ODONTOLOGIA E RESISTÊNCIA ANTIMICROBIANA: IMPORTÂNCIA DA PRESCRIÇÃO ADEQUADA - REVISÃO DE LITERATURA  
1RAPHAELA ARANTES DA SILVA, 2GABRIELA KAROLINA CEROZINO, 3PATRICIA GIZELI BRASSALLI DE MELO
1Acadêmica do Curso de Odontologia da UNIPAR
2Acadêmica do Curso de Odontologia da UNIPAR
3Docente da UNIPAR
Introdução: Na prática odontológica, os antibióticos estão indicados para uso profilático, na prevenção de infecções ou no uso terapêutico, no tratamento de processos infecciosos (ANDRADE et al., 2013). Os antibióticos figuram entre as classes farmacológicas mais prescritas mundialmente, contudo, estima-se que entre 30% e 50% dessas prescrições sejam inadequadas ou desnecessárias (ARAUJO, 2018). Embora sejam essenciais no controle de infecções, seu uso pode acarretar diversos efeitos colaterais, entre os quais se destaca a resistência antimicrobiana, considerada atualmente um dos maiores problemas globais de saúde pública, uma vez que reduz a eficácia dos tratamentos e favorece o surgimento de bactérias super-resistentes (DIOGO et al., 2023). Nesse cenário, inúmeros estudos têm sido conduzidos com o objetivo de analisar os padrões de prescrição de antimicrobianos por profissionais da saúde, e entre estes, os cirurgiões-dentistas (BARREIRO, 2022).
Objetivo: Analisar, por meio de uma revisão de literatura, os padrões de prescrição de antibióticos na prática odontológica e ressaltar a importância do uso racional desses fármacos para a prevenção da resistência bacteriana e de efeitos adversos.
Desenvolvimento: A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o uso irracional e inadequado de antibióticos como um problema de alcance global, decorrente da administração excessiva ou incorreta desses fármacos (SPRENGER, 2019). O uso inadequado de antibióticos representa um risco significativo à saúde, pois a exposição repetida das bactérias a esses agentes permite alterações genéticas que conferem resistência aos medicamentos, fenômeno conhecido como resistência natural. Além disso, observa-se que o consumo inadequado de antibióticos tem levado ao aparecimento das chamadas “superbactérias”, organismos altamente resistentes e difíceis de tratar (REIS et al., 2024). Na odontológica, os antibióticos, juntamente com os analgésicos, correspondem à maior parte das prescrições realizadas por cirurgiões-dentistas. Nesse contexto, destaca-se que a odontologia pode ter um papel significativo na problemática da resistência bacteriana (Carvalho et al., 2017). Além dos médicos, os cirurgiões-dentistas também possuem respaldo legal para prescrever antibióticos. No entanto, conforme orientações das diretrizes nacionais e internacionais, essa prescrição deve restringir-se a terapias de curta duração, voltadas exclusivamente à execução de procedimentos odontológicos (LISBOA et al., 2018). Estudos da literatura indicam, contudo, que essa prática está frequentemente associada a falhas na elaboração das prescrições, incluindo doses acima do recomendado, ilegibilidade da escrita, além de equívocos relacionados à frequência e ao tempo de uso do medicamento (HAQUE et al., 2016). No Canadá, verificou-se um aumento de 62,2% nas prescrições de antibióticos por cirurgiões-dentistas, sendo que 84% delas foram realizadas sem indicação clínica adequada (PINHEIRO et al., 2019). De forma semelhante, Araghi et al. (2016), ao investigarem prescrições emitidas por residentes em Odontologia na cidade de Kermanshah, no Irã, identificaram falhas significativas: 16,1% relacionadas à forma farmacêutica, 33,9% a erros de digitação, 15% sem a definição da dosagem e 20% sem a descrição do regime terapêutico. No contexto brasileiro, Lisboa et al. (2018), ao avaliarem 366 prescrições de antibióticos, observaram inconsistências em 29% dos casos quanto ao nome do medicamento, 29,8% referentes à duração do tratamento, 10,7% relacionadas à dosagem e 23,5% ao intervalo entre as administrações. Equívocos na prescrição de medicamentos podem estar associados tanto à limitação do conhecimento profissional quanto ao uso de informações incorretas sobre as propriedades farmacológicas e as indicações terapêuticas dos fármacos. Segundo Santos (2018), a indicação de antibióticos em odontologia é pertinente quando o sistema imunológico do paciente não consegue conter de maneira eficaz o processo infeccioso durante o tratamento. Além disso, a prescrição profilática também pode ser necessária em situações específicas, mesmo na ausência de sinais clínicos de infecção, com o intuito de evitar a proliferação bacteriana e reduzir o risco de complicações pós-operatórias. Contudo, o uso inadequado ou excessivo desses medicamentos, além de favorecer o desenvolvimento da resistência bacteriana, pode desencadear efeitos adversos sistêmicos, como intoxicações e reações alérgicas graves. Nesse sentido, torna-se essencial que os profissionais da saúde dominem os mecanismos de ação e as indicações corretas dos antibióticos, assegurando sua utilização de forma eficaz e segura (BADDOUR et al., 2022).
