LIBERAÇÃO DE BISFENOL A POR DISPOSITIVOS MÉDICOS: EVIDÊNCIAS DE EXPOSIÇÃO E IMPACTOS À SAÚDE  
1ERICK DOUGLAS MESQUITA COSTA, 2AMANDA FELISBERTO LIMA, 3RICARDO DE MELO GERMANO
1Acadêmico de Medicina PIC/UNIPAR
2Acadêmico de Medicina PIC/UNIPAR
3Docente Titular de Fisiologia e do Programa de Pós-graduação em Ciência Animal da UNIPAR
Introdução: O bisfenol A (BPA) é um composto orgânico sintético usado como monômero na produção do policarbonato (PC), amplamente utilizado em embalagens de alimentos e bebidas, papéis térmicos, aplicações odontológicas e dispositivos médicos (Cimmino et al., 2020). O PC caracteriza-se pela leveza, resistência e alto desempenho, reunindo qualidades como tenacidade, estabilidade dimensional, transparência, alta tolerância ao calor e propriedades elétricas. Cerca de 3% da produção mundial destina-se a dispositivos hospitalares. (Scenihr, 2015). Entre os produtos feitos com PC, destacam-se conjuntos de administração intravenosa, torneiras, seringas, cateteres intravasculares e urinários, tubos gastrointestinais e circuitos de bypass cardiopulmonar, considerados potenciais fontes de exposição ao BPA (Duty et al., 2013). Este composto é encontrado na forma de cristais incolores ou em pó, sendo liberado para o conteúdo armazenado em recipientes plásticos, principalmente quando são aquecidos ou sob condições ácidas e básicas. Classificado como desregulador endócrino, apresenta propriedades semelhantes às dos hormônios naturais e, mesmo em baixas concentrações, pode interferir na reprodução, sistema imunológico, cânceres dependentes de hormônios e no metabolismo, pois liga-se a receptores nucleares de estrogênio, androgênio, hormônio tireoidiano, glicocorticoide (Cimmino et al., 2020).
Objetivo: Sintetizar, por meio de revisão, as evidências disponíveis acerca da presença, liberação e substituição do BPA em dispositivos médicos, destacando possíveis lacunas, desafios regulatórios e potenciais riscos à saúde.
Desenvolvimento: A revisão foi conduzida nas bases de dados PubMed, Google Acadêmico, em repositórios institucionais e em fontes institucionais oficiais, utilizando os descritores “Bisphenol A”, “Medical devices”, “Hemodialysis” e “Neonatal”. Foram incluídos cinco estudos que investigaram a exposição ao bisfenol A associada ao uso de dispositivos médicos em pacientes com hemodiálise e em neonatos. O BPA é uma grande preocupação para a saúde pública ambiental, devido à sua toxicidade comprovada e seu alto potencial de exposição humana (Bacle et al., 2016). Trata-se de um composto orgânico sintético, pertencente ao grupo de derivados de difenilmetano e bisfenol (Cimmino et al., 2020). Sua absorção, por via oral, apresenta baixa biodisponibilidade sistêmica (1–10% em humanos) e meia-vida de poucas horas, enquanto por vias parenterais pode ser considerado 100% biodisponível (Scenihr, 2015). Quando absorvido, pode acumular-se em tecidos e órgãos humanos, como: tireoide, fígado, tecido adiposo, coração e órgãos reprodutores, devido a sua característica lipofílica, que pode desregular processos fisiológicos, gerando efeitos deletérios à saúde (Cimmino et al., 2020). Entre os principais veículos de contato, destacam-se os dispositivos médicos produzidos com PC e polissulfona (PSU), os quais frequentemente contêm resíduos de BPA. A presença de água no PC – antes do processamento –, excesso de temperatura, tempo de contato prolongado, pH elevado e uso de aditivos degradantes influenciam na quantidade residual (Scenihr, 2015). Em ambiente hospitalar, estudos demonstram que a exposição ao BPA pode ser relevante, sobretudo em pacientes vulneráveis. Pacientes submetidos à hemodiálise (HD) estão expostos ao BPA liberado pelos dialisadores, feitos com carcaça de PC e membrana de PSU. Para um adulto de 60 kg em HD, a exposição diária pode atingir 57 ng/kg de peso corporal (Bacle et al., 2016). Outro grupo particularmente vulnerável são os bebês nos períodos fetal e pós-natal em unidades de terapia intensiva neonatal (UTINs). Em um estudo envolvendo 41 prematuros, em duas UTINs, o BPA foi detectado em 100% das amostras urinárias, que variam de 1,6 μg/L a 946 μg/L de concentração (mediana: 28,6 μg/L). Observou-se que os submetidos a tratamento de alta intensidade (invasivos, como cateteres,  ventilação mecânica, dreno torácico, nutrição parenteral, transfusão de sangue, mamadeiras ou gavagem intermitente) apresentaram níveis 8,75 vezes superiores aos de baixa intensidade (suporte nutricional com mamadeira ou gavagem intermitente e oxigênio nasal em curto período) (Duty et al., 2013). Os riscos potenciais do BPA resultaram na substituição por compostos análogos, como bisfenol S (BPS), bisfenol F (BPF) e bisfenol AF (BPAF), contudo, há indícios de que muitos substituintes apresentam atividade estrogênica semelhante ou até superior ao BPA, o que amplia as preocupações sobre os efeitos adversos à saúde, destacando a necessidade de abordagem abrangente frente às substâncias desreguladoras endócrinas (Pierre, 2022).
Conclusão: As evidências reunidas indicam que o BPA, amplamente empregado em dispositivos médicos, pode ser liberado em condições comuns de uso hospitalar, representando um risco potencial à saúde, especialmente para pacientes mais vulneráveis. A substituição por análogos, como BPS, BPF e BPAF, não elimina a preocupação, visto que também possuem atividade estrogênica. Assim, é essencial o desenvolvimento de alternativas seguras e a adoção de medidas regulatórias eficazes para reduzir a exposição hospitalar.
Referências:
BACLE, A. et al. Determination of bisphenol A in water and the medical devices used in hemodialysis treatment. International Journal of Pharmaceutics, [s. l.], v. 505, n. 1-2, p. 115–121, Mai. 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27012980/. Acesso em: 2 set. 2025.
CIMMINO, I. et al. Potential Mechanisms of Bisphenol A (BPA) Contributing to Human Disease. International Journal of Molecular Sciences, [s. l.], v. 21, n. 16, p. 5761, Ago. 2020. Disponível em: https://www.mdpi.com/1422-0067/21/16/5761. Acesso em: 2 set. 2025. 
DUTY, S. M. et al. Potential Sources of Bisphenol A in the Neonatal Intensive Care Unit. PEDIATRICS, [s. l.], v. 131, n. 3, p. 483–489, Fev. 2013. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3581842. Acesso em: 2 set. 2025.
PIERRE, L. Ocorrência de bisfenol A e análogos em água mineral envasada em diferentes materiais plásticos. 2024. Dissertação (Mestrado em Engenharia Ambiental) - Faculdade de Engenharia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: http://www.bdtd.uerj.br/handle/1/22735. Acesso em: 2 set. 2025.
SCENIHR (Scientific Committee on Emerging and Newly Identified Health Risks), Safety of the use of bisphenol A in medical devices. Fev. 2015. Disponível em: https://health.ec.europa.eu/publications/safety-use-bisphenol-medical-devices_en. Acesso em: 2 set. 2025.