excisionais com punch dermatológico de 10 mm, na região cervico-torácica dorsal e, posteriormente destinados aos tratamentos de acordo com os grupos, sendo: G-I, grupo controle negativo com cicatrização espontânea por segunda intenção, G-II, ratamento utilizando gel e biomembrana, G-III, tratamento utilizando a biomembrana e o gel com extrato na concentração de 5%, G-IV, tratamento utilizando a biomembrana e o gel com extrato na concentração de 10%, G-V, tratamento utilizando a biomembrana e o gel com extrato na concentração de 15%. Os animais foram acompanhados diariamente para avaliação de dor pós-operatória pela Escala de “Grimace”. No sétimo dia de período experimental, seis animais de cada grupo foram encaminhados para e eutanásia, realizada por hipersaturação ao anestésico isoflurano, seguido das coletas das amostras teciduais da pele ao redor do processo cicatricial para avaliação histopatológica por meio da técnica de Hematoxilina-eosina.
Resultados: Os resultados obtidos por meio das análises microscópicas demonstraram que, aos sete dias, foi possível observar presença de leucócitos mononucleares e polimorfonucleares em diferentes intensidades de concentração, destacando-se GIII, GIV e GV com menor intensidade em relação aos demais grupos. Já a matriz extracelular (MEC) formada inicialmente por tecido conjuntivo frouxo obteve desenvolvimento superior em GIII, GIV e GV, com formação de tecido de granulação, acentuada presença de fibroblastos e baixa quantidade de colágeno em todos os grupos, ainda, observou-se em GI, GII e GIII células epiteliais em sentido a região de epiderme no local da lesão em processo inicial de reepitelização, já em GIV e GV, foi observada reepitelização parcial do local da lesão, a neovascularização foi constatada em todos os grupos.
Discussão: O processo de cicatrização ocorre em três fases distintas: inflamatória, proliferativa e de remodelação (Tazima; Andrade Vicente; Takachi, 2008). Nosso estudo concentrou-se na fase proliferativa, que se inicia a partir do 3º dia após a lesão e pode se estender por até duas a três semanas. Nessa etapa, observamos resultados expressivos nos grupos GIII, GIV e GV, que apresentaram maior formação de tecido de granulação, presença acentuada de fibroblastos e menor deposição de colágeno em comparação aos grupos GI e GII. Quanto à reepitelização e à neovascularização, os grupos GIV e GV se destacaram, evidenciando avanços significativos em relação aos grupos GI, GII e GIII, estes últimos ainda em fase inicial de reepitelização. Esses achados reforçam o caráter dose-dependente do extrato de HP. Os grupos tratados com concentrações mais elevadas (10% no GIV e 15% no GV) obtiveram desempenho superior nos parâmetros avaliados. Resultados semelhantes foram descritos por Zivari-Ghader et al. (2024), ao utilizarem um curativo de hidrogel à base de quitosana/alginato associado ao extrato de HP, confirmando o potencial cicatrizante da planta. Ambos os trabalhos corroboram ainda os achados de Afsharzadeh et al. (2021), que também ressaltaram a relação dose-dependente do composto.
Conclusão: O presente estudo demonstrou que a associação do extrato de HP com biomembrana favoreceu o processo cicatricial em ratos Wistar, promovendo redução da resposta inflamatória, estímulo à deposição de matriz extracelular, aumento da atividade fibroblástica, início da reepitelização e neovascularização. Esses resultados confirmam o potencial do HP como adjuvante terapêutico na cicatrização cutânea e apontam para sua futura aplicação em curativos bioativos. Novos estudos são necessários para avaliar diferentes concentrações, períodos de acompanhamento mais longos e sua efetividade em modelos clínicos.
Referências:
AFSHARZADEH, N. et al. Comparative assessment of proliferation and immunomodulatory potential of Hypericum perforatum plant and callus extracts on mesenchymal stem cells derived adipose tissue from multiple sclerosis patients. Inflammopharmacology, v. 29, n. 5, p. 1399-1412, 2021.
EL-NASHAR, H. A. S  et al. Insights on the Inhibitory Power of Flavonoids on Tyrosinase Activity: A Survey from 2016 to 2021. Molecules, v. 26, n 24, p. 7546, 2021.
FARASATI FAR, B. et al. The potential role of Hypericum perforatum in wound healing: A literature review on the phytochemicals, pharmacological approaches, and mechanistic perspectives. Phytotherapy Research, v. 38, n. 7, p. 3271-3295, 2024.
GARCÍA-HERNÁNDEZ, A. B. et al. PVA-based electrospun biomembranes with hydrolyzed collagen and ethanolic extract of Hypericum perforatum for potential use as wound dressing: Fabrication and characterization. Polymers, v. 14, n. 10, p. 1981, 2022.
JONUŠKIENĖ, I. et al. The influence of phytohormones on antioxidative and antibacterial activities in callus cultures of Hypericum perforatum L. Agriculture, v. 13, n. 8, p. 1543, 2023.
TAZIMA, M..; ANDRADE VICENTE, Y..; MORIYA, T. Biologia da ferida e cicatrização. Medicina (Ribeirão Preto), Ribeirão Preto, Brasil, v. 41, n. 3, p. 259–264, 2008.
VELINGKAR, Vi. S.; GUPTA, G. L.; HEGDE, N. B. A current update on phytochemistry, pharmacology and herb–drug interactions of Hypericum perforatum. Phytochemistry Reviews, v. 16, n. 4, p. 725-744, 2017.
ZIVARI-GHADER, T. et al. Chitosan-alginate hydrogel enriched with Hypericum perforatum callus extract for improved wound healing and scar inhibition. ACS Applied Materials & Interfaces, v. 16, n. 49, p. 67344-67361, 2024.