CONSIDERAÇÕES ANESTÉSICAS EM CADELA COM PROPTOSE TRAUMÁTICA: RELATO DE CASO  
1MARIA EDUARDA SALA MANGILI, 2CAMILA APARECIDA LUIZ, 3HELOISA FANTINI BARIQUELO, 4GUILHERME ANZOLIN CAVALHEIRO, 5JOÃO VITOR LINARDI CLIMACO, 6MARILDA ONGHERO TAFFAREL
1Discente do curso de Medicina Veterinária da Universidade Estadual de Maringá
2Residente de Clínica Cirúrgica de Pequenos Animais do Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Maringá
3Residente de Anestesiologia Veterinária do Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Maringá
4Residente de Anestesiologia Veterinária do Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Maringá
5Residente de Clínica Médica e Cirúrgica de Grandes Animais do Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Maringá
6Docente da Universidade Estadual de Maringá
Introdução: A proptose traumática é uma emergência caracterizada pelo deslocamento rostral do globo ocular após episódio traumático (Fossum, 2023), e a enucleação é o procedimento indicado quando não há possibilidade de reversão do quadro e quando há intervalo prolongado entre a ocorrência da lesão e a busca por assistência médica (Neves, 2021; Messias, 2025). Durante cirurgias oculares, os maiores desafios são a manutenção do globo ocular centralizado e a prevenção do reflexo oculocardíaco (ROC), normalmente induzido por tração ou compressão do bulbo ocular. É manifestado na forma de arritmias cardíacas, incluindo bradicardia, ritmos nodais, batimentos ectópicos, fibrilação ventricular ou assistolia (Lumb & Jones, 2024). Dessa forma, é imprescindível que um bom protocolo anestésico específico para cirurgias oftálmicas seja escolhido para garantir o sucesso do procedimento (Neves, 2021; Messias, 2025).
Relato de Caso: Paciente canino, Pit Bull, fêmea, 14kg, 4 meses e 10 dias de idade, não castrada, foi encaminhada de Maringá-PR ao Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Maringá (HV UEM), Umuarama-PR, no dia 29/04/2025 com histórico de trauma automobilístico, apresentando proptose direita e aumento de volume em hemiface direita. Em exames radiográficos da face e do tórax, realizados no dia 26/04/2025, a paciente foi diagnosticada com múltiplas fraturas craniais, tendo como focos o processo zigomático direito e o processo coronoide direito, aumento de volume de tecido mole rostro-lateral direito com áreas radioluscentes (sugestivo de edema) e severo deslocamento de globo ocular direito. Nesse contexto, a equipe optou pelo procedimento cirúrgico de enucleação trasnconjuntival. Classificada como ASA 2, a paciente recebeu como medicação pré-anestésica dexmedetomidina [1,5 ug/kg intramuscular (IM) e 1 ug/kg intravenoso (IV)] e metadona (0,15 mg/kg IV). A indução da anestesia foi realizada com propofol (3 mg/kg IV), fentanil (5 ug/kg IV) e cetamina (1 mg/kg IV). Após preparação asséptica, foi realizado o bloqueio retrobulbar e palpebral com lidocaína (6 mg/kg). Para manutenção anestésica utilizou-se isofluorano em concentração suficiente para manter plano adequado. A paciente permaneceu com frequência cardíaca variando entre 68 e 85 batimentos por minuto (bpm); pressão arterial sistólica (PAS) variando entre 82 e 97 milímetros de mercúrio (mmHg). Não foram registradas arritmias durante o procedimento. No pós-operatório foi prescrita a administração de metadona (0,3mg/kg IM) TID (três vezes ao dia), ceftriaxona (30 mg/kg IV) BID (duas vezes ao dia), meloxicam 0,2% (0,1 mg/kg IV) SID (uma vez ao dia), dipirona (25 mg/kg IV) TID e compressa quente na região rostral do crânio. A paciente recebeu alta após oito dias de internamento. Em domicílio, o tutor foi orientado a continuar com a realização de compressas quentes por dez dias a casa 6h, e comparecer à consulta de retorno vinte dias pós alta, com a paciente apresentando regressão total do volume, sem sequelas ativas, estável e sem alterações.
Discussão: A técnica de enucleação é o tratamento indicado em casos de proptoses severas (Fossum, 2023). O bloqueio retrobulbar (BRB) é uma técnica eficaz para prevenir o efeito do reflexo oculocardíaco (ROC) (Neves, 2021), potencial causador de bradicardia, além de diminuir doses de anestésicos gerais (Messias, 2025), mas pode gerar perfuração do globo, risco de sangramento transoperatório e de administração intra-arterial ou intratecal, podendo gerar lesão direta no nervo óptico, convulsão ou apneia. Caso o bloqueio não seja possível de ser realizado, o uso de anticolinérgicos sistêmicos no pré-operatório pode reduzir os efeitos do ROC (Lumb & Jones, 2024). No pós-cirúrgico, a escolha dos fármacos e das doses levou em conta a ação anti-inflamatória COX-2 seletiva do meloxicam, a eficácia no controle de dor aguda da metadona, a capacidade analgésica leve e antitérmica da dipirona e a ação bactericida de amplo espectro da ceftriaxona (Viana, 2024).
Conclusão: O bloqueio retrobulbar foi eficiente na prevenção da bradicardia promovida pela manipulação oftálmica na enucleação, e contribuiu para analgesia no transoperatório e pós-operatório.
Referências:
FOSSUM, Theresa Welch. Cirurgia de Olho. Cirurgia de Pequenos Animais. Rio de Janeiro: Grupo Editorial Nacional, 2023. p. 266-301.
LUMB & JONES, Ophthalmic Patients. Veterinary Anesthesia and Analgesia. New Jersey: Wiley, 2024. P. 1327-1347.
MESSIAS, Gabriela Pereira Aguiar. Manejo clínico, cirúrgico e terapêutico de canino submetido a enucleação com uso de bloqueio retrobulbar: relato de caso. Monografia – Instituto Federal Goiano. Urutaí, 2025.
NEVES, Carolina Araújo., et al. Considerações à anestesia geral de cães e gatos com oftalmopatias. Research, Society and Development, v. 10, n. 8, ed. 42810817483, 2021.
VIANA, Fernando Antônio Bretas. Guia Terapêutico Veterinário. 5. ed. Lagoa Santa-MG, Gráfica e Editora CEM, 2024.