OS DESAFIOS NO ACOLHIMENTO À PESSOA EM SOFRIMENTO MENTAL NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE  
1MARIA LUÍZA GUERRINI FRANCISCO, 2GABRIELA DUTRA RODRIGUES, 3BRUNA CAROLINE DE MELO FERREIRA, 4DAYSA DE MORAIS DOS SANTOS, 5KATIA BIAGIO FONTES
1Acadêmica do PIC/UNIPAR
2Acadêmica do Curso de Enfermagem da PIC/UNIPAR
3Acadêmica do Curso de Enfermagem da UNIPAR
4Acadêmica do Curso de Enfermagem da UNIPAR
5Docente da UNIPAR
Introdução: O acolhimento é uma prática que tem suas ações centralizadas no sujeito, tendo como base para a relação entre o profissional, usuário e a humanização (Mielke; Olschowsky, 2011). Os profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS), tem como algumas de suas atribuições: realizar o cuidado integral à saúde da população; participar do acolhimento dos usuários, proporcionando atendimento humanizado. Com a Reforma Psiquiátrica Brasileira redirecionou-se o modelo assistencial em Saúde Mental (SM), antes pautado no modelo asilar, para a promoção da saúde e à reinserção social do sujeito na comunidade (Brasil, 2017).
Objetivo: Identificar as principais dificuldades na atuação dos profissionais da APS, frente ao acolhimento de usuários em sofrimento psíquico.
Desenvolvimento: A SM envolve o ser humano de forma integral e o acolhimento é um processo de trabalho com potencial de viabilizar a humanização na assistência e o cuidado integral ao usuário (Jorge et al., 2011), sendo que o mesmo também promove a SM, e se efetiva durante todo cotidiano das práticas de cuidado, não só durante o processo de triagem e encaminhamento (Brasil, 2017). Entretanto, requer um dos sentidos humanos mais difíceis: a escuta; e vai além de uma recepção cordial. Envolve vínculo, eficácia e atuação profissional, exigindo ainda mais habilidades ao se tratar do paciente psiquiátrico (Silva et al., 2015). Os profissionais diante ao sofrimento alheio, tentam buscar meios de alivio imediato, muitas vezes pautados na medicalização, atitude que reforça o olhar voltado apenas aos aspectos biológicos, e o despreparo e angústia dos profissionais em lidar com a SM. Em virtude dessas dificuldades partem para os encaminhamentos para serviços de SM especializados (Silva Filho; Bezerra, 2018). As dificuldades abrangem também a falta de profissionais para suprir a demanda. Por serem responsáveis por uma grande quantidade de usuários adscritos à unidade, os profissionais acabam priorizando aspectos físicos dos usuários, deixando de lado demandas de SM (Aosani; Nunes, 2013). A ausência de qualificação profissional, realidade que influencia na qualidade não só do acolhimento, também reflete na assistência prestada ao usuário que recorre a encaminhamentos, processo gerado pela demanda inadequada de pacientes que não tiveram suas necessidades sanadas na APS (Rigotti et al., 2016; Silva et al. 2018). Outro entrave gerado pela não capacitação dos profissionais, é o medo e preconceito dos profissionais em relação ao paciente psiquiátrico, uma vez que este foi visto por muitos anos como um ser sem discernimento, que escandaliza e ameaça a sociedade. Estigmas sociais que reforçam concepções manicomiais, de isolamento como tratamento, levando os pacientes a um processo de exclusão ou marginalidade (Silva et al., 2018). O acolhimento à pessoa com sofrimento psíquico é difícil, pois não há diferenciação em relação aos demais atendimentos, acolhe-se como se fosse um paciente comum, e essa dificuldade pode estar relacionada à falta de capacitação profissional e até mesmo à formação acadêmica. Soma-se a isso a ausência de ações voltadas à reinserção social do usuário (Silva et al., 2015). A falta de recursos