Conclusão: Considerando os aspectos discutidos, torna-se imprescindível que o cirurgião-dentista detenha domínio sobre os diferentes antimicrobianos empregados na prática odontológica, assegurando sua prescrição de forma racional e criteriosa. Tal conduta contribui para a redução do uso indiscriminado, minimiza o risco de desenvolvimento de resistência microbiana e, sobretudo, prevenir potenciais efeitos adversos que possam comprometer a segurança e o bem-estar do paciente.
Referências:
ANDRADE, Eduardo et al. Farmacologia, Anestesiologia e Terapêutica em Odontologia. Série ABENO-Odontologia Essencial. Editora: Artes Médicas, 2013.
ARAGHI, Solmaz et al. The study of prescribing errors among general dentists. Global journal of health Science, v. 8, n. 4, p. 32-43, 2016.
ARAÚJO, Laís Gomes et al. Conhecimento de acadêmicos de Odontologia sobre os aspectos clínicos, éticos e legais da prescrição medicamentosa. REV-UPF. v.17, n.1, 10.5335/rfo.v17i1.2542, 2018.
BADDOUR, L. M. et al. Infective endocarditis in adults: diagnosis, antimicrobial therapy, and management of complications: a scientific statement for healthcare professionals from the American Heart Association. Circulation, v. 132, n. 15, p. 1435-1486, 2022.
BARREIRO, Adán Romina. Contribuição da terapêutica na Medicina Dentária para as resistências antimicrobianas: revisão sistemática integrativa. [Dissertação (Mestrado em Medicina Dentária)] – Instituto Universitário de Ciências da Saúde (CESPU), Gandra, Portugal, julho 2022.
CARVALHO, Amanda Aparecida de et al. Visão Farmacoterapêutica em Odontologia, Frequência e Classes de Medicamentos Prescritos em uma Clínica Odontológica de um Município do Sul de Minas Gerais–MG. Rev Odontol Bras Central, v. 26, n. 79, p. 48-51, 2017.
DIOGO, Bárbara Salazar et al. Antibióticos. Revista de Ciência Elementar, v. 11, n. 1, 2023.
HAQUE, Mohammad Uzzal et al. Errors, omissions and medication patterns of handwritten outpatient prescriptions in Bangladesh: a cross-sectional health survey. Journal of Applied Pharmaceutical Science, v. 6, n. 6, p. 42-46, 2016.
LISBOA, Sheila Monteiro. et al. Errors in Antibiotic Therapy: Study with Dentistʻs Prescriptions in a Large Brazilian City. Pesquisa Brasileira em Odontopediatria e Clínica Integrada, v. 18, n. 1, p. 4003-4008, 2018.
PINHEIRO, Juliana Campos et al . Tratamento odontológico em pacientes com prédisposição a endocardite bacteriana: Revisão de literatura. Revista da AcBO , v. 9, n. 1, 2019.
REIS, João Lucas Correa et al. Uso de antibiótico na Odontologia: revisão da literatura. Revista Multidisciplinar, v. 37, n. 2, 2024.
SANTOS, Antônio Ylderlandio Batista. A relevância do uso racional de antibióticos na odontologia: revisão integrativa, apresentada em 2018 como Trabalho de Conclusão de Curso (especialização) na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB).
SPRENGER, Marc. The Journal of Global Antimicrobial Resistance Meets the World Health Organization (WHO). Jounal Of Global Antimicrobial Resistance, v. 18, p. 305-308, 2019.