DECLÍNIO DO VALOR NUTRICIONAL DOS ALIMENTOS: EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS, CAUSAS E IMPLICAÇÕES PARA A NUTRIÇÃO  
1MARIA MARY MATSUMORI BELAFONTE, 2GIULIA VICTORIA BERTOLDO, 3LIDIANE NUNES BARBOSA
1Discente do Curso de Nutrição da Unipar - Umuarama PR
2Acadêmica do Curso de Nutrição da UNIPAR
3Docente da UNIPAR
Introdução: Nas últimas décadas, evidências científicas apontam para uma queda significativa na concentração de macro e micronutrientes de frutas, vegetais e grãos, fenômeno descrito como “diluição de nutrientes”. Esse processo está associado a mudanças nos sistemas de produção agrícola, seleção de cultivares de alto rendimento e alterações ambientais globais (Davis et al., 2004). Mais do que uma questão agronômica, essa perda nutricional vem sendo considerada uma ameaça iminente à saúde pública, pois além de comprometer a ingestão adequada de nutrientes essenciais, pode agravar o risco de deficiências e contribuir para o aumento de doenças metabólicas e crônicas (National Geographic Brasil, 2022). Os impactos tendem a ser ainda mais severos em grupos vulneráveis, especialmente aqueles em situação de insegurança alimentar.
Objetivo: Analisar, por meio de revisão narrativa, as evidências científicas sobre a redução do valor nutricional dos alimentos, discutindo suas causas e implicações para alimentação e orientação nutricional.
Desenvolvimento: Estudos comparativos entre dados históricos e atuais de composição alimentar revelam quedas expressivas de nutrientes. Nos Estados Unidos, a análise de 43 hortaliças cultivadas entre 1950 e 1999 demonstrou reduções médias de 6 a 38% em proteína, cálcio, fósforo, ferro, riboflavina e vitamina C (Davis et al., 2004). No Reino Unido, registros de 1940 a 2019 apontaram diminuição de até 50% no teor de ferro e cobre em frutas e vegetais (Fraser, 2024). Revisões recentes indicam que, entre 1950 e 2010, a redução média de vitaminas e minerais em frutas, vegetais e cereais variou de 5 a 40%, dependendo do nutriente e do alimento analisado (Mayer et al., 2024). Apesar dessas evidências internacionais, ainda são escassos os estudos sobre alimentos produzidos no Brasil, o que limita a compreensão de como fatores locais, como clima, manejo do solo e variedades regionais, influenciam a densidade nutricional. Entre as principais causas desse declínio estão a exaustão e o manejo inadequado do solo, decorrentes de monoculturas, uso excessivo de fertilizantes sintéticos e práticas agrícolas intensivas, que degradam a fertilidade e reduzem a biodisponibilidade de nutrientes (Loladze, 2014), além das mudanças climáticas, que, com o aumento do CO₂ atmosférico, alteram a fotossíntese e o metabolismo das plantas, favorecendo o acúmulo de carboidratos e a redução proporcional de micronutrientes como ferro, zinco e proteína (Gojon et al., 2023; Mayer et al., 2024). Soma-se a isso a perda de biodiversidade vegetal, impulsionada pela substituição de variedades tradicionais por cultivares comerciais de alto rendimento, o que diminui a variabilidade nutricional e contribui para a homogeneização da dieta (Mayer et al., 2024). As consequências do declínio nutricional não se distribuem de forma homogênea entre as populações. Grupos em situação de insegurança alimentar, que já enfrentam restrições no acesso a uma dieta variada e de qualidade, são os mais afetados, pois dependem majoritariamente de alimentos básicos de origem vegetal. Nessas populações, a redução da densidade nutricional amplia o risco de deficiências de micronutrientes (como ferro, zinco e vitaminas do complexo B), que podem comprometer o crescimento, a imunidade e aumentar a prevalência de doenças crônicas ao longo da vida. Esse cenário ressalta a necessidade de políticas públicas que integrem segurança alimentar e nutricional com estratégias de preservação da qualidade dos alimentos (National Geographic Brasil, 2022). Assim, as implicações desse cenário são amplas, incluindo o aumento do risco de carências nutricionais, a necessidade de ajustes nas recomendações dietéticas e a implementação de estratégias como biofortificação, diversificação alimentar e práticas agroecológicas (Bhardwaj et al., 2025).
Conclusão: O declínio da densidade nutricional dos alimentos é um fenômeno documentado por diversas pesquisas internacionais e representa um desafio crescente para a nutrição e saúde pública. Dessa forma, enfrentar esse problema exige integração entre políticas agrícolas e nutricionais, visando preservar e recuperar a qualidade dos alimentos produzidos. Portanto, profissionais de saúde devem estar atentos a essa realidade para orientar adequadamente a população e incentivar escolhas alimentares diversificadas e de maior qualidade nutricional, com atenção especial a populações em situação de insegurança alimentar, que são as mais vulneráveis aos impactos dessa redução nutricional.
Referências:
BHARDWAJ, R. L.; PARASHAR, A.; PAREWA, H. P.; VYAS, L. An alarming decline in the nutritional quality of foods: the biggest challenge for future generationsʼ health. Foods, v. 13, n. 4, p. 877, 2024. Disponível em:https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38540869/. Acesso em: 12 ago. 2025.
DAVIS, D. R. et al. Changes in USDA food composition data for 43 garden crops, 1950 to 1999. Journal of the American College of Nutrition, v. 23, 2004. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15637215/. Acesso em: 13 ago. 2025.
FRASER, H. Displacing empty calories with nutrient dense food: how can UK farmers be rewarded for practices that promote nutrient density? Somerset: Nuffield Farming Scholarships Trust, 2025.. Disponível em:https://www.nuffieldscholar.org/sites/default/files/2025-06/Nuffield%20report%20final%20-%20Hannah%20Fraser_.pdf. Acesso em: 12 ago. 2025.
GOJON, A.; CASSAN, O.; BACH, L.; LEJAY, L.; MARTIN, A. The decline of plant mineral nutrition under rising CO₂: physiological and molecular aspects of a bad deal. Trends in Plant Science, v. 28, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.tplants.2022.09.006. Acesso em: 13 ago. 2025.
LOLADZE, I. Hidden shift of the ionome of plants exposed to elevated CO₂ depletes minerals at the base of human nutrition. eLife, v. 3, 2014. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24867639/. Acesso em: 12 ago. 2025.
MAYER, A. M. B.; TRENCHARD, L.; RAYNS, F. Historical changes in the mineral content of fruit and vegetables in the UK from 1940 to 2019: a concern for human nutrition and agriculture. International Journal of Food Sciences and Nutrition, v. 73, 2021. Disponível em:https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34651542/. Acesso em: 20 ago. 2025.
NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Frutas e legumes são menos nutritivos do que costumavam ser. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2022/05/frutas-e-legumes-sao-menos-nutritivos-do-que-costumavam-ser. Acesso em: 22 ago. 2025.