materiais também é apontada como uma barreira no processo do acolhimento por dificultar o uso de métodos terapêuticos gerando sobrecarga dos processos de trabalho, consequentemente, dificultando a criação de vínculo e o acolhimento dos usuários em sofrimento mental (Rigotti et al., 2016). Contudo, vale salientar que o acolhimento em saúde se estabelece na relação entre o profissional e a pessoa portadora de transtorno mental, sem depender exclusivamente de recursos materiais (Silva et al., 2018). O acolhimento em SM na APS se torna determinante no processo do cuidar, à medida que transpassa os conceitos de patologia e diagnóstico, deixando sobressair o cuidado integral alicerçado na individualidade e singularidade de cada indivíduo, em seu contexto social, cultural e universal, afim de assegurar ao usuário o seu momento de voz (Jorge et al., 2011). A sensibilização dos profissionais, em relação ao olhar acerca da SM, desmistificação da doença e possibilidades de cuidado, realizadas por meio de iniciativas de capacitação, gera maior responsabilização dos profissionais da AB com os usuários (Silva et al., 2017), tanto por mobilizar os profissionais na promoção de uma ação reflexiva, ética e solidária no momento do acolhimento, quanto por contribuir com o apoio social e medidas de combate ao estigma e preconceito que circundam o doente mental (Santos; Santos, 2011).
Conclusão: Pode–se concluir que dentre as principais dificuldades identificadas na literatura em relação ao acolhimento dos usuários em sofrimento psíquico destacaram-se o desconforto na prática da escuta ativa; Demanda insuficiente de profissionais e ausência de qualificação; Falta de recursos materiais; Ausência de ações voltadas à reinserção social do usuário; e preconceito dos profissionais em relação ao paciente psiquiátrico, evidenciado pelo olhar estigmático e insensível sobre a Saúde Mental.
Referências:
AOSANI, T. R.; NUNES, K. G. A saúde mental na atenção básica: a percepção dos profissionais de saúde. Revista Psicologia e Saúde, v. 5, n. 2, p. 71-80, 2013. Disponível em: https://encurtador.com.br/sg78W
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2017. Disponível em: https://encurtador.com.br/rvdgg
JORGE, M. S. B. et al. Promoção da saúde mental - Tecnologias do cuidado: vínculo, acolhimento, co-responsabilização e autonomia. Ciência & Saúde Coletiva, v. 16, n. 7, p. 3051-3060, 2011. DOI: https://encurtador.com.br/6MX0T
MIELKE, F. B.; OLSCHOWSKY, A. Ações de saúde mental na estratégia saúde da família e as tecnologias em saúde. Escola Anna Nery, v. 15, n. 4, p. 762-768, 2011. DOI: https://l1nq.com/y1SNi
RIGOTTI, D. G. et al. Drug users hosting in a Basic Health Unit. Revista RENE, v. 17, n. 3, p. 346-355, 2016. DOI: https://sl1nk.com/PP7Gw
SANTOS, I. M. V.; SANTOS, A. M. Acolhimento no Programa Saúde da Família: revisão das abordagens em periódicos brasileiros. Revista de Salud Pública, v. 13, n. 4, p. 703-716, 2011. Disponível em: https://sl1nk.com/mqREZ
SILVA FILHO, J. A.; BEZERRA, A. M. Acolhimento em saúde mental na atenção primária à saúde: revisão integrativa. Revista Multidisciplinar e Psicologia, v. 12, n. 40, p. 613-627, 2018. ISSN: 1981-1179. DOI: https://l1nq.com/ivcIT
SILVA, G.; IGLESIAS, A.; ARAÚJO, M. D.; MOREIRA, M. I. B. Practices of integral health care for people with mental suffering in primary health care. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 37, n. 2, p. 404-417, abr./jun. 2017. DOI: https://l1nq.com/thqDP
SILVA, J. A. J. et al. Acolhimento na atenção primária: desafios para o cuidado em saúde mental. Bioscience Journal, v. 31, n. 4, p. 1279-1282, jul./ago. 2015. DOI: https://sl1nk.com/Q3Gn6