O USO CRÔNICO DA CANNABIS COMO FATOR DE RISCO PARA O DESENVOLVIMENTO DA ESQUIZOFRENIA  
1ISADORA SAKUNO DE OLIVEIRA CASTANHO, 2ANA LUISA BATISTA DA SILVA, 3RAFAELLE HIROMI FARINHA KUMAGAI, 4PABLO RÉGIS BOMBONATO DOS SANTOS, 5SOFIA LOVERA DE OLIVEIRA, 6GUILHERME NOGUEIRA DERENUSSON
1Acadêmica do curso de Medicina
2Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
3Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
4Acadêmico do Curso de Medicina da UNIPAR
5Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
6Docente da UNIPAR
Introdução: A esquizofrenia é um transtorno psiquiátrico grave e crônico, caracterizado por sintomas psicóticos, déficits cognitivos e disfunções emocionais (Zhang, 2024), comprometendo significativamente a qualidade de vida dos indivíduos acometidos (Hentati et al., 2021). Sua etiologia é multifatorial, envolvendo uma complexa interação entre predisposição genética e fatores  ambientais (McCutcheon; Marques; Howes, 2020).  Dentre os fatores de risco ambientais, o consumo de substâncias psicoativas, em especial a cannabis, tem sido amplamente investigado devido ao seu possível papel na modulação da vulnerabilidade ao transtorno (Zhylin et al., 2023).
Objetivo: Este trabalho tem por objetivo compreender de que forma o uso crônico de cannabis pode atuar como fator de risco no desencadeamento e na evolução da esquizofrenia.
Desenvolvimento: A esquizofrenia é um transtorno mental grave que compromete diversos aspectos da atividade psíquica, incluindo o pensamento, a percepção, as emoções, a linguagem, o senso de identidade e o comportamento. Os sintomas estão associados a diferentes graus de prejuízos sociais e funcionais persistentes, que resultam em uma profunda distorção da realidade (SANTOS, 2023). 
O diagnóstico de esquizofrenia requer a presença de dois ou mais sintomas característicos — como delírios, alucinações, fala e/ou comportamento desorganizado e sintomas negativos — por um período mínimo de seis meses. Além disso, devem estar presentes sinais prodrômicos da enfermidade, acompanhados de prejuízos sociais, ocupacionais ou de autocuidado, sendo necessário pelo menos um mês de sintomas ativos (DSM-5). Entre os fatores de risco para o desenvolvimento da esquizofrenia, destacam-se a predisposição genética, os influenciadores ambientais e o uso crônico de substâncias psicoativas. Indivíduos com esquizofrenia apresentam maior tendência à busca por drogas. O consumo crônico de cannabis, entre outras substâncias, pode atuar tanto como fator desencadeante quanto como consequência do quadro psíquico (GREEN et al., 2004). A cannabis é uma das substâncias psicoativas mais consumidas em todo o mundo (WHO, 2016), e seu principal componente ativo, o tetrahidrocanabinol (THC), exerce influência direta sobre o sistema endocanabinoide (Bloomfield et al., 2019), o qual desempenha papel fundamental na regulação da neurotransmissão e no desenvolvimento cerebral (Lu; Mackie, 2019). Evidências epidemiológicas e experimentais indicam que o uso precoce e prolongado de cannabis pode aumentar o risco de desenvolvimento da esquizofrenia, sobretudo em indivíduos geneticamente predispostos (Gillespie; Kendler, 2020). Além disso, estudos demonstram que a exposição crônica ao THC pode antecipar o aparecimento dos sintomas psicóticos e intensificar a gravidade de quadros psiquiátricos já existentes (Murray et al., 2017).
Dessa forma, o THC, como principal componente psicoativo da cannabis, é capaz de desencadear sintomas por meio de suas propriedades neurobiológicas específicas. Sua ação ocorre predominantemente via receptores canabinóides do tipo 1 (CB1), acoplados à proteína G, no contexto do sistema endocanabinoide. Esse mecanismo apresenta estreita relação com a modulação da neurotransmissão dopaminérgica (RASMUSSEN et al., 2021).
