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| ACHADOS CLÍNICOS, LABORATORIAIS E HISTOPATOLÓGICOS DE LHAMAS (Lama glama) COM POLIOENCEFALOMALÁCIA | |
| 1ANDRIEL GUSTAVO FELICHAK, 2NICOLE WIRSCHKE AZEVEDO, 3ADEMAR FRANCISCO FAGUNDES MEZNEROVVICK, 4ANA LETÍCIA RODRIGUES MARQUES, 5MARINA MARANGONI, 6PAULO HENRIQUE BRAZ | |
| 1Graduando de medicina veterinária, Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) 2Graduanda de medicina veterinária, Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) 3Mestrando em saúde, bem-estar e produção animal sustentável na Fronteira Sul, Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) 4Mestre em saúde, bem-estar e produção animal sustentável na Fronteira Sul, Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) 5Mestre em saúde, bem-estar e produção animal sustentável na Fronteira Sul, Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) 6Docente da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) |
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| Introdução: As lhamas (Lama glama), camelídeos originários dos Andes, vêm sendo criadas em diferentes regiões do Brasil, sobretudo em sistemas alternativos de produção e turismo (Franklin, 2011). Esse contexto expõe os animais a condições de manejo que favorecem enfermidades pouco descritas na espécie, entre elas, a polioencefalomalácia (PEM). A doença é caracterizada por necrose laminar do córtex cerebral, decorrente principalmente de deficiência de tiamina, podendo também estar relacionada a excesso de enxofre, intoxicação por plantas tóxicas, sal ou chumbo ou enterotoxemia por Clostridium perfringes do tipo D. (Constable et al., 2017; Smith, 2020). Os sinais clínicos incluem ataxia, convulsões, cegueira cortical e morte súbita. Apesar de amplamente estudada em bovinos e ovinos, há poucos relatos em camelídeos (Kiupel et al., 2003). Objetivo: Relatar um surto de Polioencefalomalácia em lhamas criadas em sistema semi-intensivo no Sudoeste do Paraná, e sua descrição clínica, laboratorial e histopatológica. Material e Métodos: O surto ocorreu em uma propriedade com 15 lhamas e sete alpacas, no município de Francisco Beltrão, Sudoeste do Paraná. Quatro lhamas (três fêmeas, sendo duas gestantes e um macho) desenvolveram sinais neurológicos após ingestão acidental de silagem de grão úmido. Dois animais foram necropsiados, com coleta de encéfalo, cerebelo, tronco encefálico e órgãos parenquimatosos. O material foi fixado em formol tamponado a 10% e processado para histopatologia (H&E). Realizou-se análise microbiológica da silagem de grão úmido em Ágar Sabouraud e exames bioquímicos séricos de um dos animais, considerando valores de referência para a espécie (Fowler & Zinkl, 1989). Resultados: Clinicamente, os animais apresentaram apatia, ataxia, rigidez cervical, andar em círculos, opistótono e decúbito esternal, evoluindo ao óbito em cinco a sete dias. Ao exame histopatológico observou-se o encéfalo com necrose laminar cortical, neurônios eosinofílicos, edema perineuronal e perivascular, além de rarefação neuropilar e gliosis, alterações típicas da PEM (Withoeft et al; 2019; Barbosa et al; 2023). Nos demais órgãos, observaram-se edema pulmonar e degeneração hepática discreta. Nos exames laboratoriais, a elevação da enzima aspartato aminotransferase (AST – 1.288 U/L [163–400 U/L]) foi a principal alteração encontrada. A ureia apresentou discreto aumento (40 mg/dL [9–33 mg/dL]), indicando possível catabolismo proteico ou desidratação leve. Proteínas totais, albumina, fósforo e creatinina permaneceram dentro dos limites fisiológicos, não havendo indícios de insuficiência de nenhum órgão. A análise microbiológica da silagem revelou crescimento de Aspergillus flavus, sem isolamento de Fusarium spp.. Discussão: A associação entre clínica, alterações bioquímicas e histopatologia confirmou PEM como causa do surto, condição rara em lhamas (Kiupel et al., 2003). O provável mecanismo foi deficiência de tiamina decorrente da mudança brusca da dieta e possível atividade de