DISTIQUÍASE EM GATO: RELATO DE CASO  
1HEITOR HERINGER FREITAS, 2NATÁLIA FACHETTI BONGIOVANI, 3TALITA MARIANA MORATA RAPOSO FERREIRA, 4LAURA MONTEIRO DE CASTRO CONTI, 5DANIELA CAMPAGNOL, 6CRISTIANE DOS SANTOS HONSHO
1Médico Veterinário - Clínica Veterinária Aumigo, Vila Velha/ES.
2Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal da Universidade Vila Velha (PPGCA/UVV), Vila Velha/ES
3DOCENTE UVV
4DOCENTE UVV
5DOCENTE UVV
6Docente da UVV
Introdução: Distiquíase refere-se a cílios ou pelos modificados emergindo erroneamente pelas glândulas de meibômio em direção à córnea. Há maior incidência na pálpebra superior, mas pode acometer a inferior e ser bilateral (Gelatt, 2021). Cães são comumente acometidos, sendo raro em outras espécies (Verboven et al., 2014). Os sinais estão relacionados ao atrito crônico dos cílios sobre a superfície ocular, cuja intensidade varia conforme o tamanho e espessura dos pelos. O diagnóstico consiste na visualização dos cílios e o tratamento deve atenuar o desconforto e evitar recidivas (Gómez et al., 2020). Este relato apresenta um felino com distiquíase bilateral, cursando com descemetocele, cuja avaliação oftálmica precoce possibilitou tratamento a tempo de se evitarem severas complicações.
Relato do caso: Felino, macho, srd, com 4 meses foi atendido com epífora, blefarospasmo e fotofobia, há 30 dias. Ao exame oftálmico observou-se distiquíase superior e inferior bilateral, e úlcera superficial em olho esquerdo, após o teste de fluoresceína. O tratamento consistiu na remoção manual dos cílios com pinça e uso de pomada oftálmica à base de cloranfenicol, acetato de retinol, aminoácidos e metionina, QID/45 dias e gel ocular à base de dexpantenol continuamente. Após 15 dias, houve regressão da úlcera evidenciando-se na região central da córnea a forma dendrítica. Aos 7 meses de idade, houve agravamento dos sinais oculares, evidenciando-se distiquíase bilateral, superior e inferior, hiperemia conjuntival moderada e descemetocele com 6mm de diâmetro no centro da córnea direita, moderado edema perilesional e neovascularização. Procedeu-se com o enxerto conjuntival pediculado no olho direito e crioepilação bilateral com dispositivo Nitrospray na face interna das pálpebras, 3 mm abaixo da borda tarsal, empregando-se ponteira aberta de 7 mm. Foram realizados dois ciclos de congelamento e descongelamento total, removendo-se manualmente os cílios ao fim do procedimento. No pós-operatório, instituiu-se topicamente cloridrato de moxifloxacino e hialuronato de sódio, QID; por via oral, amoxicilina com clavulanato de potássio (20mg/kg), BID/10 dias; dipirona monoidratada (25mg/kg), SID/3 dias; meloxicam (0,1mg/kg), VO, SID/3 dias, e uso contínuo de colar elisabetano. Foram realizados retornos semanais até a remoção dos pontos aos 20 dias. A ressecção do pedículo ocorreu aos 28 dias de pós-operatório, sob anestesia. Alguns cílios foram evidenciados no olho direito e removidos manualmente com pinça. Após três meses houve recidiva de pelos mais finos e fracos no olho direito, os quais foram removidos manualmente e indicada a manutenção do lubrificante e retornos sempre que observado desconforto ocular.
