ANÁLISE MORFO-TINTORIAL DE BACTÉRIAS EM SEDIMENTOS URINÁRIOS CANINOS: UM ESTUDO RETROSPECTIVO
1ITALO MORELLI MIACRI SOUZA, 2GABRIELY AMARO DE OLIVEIRA BORGES, 3STHEFANY PRISCILA DA CUNHA, 4ÁGATHA FERREIRA XAVIER DE OLIVEIRA, 5MARILDA ONGHERO TAFFAREL
1Mestrando do Programa em Produção Sustentável e Saúde Animal da Universidade Estadual de Maringá (UEM)
2Residente do Programa de Residência Médico Veterinária da Universidade Estadual de Maringá (UEM)
3Residente do Programa de Residência Médico Veterinária da Universidade Estadual de Maringá (UEM)
4Docente da Universidade Estadual de Maringá (UEM)
5Docente da Universidade Estadual de Maringá (UEM)
Introdução: As infecções do trato urinário são comuns na medicina veterinária, afetando com maior frequência os cães, principalmente idosos e fêmeas. A cistite bacteriana é a afecção mais frequente do sistema urinário, desencadeando sinais clínicos como: hematúria, polaciúria, estrangúria e disúria, porém, alguns animais podem ser assintomáticos (Lanzi, et al., 2022). Quando tais sinais são observados, se somados à presença de bacteriúria, há indicativo de infecção do trato urinário inferior (TUI) (Harrer et al., 2022). Outras afecções envolvendo bexiga e uretra podem prejudicar a funcionalidade do sistema promovendo o surgimento de infecções associadas (Grimes et al., 2020), como nos casos de retenção urinária onde há aderência e multiplicação de bactérias (Harrer et al., 2022). A maior parte das cistites bacterianas ocorre por meio da ascensão de microrganismos da uretra distal até a vesícula urinária, ou ainda por bactérias oriundas do trato gastrointestinal ou da pele (Lanzi et al., 2022), sendo a Escherichia coli, Staphylococcus spp., Enterococcus spp. e Streptococcus canis os microrganismos isolados com maior frequência (Grimes et al., 2020).
Objetivo: Realizar um levantamento da ocorrência de bacteriúria em cães, considerando os diferentes tipos bacterianos identificados por meio da morfologia e da coloração de Gram do sedimento urinário.
Material e Métodos: Trata-se de um estudo retrospectivo que buscou laudos de urinálises caninas, emitidos de agosto de 2024 a agosto de 2025 pelo Laboratório de Patologia Clínica do Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Maringá (HV-UEM). O foco foi em amostras com bacteriúria, analisando-se a caracterização morfo-tintorial das bactérias identificadas por coloração de Gram, e investigando a ocorrência conjunta de proteinúria e leucocitúria.
Resultados: Das 47 urinálises realizadas no período determinado, foram contabilizados 14 laudos de urinálise de cães que relataram a presença de bactérias visualizadas na sedimentoscopia, dos quais 85,71% (12) eram de fêmeas e 14,29% (2) coletadas de cães machos. As bactérias cocos gram-positivas foram mais prevalentes (53,33%/8), seguida dos bacilos gram-negativos (33,33%/5), cocos gram-negativos (6,66%/1) e cocobacilos gram-negativos (6,66%/1). Um dos laudos apresentava a associação de cocos gram-positivos e bacilos gram-negativos. Além disso, 57,14% (8) dos animais apresentaram proteinúria de moderada à intensa e foi observada leucocitúria em 71,42% (10) das amostras. Discussão: A maior ocorrência de bacteriúria no estudo foi em cadelas, que pode ser justificada pela proximidade do trato geniturinário das fêmeas à região anal, considerando-se que as bactérias intestinais são frequentes causadoras de infecções do trato urinário. Adicionalmente, a uretra das fêmeas é mais curta que a dos machos, o que também predispõe a ascensão de microrganismos (Sorensen et al., 2019). Grimes et al. (2020) e Harrer et al. (2022) concordam que a Escherichia coli é o microrganismo mais comum isolado em urocultura, se tratando de um bacilo gram-negativo. Contudo, no presente estudo, a maior prevalência foi de bactérias cocos gram-positivos. Por outro lado, conforme Lanzi et al. (2022), as bactérias Staphylococcus spp. e Enterococcus spp. também foram isoladas com frequência em urocultura de cadelas, juntamente da Escherichia coli, sendo ambas cocos gram-positivos, concordando com o estudo realizado. Esses microrganismos são comuns na uretra distal, sugerindo a infecção do trato urinário por ascensão bacteriana. Ainda, 57,14% dos laudos relataram a presença de proteinúria moderada à intensa, concordando com Grimes et al. (2020), que afirmam que a cistite bacteriana é uma das principais causas de proteinúria pós renal. Lanzi et al. (2022) também citam a presença de leucocitúria na sedimentoscopia como indicativo de inflamação do trato urinário, corroborando com o trabalho realizado, no qual 71,42% dos animais com bacteriúria apresentaram leucócitos na urina acima do valor de referência para a espécie.
Conclusão: O presente estudo observou a presença de cocos Gram-positivos como o achado bacteriano mais frequente, seguida por bacilos Gram-negativos. Entretanto, para a identificação específica do agente infeccioso, se faz necessário a realização da urocultura. Ainda, proteinúria de moderada à intensa e leucocitúria são achados associados mais frequentes em cães com infecção do trato urinário inferior, porém, a sua ausência não descarta a possibilidade da infecção.
Referências:
GRIMES, M. et al. Characteristics associated with bacterial growth in urine in 451 proteinuric dogs (2008–2018). Journal of Veterinary Internal Medicine, New Jersey, v. 34, n. 2, p. 770–776, 2020.
HARRER, J. et al. Bacterial urinary tract infection and subclinical bacteriuria in dogs receiving antineoplastic chemotherapy. Journal of Veterinary Internal Medicine, New Jersey, v. 36, n. 3, p. 1005–1015, 2022.
LANZI, T. D.; MARTINS, M. G.; ROMÃO, F. G. Retrospective study of bacterial agents found in urine culture of dogs: antimicrobial sensitivity and resistance profile. Acta Veterinaria Brasilica, Pederneiras, v. 16, n. 1, p. 58–64, 2022.
SØRENSEN, T. M. et al. Pre-test probability of urinary tract infection in dogs with clinical signs of lower urinary tract disease. Veterinary Journal, New Jersey, v. 247, p. 65–70, 2019.