MICÉLIO DE Lentinus berteroi APRESENTA ALTERAÇÕES NO TEOR DE COMPOSTOS FENÓLICOS E DE FLAVONOIDES SOB DIFERENTES CONDIÇÕES DE ILUMINAÇÃO  
1MARIA APARECIDA PEREIRA GARCEZ, 2GABRIEL TRAMONTINI PEREIRA, 3NELMA LOPES ARAÚJO, 4RENATO CASTRO DA SILVA, 5DOUGLAS FABIANO COSTA DE LIMA, 6JULIANA SILVEIRA DO VALLE
1Mestranda em Biotecnologia Aplicada à Agricultura, Bolsista CNPq, UNIPAR
2Mestrando em Biotecnologia Aplicada à Agricultura, Bolsista CNPq, UNIPAR
3Pós-doutoranda em Ciência Animal com Ênfase em Produtos Bioativos UNIPAR e Instituto Federal do Paraná, IFPR
4Doutorando em Biotecnologia Aplicada à Agricultura, UNIPAR
5Doutorando em Biotecnologia Aplicada à Agricultura, UNIPAR
6Docente da Pós-Graduação em Biotecnologia Aplicada à Agricultura e em Ciência Animal com Ênfase em Produtos Bioativos UNIPAR
Introdução: Os cogumelos são utilizados como alimento e de forma medicinal há muitos séculos em todo o mundo. No Brasil, povos indígenas da etnia Yanomami incluem em sua dieta tradicional várias espécies de cogumelos nativos do bioma Amazônia, incluindo Lentinus berteroi (Nishikido, 2019). São poucas as pesquisas sobre L. berteroi, porém sabe-se de sua capacidade de produzir  compostos bioativos, enzimas com aplicações industriais e em biorremediação (Batistela et al., 2023). Nos fungos, a produção de metabólitos é influenciada por diversos fatores, inclusive a luz que é usada como fonte de informação sobre as condições do ambiente. Para tanto, as espécies possuem sistemas de fotorresposta onde atuam fotorreceptores específicos que respondem a diferentes comprimentos de onda de luz (Corrochano, 2019). Os efeitos da luz incluem alterações no crescimento, produção de enzimas e de metabólitos (Halabura et al., 2023). Ainda não há dados sobre os efeitos da luz sobre o metabolismo de L. berteroi. Assim, avaliar o efeito da luz sobre o teor de fenóis e de flavonoides de L. berteroi permite explorar estratégias para otimizar a produção de compostos bioativos de interesse biotecnológico. 
Objetivo: Determinar os teores de fenóis e flavonoides no micélio de L. berteroi cultivado sob diferentes comprimentos de onda de luz.
Material e métodos: O micélio de L. berteroi (U21-2) da coleção do Laboratório de Biologia Molecular da UNIPAR foi cultivado em meio extrato de malte (2%), por 21 dias a 28 °C em 90 réplicas. Durante todo o cultivo o micélio permaneceu exposto à luz fornecida por diodos emissores de luz (LED) azul (450-495 nm), verde (495-570 nm) ou vermelho (620-750 nm) com fluxo de fótons de 20 μmol/m.s (Halabura et al., 2023). Como controle, o micélio também foi mantido no escuro. No 21º dia, a biomassa foi separada do meio de cultivo por filtração e seca a 50 °C. O micélio seco foi triturado em nitrogênio líquido até a obtenção de um pó fino e armazenado em ultra-freezer a -84°C. Para produção de extratos o micélio em pó foi submetido a duas extrações sucessivas com solução de etanol (80%) e água (20%) a 50 °C por 60 min. Os extratos obtidos (100 mg/mL) foram diluídos com a solução extratora até as concentrações de 80, 60 e 40 mg/mL e usados na determinação do teor de fenóis totais e de flavonoides. O teor de fenóis totais foi determinado pelo método de Folin-Ciocalteau (Singleton et al., 1999) e calculado a partir de curva padrão de ácido gálico (10-700 µM). Os resultados foram expressos em µg equivalentes de ácido gálico (EAG) por mg de micélio. Os flavonoides totais foram determinados pelo método colorimétrico com cloreto de alumínio (Dulf et al., 2017) e calculados de acordo com curva padrão de quercetina (1-25 mg/mL). Os resultados foram expressos em µg equivalentes de quercetina (EQ) por mg de micélio. Os resultados foram avaliados por análise de variância (ANOVA) e as diferenças entre as médias determinadas pelo teste de Scott-Knott a 5% de probabilidade. Determinou-se a correlação de Pearson para avaliar a relação entre o comprimento de onda de luz e o teor de fenóis e flavonoides.