Discussão: Cães, porcos, cavalos, bovinos, e ovelhas apresentam cílios na superfície externa da margem palpebral superior, os três últimos podem apresentar cílios nas pálpebras inferiores (Herman and Ensink, 2014). Gatos não têm cílios verdadeiros, mas uma linha de cabelos modificados que atuam de forma idêntica, e não são refratários à distiquíase, visto que ela ocorre devido à falha na diferenciação celular das glândulas de meibômio, que são folículos pilosos modificados e comuns a todos os animais (Reinstein et al., 2011). Os sinais da distiquíase manifestam-se entre dois e seis meses de idade, corroborando o observado neste paciente, no qual identificou-se o problema  aos 2 meses de idade (Petersen et al., 2015). O herpesvírus felino-1 (FHV-1) está comumente relacionado à conjuntivite e ceratite em gatos, sendo considerado onipresente entre os gatos domésticos e provavelmente esteve relacionado ao agravamento observado neste paciente cuja história inicial cursou com rinotraqueite. A reativação do vírus latente devido à irritação persistente da superfície ocular pode ser considerada, embora o trauma mecânico dos cílios também resulte em ceratite, ulceração e possível perfuração. Apesar de presumir-se infeção pelo FHV-1, é importante notar que a ulceração da córnea e a conjuntivite se resolveram rapidamente com a remoção da distiquiase. O sinal patognômico da ceratite herpética é a ulceração dendrítica, a qual foi observada no olho esquerdo (Gelatt, 2021). A depilação manual da distiquiases elimina de imediato os sinais decorrentes da irritação dos cílios aberrantes, mas há crescimento de novos pelos (DʼAnna, et al., 2007) como observado no paciente. Como tratamentos permanentes, citam-se: eletroepilação, eletrocauterização, excisão parcial da placa tarsal ou crioterapia, os quais apesar da melhora podem não ser completamente efetivos, como observado neste paciente (Gómez et al., 2020; Gelatt et al., 2022). A crioterapia é descrita para tratamento da distiquíase em homens, cães e cavalos, pode ser acompanhada por despigmentação permanente, cicatrizes e distorção da pálpebra e recorrência de distiquíase (Zwiauer-Wolfbeisser et al., 2025). O paciente deste relato não apresentava margens palpebrais pigmentadas e o crescimento de novos cílios foi em menor quantidade e espessura. A crioterapia não deformou a pálpebra, podendo ser feita conjuntamente com o pedículo conjuntival, o qual foi escolhido para dar suporte tectônico e trófico, restaurar a anatomia corneana e sua funcionalidade.
Conclusão: A distiquíase apesar de rara pode acometer os felinos e quanto antes identificada e tratada pode atenuar o desconforto ocular e prevenir complicações.
Referências:
DʼANNA, N. et al. Use of a dermal biopsy punch for removal of ectopic cilia in dogs: 19 cases. Veterinary Ophthalmology, v. 10, n. 1, p. 65-67, 2007. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1463-5224.2007.00488.x.
GELATT, K. N. Veterinary ophthalmology. 6. ed. Hoboken: Wiley & Sons, 2021.
GELATT, K. N.; GELATT, J. P.; PLUMMER, C. E. Veterinary ophthalmic surgery. 2. ed. Cambridge: Elsevier, 2022.
HERMANS, H.; ENSINK, J. M. Treatment and long-term follow-up of distichiasis, with special reference to the Friesian horse: a case series. Equine Veterinary Journal, v. 46, n. 4, p. 458-462, 2014. Disponível em: https://beva.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/evj.12157.
GÓMEZ, A. P. et al. Evaluation of partial tarsal plate excision using a transconjunctival approach for the treatment of distichiasis in dogs. Veterinary Ophthalmology, v. 23, n. 3, p. 506-514, 2020. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/vop.12748.
PETERSEN, T. et al. Prevalence and heritability of distichiasis in the English Cocker Spaniel. Canine Genetics and Epidemiology, v. 2, p. 11, 2015. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4579384/.
REINSTEIN, S. L.; GROSS, S. L.; KOMÁROMY, A. M. Successful treatment of distichiasis in a cat using transconjunctival electrocautery. Veterinary Ophthalmology, v. 14, n. 1, p. 130-134, 2011. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1463-5224.2011.00932.x.
VERBOVEN, C. A.; DUCATELLE, R.; VAN DEN BROEK, W.; GELATT, K. N. Distichiasis in a ferret (Mustela putorius furo). Veterinary Ophthalmology, v. 17, n. 4, p. 290-293, 2014. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/vop.12107.
ZWIAUER-WOLFBEISSER, V.; TICHY, A.; NELL, B. Evaluation of ocular surface parameters before and after cryo- and laser therapy for distichiasis in dogs: a pilot study. Veterinary Ophthalmology, v. 28, n. 3, p. 630-639, 2025. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/vop.13275.