RINITE PIOGRANULOMATOSA E EOSINOFÍLICA EM MUAR: RELATO DE CASO
1MARIA LUIZA MARCHI SANTANDER, 2MARIA LUIZA STRINGHINI CARNEIRO, 3MAYARA NAYANE SACOMAN ROCHA NEVES, 4JOÃO VITOR LINARDI CLIMACO, 5MAX GIMENEZ RIBEIRO
1Discente do curso de medicina veterinária da UEM
2Discente do curso de medicina veterinária da UEM
3Residente do curso de medicina veterinária da UEM
4Residente do curso de medicina veterinária da UEM
5Docente do curso de medicina veterinária da UEM
Introdução: Halicephalobus gingivalis é um nematoide de vida livre, do gênero Halicephalobus, ordem Rhabdtida, superfamília Rhabditoidea e família Rhabditidae. Caracterizado por uma cutícula lisa e fina, com estriações transversais, cauda em forma cônica terminando em ponta fina, cavidade bucal alongada e esôfago rabditiforme. Foi descrito pela primeira vez por Stefansky no ano de 1954, em um granuloma de um cavalo na Polônia (SANTANA, 2018). O H. gingivalis é habitualmente encontrado no solo e em matéria orgânica. Acredita-se que sua multiplicação seja via partenogênese e que as lesões mucosas e pele sejam a principal entrada por se tratar de um parasito oportunista (RAMES, 2018). A rinite piogranulomatosa representa uma forma específica de inflamação crônica do trato respiratório superior, caracterizada histologicamente pela presença de um infiltrado misto, constituído por células inflamatórias agudas e crônicas, associados à composição de granulomas e áreas de necrose purulenta (HORE et al., 1973; CARBONELL, 1979).
Relato de caso: Um muar, fêmea, 8 anos de idade, foi encaminhado ao Setor de Clínica Médica de Grandes Animais do Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Maringá, Campus Umuarama (UEM). Durante o atendimento clínico, averiguou-se dificuldade respiratória e secreção nasal unilateral, restrita à narina direita. Foi realizada endoscopia das vias aéreas, que evidenciou a presença de uma massa intranasal. Optou-se pela cauterização da lesão, utilizando bisturi eletrônico associada à aplicação de nitrogênio líquido.  Foi retirado um fragmento irregular da mucosa nasal, medindo 4,3 × 1,7 × 0,3 cm, de coloração parda e aspecto brilhante, encaminhado ao Instituto Paranaense de Diagnósticos Veterinários para exame histopatológico. O laudo histopatológico revelou ulceração extensa e multifocal, acompanhada de fibroplasia e neovascularização intensas. Observou-se ainda infiltrado piogranulomatoso e eosinofílico, de padrão nodular multifocal a coalescente, associado à presença de estruturas compatíveis com larvas parasitárias intralesionais, além de intensa hiperemia. Com base nos achados, estabeleceu-se o diagnóstico de rinite piogranulomatosa e eosinofílica, nodular, multifocal à coalescente, quadro compatível à rinite parasitária, com possibilidade de Helicephalobus gingivalis. O protocolo terapêutico instituído consistiu na administração de iodeto por via oral (10 mL/dia, durante 30 dias), penicilina e flunixim meglumine por sete dias no pós-operatório. Após o período de tratamento, o animal apresentava-se clinicamente recuperado, sem dificuldade respiratória, ruídos adventícios ou secreção nasal.
Discussão: O caso observado, descreve um quadro de rinite piogranulomatosa e eosinofílica em um muar, com achados histopatológicos compatíveis com infecção por Halicephalobus gingivalis, e embora seja comumente encontrado em matéria orgânica em decomposição, pode infectar animais domésticos e silvestres (RAMES, 2018). Os sinais clínicos observados no animal (dificuldade respiratória acompanhada de secreção nasal unilateral) estão de acordo com relatos anteriores, nos quais a infecção nasal por H. gingivalis ocasionou obstrução. A obstrução nasal provavelmente decorre da congestão das veias cavernosas localizadas profundamente na lâmina própria, e não do edema da mucosa, que tende a ser discreto nos casos de granuloma nasal, embora se apresente de forma marcante na rinite alérgica em humanos. Os nódulos, por sua vez, não parecem ter papel relevante na obstrução, visto que permanecem mesmo durante o período de remissão clínica (CARBONELL, 1979). Esse caso ressalta a importância do exame histopatológico que foi essencial para o diagnóstico de Halicephalobus gingivalis, visto que a apresentação clínica é inespecífica e pode mimetizar diversas doenças respiratórias. No exame microscópico, pode se observar hiperplasia do epitélio respiratório de revestimento, assim como das glândulas, acompanhadas por fibroplasia, proliferação vascular e infiltrado linfocitário na lâmina própria. É comum identificar grande quantidade de eosinófilos compondo o processo inflamatório (PEMBERTON & WHITE, 1974; CARBONELL, 1979).
Conclusão: O caso apresentado evidencia a ocorrência de rinite piogranulomatosa em um muar, com achados histopatológicos associados a Halicephalobus gingivalis, um nematoide de vida livre capaz de atuar como parasito oportunista. O quadro clínico inespecífico ressalta a importância do exame histopatológico como ferramenta de diagnóstico indispensável, visto que pode diferenciar este quadro de outras enfermidades respiratórias com sinais clínicos semelhantes. O tratamento utilizado resultou em evolução clínica favorável, reforçando que a identificação e abordagem terapêutica adequada são fundamentais para bom resultado do tratamento da enfermidade. Além disso, este relato contribui para ampliar o conhecimento sobre a infecção por H. gingivalis, destacando sua relevância na medicina veterinária.
Referências:
CARBONELLI, P.L. Bovine nasal granuloma: a review. Australian Veterinary Journal, Revista, p. 158-165, 3 jun. 1979.
HORE, D.E et al. Nasal granuloma in dairy cattle: distribution in Victoria. Australian Veterinary Journal, Revista, p. 330-334, 3 jun. 1973.
PEMBERTON, DH et al. Bovine nasal granuloma in Victoria. 2. Histopathology of nasal, ocular and oral lesions. Australian Veterinary Journal, [S. l.], p. 89-97, 3 jun. 1974.
RAMES, DS et al. Granulomatous lesions in multiple organs in a horse caused by Halicephalus gingivalis. BJVP, Revista, p. 1-2, 21 out. 2018.
SANTANA, C et al. Granulomatous lesions in multiple organs in a horse caused by Halicephalus gingivalis. BJVP, Revista, p. 1-2, 21 out. 2018.