Resultados: A luz afetou o teor de fenóis e de flavonoides no micélio de L. berteroi. A luz azul aumentou o teor de flavonoides em 17% (3,45 ± 0,24 µg EAG/mg) e o de fenóis em 16% (3,47 ± 0,19 µg EAG/mg) comparado ao cultivo no escuro. A luz verde não afetou a concentração de flavonoides (3,12 ± 0,14 µg EAG/mg) e nem de fenois (3,09 ± 0,18 µg EAG/mg) que foram similares ao cultivo sem luz. A luz vermelha, no entanto, reduziu o teor de flavonoides (2,46 ± 0,14 µg EAG/mg) e de fenois (2,74 ± 0,06 µg EAG/mg) em 16% e 8%, respectivamente. A correlação de Pearson revelou uma correlação negativa muito forte entre o comprimento de onda de luz e a concentração de flavonoides (r2 = -0,99) e fenóis (r2 = -0,95), indicando que quanto maior o comprimento de onda de luz usada no cultivo, menor o teor de compostos fenólicos.
Discussão: Os resultados sugerem que L. berteroi possui um sistema de fotorresposta assim como outros basidiomicetos. Estes são os primeiros resultados sobre a influência da luz no metabolismo dessa espécie. Estudos com outras espécies de Lentinus indicaram efeitos distintos da luz sobre o micélio. Em L. crinitus observou-se redução do teor de fenóis sob luz azul e verde e aumento do teor de fenóis sob luz vermelha, o oposto do observado para L. berteroi. Já para L. tigrinus, as luzes azul e vermelha aumentaram o teor de compostos fenólicos (Damaso Júnior et al., 2018). Isso sugere que o efeito da luz sobre o metabolismo depende de características da espécie avaliada. Estudos adicionais são necessários para identificar os compostos.
Conclusão: A luz azul aumenta a concentração de compostos fenólicos no micélio de L. berteroi sendo uma estratégia simples e de baixo custo para aumentar compostos de interesse. Este estudo amplia o conhecimento sobre a composição química de L. berteroi e abre perspectivas para sua aplicação nas áreas farmacêutica, nutracêutica e alimentar, incentivando futuras pesquisas.
Referências:
BATISTELA, A. M. P. et al. Phytase production by white-rot fungi cultivated in liquid medium with particulate agro-industrial byproducts. Concilium, v. 23, n. 5, p. 250-264, 2023.
CORROCHANO, L. M. Light in the fungal world: from photoreception to gene transcription and beyond. Annual Review of Genetics, v. 53, n. 1, p. 149-170, 2019.
DAMASO JR, Eduardo J. et al. Effects of color light emitting diode (LED) on the mycelial growth, fruiting body production, and antioxidant activity of Lentinus tigrinusCLSU International Journal of Science and Technology, v. 3, n. 2, p. 9-16, 2018.
DULF, Francisc Vasile et al. Phenolic compounds, flavonoids, lipids and antioxidant potential of apricot (Prunus armeniaca L.) pomace fermented by two filamentous fungal strains in solid state system. Chemistry Central Journal, v. 11, n. 1, p. 1-10, 2017.
HALABURA, M.I.W. et al. Light conditions affect the growth, chemical composition, antioxidant and antimicrobial activities of the white-rot fungus Lentinus crinitus mycelial biomass. Photochemical & Photobiological Sciences, v. 22, n. 3, p. 669-686, 2023.
NISHIKIDO, L.M.T. Cogumelos como hábitos alimentares dos índios Yanomami-saberes associados à ciência, à preservação e à defesa da floresta amazônica. Revista de Estudios Brasileños, v. 6, n. 11, p. 205-210, 2019.
SINGLETON, Vernon L. et al. Analysis of total phenols and other oxidation substrates and antioxidants by means of Folin Ciocalteu reagent. In: Methods in Enzymology, Academic press. p. 152-178, 1999.