Nesse sentido, observa-se que o estímulo excessivo do sistema endocanabinoide pela exposição à cannabis exógena pode interferir na maturação encefálica do jovem. As principais regiões afetadas incluem o córtex pré-frontal, cuja maturação não se completa até o início da vida adulta, o que pode gerar efeitos de longo prazo sobre a função cerebral. Além disso, variantes genéticas no gene CNR1 parecem influenciar a expressão da doença em indivíduos expostos à substância. Estudos também indicam que o uso contínuo de cannabis está associado à redução do volume de substância branca e a comprometimentos cognitivos em pacientes com esquizofrenia (TAO et al., 2020; RASMUSSEN et al., 2021).
Portanto, é imperioso considerar os aspectos neurobiológicos envolvidos, como a modulação dos receptores canabinoides no cérebro e os efeitos deletérios que o consumo prolongado pode exercer sobre a plasticidade neural e as vias dopaminérgicas, centrais para o desenvolvimento e a manutenção das doenças psicóticas. Essa influência negativa é ainda mais acentuada em indivíduos que iniciam o consumo precocemente e utilizam variedades de maior potência. Diante disso, torna-se fundamental a implementação de políticas públicas mais eficazes, capazes de abordar o uso da cannabis de forma multidimensional, contemplando ações de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento adequado. Ademais, é essencial promover maior compreensão populacional sobre os impactos da cannabis na saúde mental (CAMPOS, 2024).
Conclusão: Conclui-se que o uso crônico e precoce de cannabis está associado ao aumento do risco de esquizofrenia, sobretudo em indivíduos vulneráveis. A compreensão dos mecanismos neurobiológicos envolvidos é crucial para subsidiar ações preventivas, fortalecer políticas públicas eficazes e ampliar a conscientização social sobre seus efeitos na saúde mental.
Referências:
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Tradução: Maria Inês Corrêa Nascimento et al. Porto Alegre: Artmed, 2014.
BLOOMFIELD, M. A. P. et al. The neuropsychopharmacology of cannabis: a review of human imaging studies. Pharmacology & Therapeutics, [s.l.], v. 195, p. 132-161, 2019.
CAMPOS, L. A influência da maconha (Cannabis sativa) no agravamento de doenças psiquiátricas. Revista Sociedade Científica, v. 7, n. 1, p. 2671-2699, 2024.
GILLESPIE, N. A.; KENDLER, K. S. Use of genetically informed methods to clarify the nature of the association between cannabis use and risk for schizophrenia. JAMA Psychiatry, [s.l.], v. 78, n. 5, p. 467-468, 2021.
GREEN, A. I. et al. First episode schizophrenia-related psychosis and substance use disorders: acute response to olanzapine and haloperidol. Schizophrenia Research, v. 66, n. 2-3, p. 125-135, 2004.
HENTATI, S. et al. Quality of life in patients with schizophrenia. European Psychiatry, [s.l.], v. 64, n. S1, p. S545, 2021.
LU, H. C.; MACKIE, K. An introduction to the endogenous cannabinoid system. Biological Psychiatry, [s.l.], v. 79, n. 7, p. 516-525, 2016.
MCCUTCHEON, R. A.; REIS, M. T.; HOWES, O. D. Schizophrenia – an overview. JAMA Psychiatry, [s.l.], v. 77, n. 2, p. 201-210, 2020.
MURRAY, R. M. et al. Cannabis-associated psychosis: neural substrate and clinical impact. Neuropharmacology, [s.l.], v. 124, p. 89-104, 2017.
RASMUSSEN, J. et al. Cannabidiol versus risperidone for treatment of recent-onset psychosis with comorbid cannabis use: study protocol for a randomized controlled clinical trial. BMC Psychiatry, [s.l.], v. 21, p. 404, 2021.
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