CHATBOTS E SAÚDE MENTAL: UMA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA SOBRE OS RISCOS DO EFEITO ELIZA E QUESTÕES ÉTICAS  
1ISABELA GALHARINI IGNES, 2GIULIANA ZARDETO
1Acadêmica do curso de Psicologia da Universidade Paranaense (UNIPAR), Umuarama, Paraná
2Docente da UNIPAR
Introdução: O Efeito Eliza, proposto por Weizenbaum (1966), compreende a tendência de antropomorfizar as máquinas. Contribuindo para os impactos desse fenômeno, têm se popularizado os chamados chatbots terapêuticos, inteligências artificiais que agem no aconselhamento psicológico (Froese; Gallese, 2021). E isso, intensifica questões éticas delicadas, sob perspectiva psicanalítica (Grodigewicz; Hohol, 2023).
Objetivo: Analisar criticamente os riscos psíquicos e éticos relacionados ao Efeito Eliza, sob uma perspectiva psicanalítica.
Desenvolvimento: Os chatbots terapêuticos, como o TESS, SARA, WYSA e Woebot, funcionam por meio de mensagens curtas e vêm ganhando popularidade no campo da inteligência artificial por sua acessibilidade e funcionamento contínuo, sem exigência de pagamentos ou licença clínica (SAGE JOURNALS, 2023). O Woebot, por exemplo, atua como um terapeuta virtual e auxilia os usuários a identificar emoções, organizar pensamentos e desenvolver estratégias para lidar com situações difíceis, incluindo técnicas para diminuir e lidar com a ansiedade (JMIR Publications, 2019). Outrossim, o nome Eliza, que nomeia o efeito, faz referência à personagem Eliza Doolittle, da peça Pygmalion, de George Bernard Shaw, uma trabalhadora de origem humilde que, ao longo da narrativa, aprende a falar com o sotaque da elite britânica (Gorniak, 2020). E é por isso, visto esta dinâmica de receber informações e aprender com as mesmas, que os chatbots geralmente utilizam o Processamento de Linguagem Natural (PLN) aliado ao aprendizado de máquina, cujo permite a decodificação da linguagem humana, a fim de ofertar um viés também humanizado à linguagem dessa tecnologia (Coghlan et al., 2023). Dessa forma, unindo a fácil acessibilidade e a linguagem “humana”, o Efeito Eliza - que discorre sobre a tendência de atribuir características humanas, como consciência e empatia, às máquinas - se agrava, pois influencia a interpretação do usuário, que vê o relacionamento criado com o chatbot, como um vínculo significativo emocionalmente, ainda que o mesmo seja unidirecional e superficial. Ademais, o conceito de transferência, essencial à psicanálise, engloba a capacidade de escutar, interpretar a fala, os gestos, as pausas, o silêncio, além da responsabilidade de sustentação da fala do sujeito (Freud, 1912/1996). Tais elementos são inviáveis no contexto dos chatbots terapêuticos, os quais se limitam a padrões de pré-programação e algoritmos, desconsiderando a elaboração subjetiva singular do usuário (Lacan, 1953/1998). Essa limitação pode resultar em uma experiência de pseudoescuta, onde o usuário se expressa, mas não encontra uma escuta verdadeira. Trata-se de uma forma de silêncio disfarçado, que pode, paradoxalmente, intensificar o sofrimento emocional. Isso ocorre porque, ao utilizar essas ferramentas, o sujeito projeta nelas uma compreensão que não pode ser simbolicamente correspondida visto que o caráter artificial da tecnologia pode ser confundido, consciente ou inconscientemente, com uma presença humana singular, o qual corrobora para com os efeitos ilusórios do Efeito Eliza. Além disso, sob a ótica ética, esse fenômeno levanta preocupações relevantes. Na Bélgica, em 2023, um homem acabou se suicidando após conversas intensas com o chatbot Eliza numa aplicação da plataforma Chai por, aproximadamente, seis semanas. O indivíduo apresentava um quadro de ansiedade grave relacionado a questões climáticas e, em determinado momento, manifestou a ideia de se sacrificar pelo bem do planeta. O chatbot, em vez de desencorajar tal pensamento, teria validado sua proposta, contribuindo para a decisão trágica. Esse episódio traz à tona uma relevante questão ética: quando um sistema simula algo tão delicado quanto uma relação terapêutica, o que pode abrir espaço para enganos e para a projeção indevida de expectativas por parte do usuário. Ferindo ainda mais a ética há o fato de que quanto mais convincente for essa simulação, mais eficaz é o programa (Grodigewicz; Hohol, 2023).
Conclusão: A automatização da escuta clínica por chatbots, embora útil em contextos emergenciais, compromete a ética do cuidado e a singularidade do sujeito. Sob o Efeito Eliza, a palavra perde seu valor simbólico, e a escuta se torna produto. A psicanálise, nesse cenário, reafirma a necessidade da presença humana na escuta do sofrimento, reafirmando, portanto que apesar de funcional, ainda é necessário cuidado ao utilizar tais ferramentas. 
Referências:
COGHLAN, Simon; LEINS, Kobi; SHELDRICK, Susie; CHEONG, Marc; GOODING, Piers; DʼALFONSO, Simon. To chat or bot to chat: Ethical issues with using chatbots in mental health. Digital Health, Londres, v. 9, n. 1, p. 1-10, jun. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1177/20552076231183542. Acesso em: 03 set. 2025.
DOHNÁNY, Sebastian; et al. Technological folie à deux: Feedback loops between AI chatbots and mental illness. arXiv, 25 jul. 2025. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2507.19218. Acesso em: 03 set. 2025.
FREUD, Sigmund. The dynamics of transference. In: STRACHEY, James (Ed. e Trad.). The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud. Londres: Hogarth Press, 1996. (Obra original publicada em 1912).
JUNG, J.; et al. Woebot and AI-driven mental health chatbots: efficacy and user experience. JMIR Publications, 2019. Disponível em: https://www.jmir.org/2019/5/e13216/. Acesso em: 03 set. 2025.
LACAN, Jacques. Escritos: um seminário de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. (Obra original publicada em 1953).
LIN, Baihan; et al. Towards healthy AI: Large language models need therapists too. arXiv, 2 abr. 2023. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2304.00416. Acesso em: 03 set. 2025.
NAIK, Aditya; et al. Artificial empathy: AI-based mental health. arXiv, 30 maio 2025. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2506.00081. Acesso em: 03 set. 2025.
SAGE JOURNALS. Aplicações de chatbots terapêuticos na saúde mental: uma revisão. 2023. Disponível em: https://editora.sepq.org.br/rpq/article/view/717. Acesso em: 03 set. 2025.
SHAN, Yong; et al. Mental health assessment for the chatbots. arXiv, 14 jan. 2022. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2201.05382. Acesso em: 03 set. 2025.