tiaminases (Gould, 1998). A fisiopatologia envolve a falência de enzimas tiamina-dependentes, comprometendo o metabolismo energético neuronal e levando à necrose cortical (Constable et al., 2017). O achado de A. flavus indica deterioração alimentar e risco de micotoxinas, embora não tenham sido observadas lesões hepáticas compatíveis com intoxicação primária (Finnie; Windsor; Kessell, 2011). Os exames laboratoriais foram cruciais para caracterizar o estado metabólico: a elevação da AST, em associação ao quadro clínico, reforçou o envolvimento de hipóxia e lesão muscular secundária; já os valores preservados de proteínas e creatinina indicaram ausência de falência hepática ou renal, direcionando o diagnóstico para encefalopatia metabólica. Assim, os dados laboratoriais complementaram a clínica e a histopatologia, reforçando a interpretação diagnóstica. Entre os diferenciais considerados, intoxicação por chumbo, sal, enxofre e enterotoxemia foram descartados pelo histórico e ausência de lesões típicas (Radostits et al., 2007). A maior frequência de casos em fêmeas gestantes sugere papel de maior demanda metabólica (Lacetera et al., 2001). A não administração precoce de tiamina contribuiu para a alta letalidade, uma vez que a resposta terapêutica é rápida quando instituída em fases iniciais (Marron et al., 2024). Conclusão: O surto descrito reforça a importância dos achados clínicos, laboratoriais e histopatológicos na confirmação da PEM em lhamas, enfermidade rara, mas potencialmente fatal em sistemas semi-intensivos. O consumo em excesso de silagem de grão úmido, foi o fator desencadeante. O relato destaca a necessidade de vigilância clínica precoce, realização de exames laboratoriais complementares, coleta e preservação adequadas de amostras para histopatologia e, sobretudo, adoção de estratégias nutricionais preventivas. |
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| Referências: BARBOSA, José Diomedes et al. Polioencephalomalacia in buffaloes in the Amazon Biome. Animals, v. 13, n. 19, p. 3131, 2023. CONSTABLE, P. D.; HINCHCLIFF, K. W.; DONE, S. H.; GRÜNBERG, W. Veterinary Medicine: a textbook of the diseases of cattle, horses, sheep, pigs and goats. 11. ed. Saint Louis: Saunders Elsevier, 2017. p. 1308-1314. FINNIE, J.W; WINDSOR, P.A; KESSELL, A.E. Doenças neurológicas de ruminantes na Austrália. II: distúrbios tóxicos e deficiências nutricionais. Australian Veterinary Journal , v. 89, n. 7, p. 247-253, 2011. FOWLER, M. E.; ZINKL, J. G. Reference ranges for hematologic and serum biochemical values in llamas (Lama glama). American Journal of Veterinary Research, v. 50, p. 2049-2053, 1989. FRANKLIN, W. L. Family Camelidae. In: WILSON, D. E.; REEDER, D. M. (ed.). Mammal Species of the World: a Taxonomic and Geographic Reference. 3. ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2011. p. 246-258. GOULD, Daniel H. Polioencefalomalacia. Journal of animal science , v. 76, n. 1, p. 309-314, 1998. KIUPEL, M.; VAN ALSTINE, W.; CHILCOAT, C. Gross and microscopic lesions of polioencephalomalacia in a llama (Lama glama). Journal of Zoo and Wildlife Medicine, v. 34, n. 3, p. 309-313, 2003. LACETERA, N.; BERNABUCCI, U.; RONCHI, B.; NARDONE, A. Effects of subclinical pregnancy toxemia on immune response in sheep. American Journal of Veterinary Research, v. 62, p. 1020-1024, 2001. MARRON, Y. M. et al. Necrosis cerebrocortical en pequeños rumiantes en Argentina: reporte de casos. FAVE. Seção Ciências Veterinárias, n. 23, set. 2024. RADOSTITS, O. M.; GAY, C. C.; HINCHCLIFF, K. W.; CONSTABLE, P. D. Veterinary Medicine: a textbook of the diseases of cattle, horses, sheep, pigs and goats. 10. ed. Saint Louis: Saunders Elsevier, 2007. p. 575-620. SMITH, B. P. Large Animal Internal Medicine. 6. ed. Saint Louis: Elsevier, 2020. p. 1870-1885. WITHOEFT, Jéssica A. et al. Polioencephalomalacia (PEM) in calves associated with excess sulfur intake. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 39, n. 06, p. 376-381, 2019. |
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