FUNCIONALISMO E FORMAÇÃO EM SAÚDE: UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA CONTEMPORÂNEA  
1CRISTIAN HENRIQUE CANDIDO DA SILVA
1Enfermeiro. Mestrando em Enfermagem PPGEnf UFFS/Campus Chapecó-SC. Docente do Curso de Enfermagem da Universidade Paranaense - UNIPAR
Introdução: A compreensão das dinâmicas sociais que atravessam a saúde e a enfermagem requer uma análise crítica das bases sociológicas que estruturam essas práticas. O funcionalismo, uma das principais correntes da sociologia clássica, oferece uma leitura da sociedade como um sistema integrado, onde cada instituição exerce funções específicas que mantêm a ordem e a estabilidade social. Desde Durkheim e Parsons, essa abordagem foi fundamental para consolidar uma sociologia da saúde centrada na normatização de comportamentos e na legitimação das instituições como garantidoras da coesão social (Parsons, 1991). No contexto da saúde, o funcionalismo contribuiu para moldar um modelo biomédico normativo, voltado à função social do indivíduo e à manutenção da homeostase social. Tal modelo influenciou profundamente os currículos da enfermagem, as práticas assistenciais e a organização dos serviços de saúde no Brasil. Em um país com profundas desigualdades e diversidades culturais, essa abordagem oferece ferramentas para compreender o papel institucional, mas também limita a análise por desconsiderar os conflitos, as disputas de poder e as desigualdades estruturais ( Durkheim, 1995).
Objetivo: Refletir criticamente sobre as contribuições e os limites dessa corrente sociológica, questionando até que ponto ela ainda sustenta os modelos formativos e organizacionais da saúde.
Desenvolvimento: A abordagem funcionalista, ao privilegiar a estabilidade e a normatização das instituições sociais, oferece uma leitura importante sobre o papel das estruturas na manutenção da ordem. Contudo, no campo da saúde, essa visão se mostra insuficiente para captar a complexidade das relações sociais e os determinantes mais profundos do adoecimento. Nesse sentido, a perspectiva de Maria Cecília de Souza Minayo representa um contraponto essencial ao funcionalismo clássico. Sua proposta se ancora na valorização da subjetividade, da experiência dos sujeitos e na compreensão do processo saúde-doença-cuidado como construção histórica e social (Nunes, 2007; Minayo, 2007). Os fundamentos e limitações da formação profissional na área da saúde a partir de uma abordagem crítica sob a ótica sociológica do funcionalismo, é necessário discutir como essa perspectiva teórica moldou a educação em saúde no Brasil, destacando a necessidade de superação de um modelo normativo, tecnicista e voltado ao modelo biomédico. Em diálogo com os referenciais de Minayo, percebe-se a necessidade de ampliar a concepção de cuidado, voltada para práticas mais integradas, humanizadas e territorializadas, conforme preconizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse contexto, repensar o cuidado em saúde requer uma superação da visão normativa e técnica herdada do funcionalismo, abrindo espaço para formas de atenção mais integradas, humanizadas e territorializadas, como propõe o SUS (Campos, 2007). A análise funcionalista da formação em saúde revela importantes contribuições para a compreensão do papel da educação na manutenção da ordem social. Contudo, a centralidade conferida à técnica e à normatividade limita a capacidade do sistema de saúde de responder às complexas demandas sociais. Superar esse paradigma exige a incorporação de abordagens críticas, como a de Minayo, que valorizam o cuidado como prática social, reconhecendo a diversidade dos sujeitos e dos contextos em que estão inseridos. Nesse sentido, a formação profissional em saúde deve ser repensada, de modo a articular o saber técnico-científico com o saber popular e experiencial, promovendo uma atenção mais integral, humana e efetiva (Minayo, 2007).
Conclusão: A análise sociológica da formação em saúde sob a perspectiva do funcionalismo permitiu compreender os impactos dessa teoria na consolidação de práticas técnico-normativas, centradas na manutenção da ordem social e na reprodução de modelos biomédicos tradicionais. Embora o funcionalismo tenha oferecido uma base explicativa relevante para o entendimento das funções institucionais e da estruturação dos sistemas de saúde, ele mostra-se limitado diante das complexidades sociais, culturais e políticas que atravessam o processo saúde-doença-cuidado. Nesse sentido, a superação do paradigma funcionalista na educação em saúde implica um reposicionamento da formação profissional, com vistas à valorização de práticas integradas, humanizadas e contextualizadas.
Referências:
CAMPOS, A. C. S. Humanização dos cuidados em saúde: conceitos, dilemas e práticas. Cadernos de Saúde Pública, v. 23, n. 4, p. 979–81, abril de 2007. Disponível em  https://doi.org/10.1590/S0102-311X2007000400027. Acesso em 05/09/25.
DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1995. Disponível em https://wp.ufpel.edu.br/franciscovargas/files/2018/05/As-Regras-Do-Metodo-Sociologico-Emile-Durkheim.pdf Acesso em 05/09/25.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 10. ed. São Paulo: Hucitec, 2007.
NUNES, Everardo Duarte. “Epidemiologia crítica: ciência emancipadora e interculturalidade”. Cadernos de Saúde Pública, vol. 23, no 7, julho de 2007, p. 1741–42. DOI.org (Crossref), https://doi.org/10.1590/S0102-311X2007000700032. Acesso em 05/09/25.
PARSONS, T. The Social System. New York: Free Press, 1951. Disponivel em https://voidnetwork.gr/wp-content/uploads/2016/10/The-Social-System-by-Talcott-Parsons.pdf Acesso em 05/09/25.