ESTÓRIAS QUE MOLDARAM A HISTÓRIA! — A EXPECTATIVA DE GÊNERO PROMOVIDA PELOS CONTOS DE FADAS TRADICIONAIS, COMO FERRAMENTA DE (DES)MANUTENÇÃO DO ATRIARCADO  
1JÉSSICA PÊGO GOMES SANTOS SILVA, 2NICOLI VILAÇA NOGUEIRA, 3FERNANDA ALMEIDA DOS SANTOS, 4LUIZ AUGUSTO MUGNAI VIEIRA JUNIOR
1Acadêmica de Psicologia - UNIPAR - Cascavel
2Acadêmica de Psicologia - UNIPAR - Cascavel
3Acadêmica de Psicologia - UNIPAR - Cascavel
4Docente e Pesquisador da UNIPAR/PIC - Cascavel
Introdução: Observa-se que os padrões de gênero são impostos socialmente, sobretudo às mulheres, e a problemática resultante de seu reforçamento por meio dos contos de fadas tradicionais perpetuam, regularmente, uma sociedade estruturada no machismo (a interiorização do feminino). Os contos de fadas, fábulas e mitos causam impactos sociais. Dessa forma, ressaltam o seu importante papel pedagógico, discutindo-se o quanto os contos de fadas contribuem negativamente no imaginário infantil, pois trazem visões limitantes, arcaicas e irreais referentes aos papéis de gênero.
Objetivo: Por meio de revisão bibliográfica, baseados em obras pertinentes ao tema, principalmente Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos (Grimm; Grimm, 1812/1815) e Contos da Mamãe Gansa (Perrault, 1697) o estudo pretende mostrar a possibilidade de propor outras formas de recontar algumas histórias e assim excluir das crianças a visão de que a menina esteja sempre no papel de indefesa e submissa, ao mesmo tempo em que se liberta os meninos do papel de herói e protetor, permitindo que ambos cresçam livres de amarras sociais e sejam protagonistas de suas próprias histórias.
Desenvolvimento: Os contos de fadas são fundamentalmente pedagógicos, dramatizando vivências que a criança traz como suas. Conforme Valente e Vasconcelos (2019), não existe uma teoria certa de como as histórias sobreviveram ao longo dos séculos, mas com toda certeza são um arquivo cultural comum a diversas culturas. Diferenciando-se dos mitos, cuja origem estava em explicar o mundo natural, os contos de fadas tinham outra função: não apenas de entretenimento, mas também de alerta e ensino de comportamentos socialmente aceitos. Conforme aponta Bettelheim (2002, p. 197), “o conto de fadas é a cartilha onde a criança aprende a ler sua mente na linguagem das imagens”. A sociedade ocidental da época a que se reportam os contos registrados por Perrault funda-se nas bases da cultura cristã patriarcal (Michelli, 2013, p. 2). Questiona-se, portanto, se não há uma manutenção dos papéis de gênero pré-impostos socialmente a partir da reprodução dessas histórias desatualizadas que crianças ouvem desde pequenas. A preocupação reside na exposição infantil a visões misóginas antes que tenham cognição ou repertório social para elaborar um pensamento crítico, afetando profundamente sua formação. Conforme Dowling (1981, p. 08), “não fomos jamais treinadas para a liberdade, mas sim para o seu oposto: a dependência”. A imagem recorrente do “príncipe salvador” e da “princesa indefesa” mostra um modelo machista de relacionamento, no qual o valor feminino está condicionado ao olhar e à aprovação masculina. Conforme Silva e Rodrigues (2021), essas histórias reforçam a fragilidade como um atributo feminino desejável, consolidando a ideia de que a mulher deve ser protegida, resgatada e recompensada com o casamento. A naturalização da violação do corpo feminino, como no beijo não consentido em “A Bela Adormecida”, contribui para a cultura do estupro e a normalização de relacionamentos abusivos. Atualmente, os contos são a forma mais primordial de transmitir cultura entre gerações. Seu conteúdo, devido à adaptabilidade oral, transformou-se de acordo com a necessidade e função do momento histórico-sócio-cultural. Os clássicos trazem ideais de um feminino consagrado pela tradição da pureza, romantismo e inocência, marcados pela aproximação de estereótipos misóginos.
Considerações finais: Estudar sobre os contos e seus impactos na formação da subjetividade humana é estudar também sobre valores, expectativas e tudo o que estamos transmitindo às próximas gerações (Silva e Rodrigues, 2021). Questionar-se sobre o conteúdo das narrativas é questionar se desejamos fazer a manutenção de um sistema que se favorece da exploração, seja de gênero, seja do trabalho. Recontar os contos, mostrando os pontos importantes a serem explorados, não é apagar a importância histórica dos mesmos, mas romper com a manutenção de ideias de uma sociedade nociva para que possa cada vez mais ser humanizada primando pela igualdade nas relações de gênero.
Referências:
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