METABOLIZAÇÃO HEPÁTICA DE HORMÔNIOS REPRODUTIVOS EM VACAS DE LEITE– ESTUDO DE REVISÃO  
1LARA BRITO SCHNEIDER, 2THIAGO FELIPE PASA , 3BRUNA FERRES VIANA, 4CAMILA FERREIRA VASCONCELOS, 5SELMA ALVES RODRIGUES , 6RANULFO PIAU JUNIOR
1Graduanda do Curso de Medicina Veterinária da Unipar – PIBIC/UNIPAR
2Mestrando – Pós-graduação Ciência animal com ~Ênfase em Produtos Bioativos - UNIPAR
3Graduanda do Curso de Medicina Veterinária da Unipar – PIC/UNIPAR
4Graduanda do Curso de Medicina Veterinária da Unipar – PIC/UNIPAR
5Doutoranda – Pós-graduação Ciência animal com ~Ênfase em Produtos Bioativos - UNIPAR
6Docente, Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal com Ênfase em Bioativos, Universidade Paranaense (UNIPAR)
Introdução: Segundo Carneiro et al. (2010), a eficiência reprodutiva é o fator que, isoladamente, mais afeta a produtividade e a lucratividade de um rebanho. Uma boa eficiência reprodutiva, seja pelo acasalamento ou pela inseminação artificial, permite maior vida útil dos animais e mais nascimentos de bezerros. Sendo assim, se os processos reprodutivos forem gerenciados de uma maneira adequada, o retorno financeiro e a rentabilidade ao produtor poderão ser satisfatórios (Silva et al., 2015). Contudo, é preciso que haja uma boa concomitância entre os fatores genéticos, nutricionais, sanitários, ambientais, além de um bom manejo, levando em consideração de que vacas de alta produção frequentemente apresentam comprometimento reprodutivo, associado em parte ao aumento da metabolização hepática de hormônios esteroides que acontecem por conta do aumento do fluxo sanguíneo hepático, característico de vacas com elevada ingestão de matéria seca e produção de leite, intensificando a biotransformação hormonal pelas enzimas do sistema do citocromo P450 (fase I) e pelas glicuroniltransferases (fase II). O aumento da capacidade de produção de leite agrava o balanço energético negativo, que combinado a um manejo nutricional deficiente tem sido associado ao declínio da fertilidade, onde as demandas e adaptações metabólicas de maior produção de leite estão relacionadas à elevada ocorrência de doenças puerperais relacionadas a diminuição do desempenho reprodutivo (Butler, 2001).
Objetivo: O objetivo desta revisão foi discutir os mecanismos de metabolização hepática dos principais hormônios reprodutivos em vacas leiteiras e suas implicações na eficiência reprodutiva.
Desenvolvimento: Os hormônios esteroides são produzidos a partir do colesterol, e entre eles está a progesterona, que regula o ciclo reprodutivo da fêmea. A produção de progesterona ocorre através das células luteais pequenas a partir das lipoproteínas após a estimulação por LH e grandes de forma constitutiva (Bogan; Niswender, 2007). A síntese de hormônios esteroides requer a remoção de alguns ou de todos os carbonos da cadeia lateral do C-17 do anel D do colesterol, que ocorre na mitocôndria dos tecidos esteroidogênicos e envolve a hidroxilação de dois carbonos adjacentes na cadeia lateral (C-20 e C-22) seguindo-se a clivagem da ligação entre eles. Essas reações de hidroxilação e oxigenação são catalisadas por oxidases que utilizam NADPH, O2 e citocromo P-450 mitocondrial, sendo a P450 (P450scc) a enzima responsável pelas hidroxilações nas posições 20 e 22 e depois clivagem entre estes dois carbonos, catalisando a conversão de colesterol em pregnenolona (Nelson; Cox, 2012; Wiltbank et al., 2014) Os citocromos P-450 são heme-proteínas envolvidas nas biotransformações de vários compostos de origem endógena e exógena, que biologicamente promovem a modificação química de várias moléculas exógenas lipofílicas, que após isso se tornam mais solúveis e de fácil excreção, porém uma consequência é que muitas moléculas, após sofrerem estas modificações (biotransformação), tornam-se muito reativas, podendo causar danos teciduais (Lemos; Trindade, 2014). A esteroidogênese pode ser limitada principalmente pela disponibilidade das lipoproteínas precursoras. A concentração de progesterona circulante é determinada por um equilíbrio entre sua produção luteal e metabolismo hepático, o qual é determinado pelo fluxo de sangue (Wiltbank et al., 2014). A viabilidade da síntese de progesterona é determinada pelo fígado, órgão responsável pela síntese de albumina, fibrinogênio, globulinas, lipoproteínas e colesterol, além de inúmeras outras funções (Gonzalez; Scheffer, 2003). Assim sendo, o fígado determina a disponibilidade de colesterol para a síntese de progesterona luteal, bem como sua metabolização, interferindo no reconhecimento materno da gestação. Para tanto, o fígado constitui-se em um órgão central que reúne os nutrientes absorvidos e os metabólitos procedentes da circulação geral, moderando-os e distribuindo-os para os tecidos periféricos (KozloskI, 2011). Consequentemente, apesar de uma nutrição satisfatória, sem saúde hepática, não haverá a distribuição de nutrientes para todos os sistemas do organismo, o que indiretamente compromete a eficiência reprodutiva. O processo de metabolização hepática dos hormônios esteroides acontece em duas fases principais, sendo elas: reações de oxidação e redução mediadas por enzimas do complexo citocromo P450 (fase I) e reações de conjugação, como glicuronidação e sulfatação (fase II), que aumentam a solubilidade dos compostos, sendo facilitadores de sua excreção (Sangsritavong et al., 2002; Stormshak, Smith, 2016). A maior quantidade de matéria seca ingerida e a alta densidade energética da dieta aumentam o fluxo sanguíneo intestinal e hepático das vacas em lactação (1.561 ± 57 L/hora) quando comparadas com as vacas secas de porte semelhante (747 ± 47 L/hora) (Sangsritavong, 2002).
Conclusão: O aumento da taxa de metabolização hepática de hormônios em vacas de alta produção de leite, representa dificuldades para a eficiência reprodutiva, sendo necessário o uso de estratégias de manejo nutricional, genético e hormonal para atenuar seus efeitos.
Referências:
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