TOXICIDADE NEUTROFÍLICA  EM CÃES: LEVANTAMENTO DE SUA OCORRÊNCIA E CAUSAS ASSOCIADAS     
1SARAH FERRAZ SIMOES MARTINEZ, 2BRENDA ALVES DA SILVA, 3ÍTALO MORELLI MIACRI SOUZA, 4GABRIELY AMARO DE OLIVEIRA BORGES, 5STHEFANY PRISCILA DA CUNHA, 6ÁGATHA FERREIRA XAVIER DE OLIVEIRA
1Discente do curso de Medicina Veterinária da Universidade Estadual de Maringá
2Discente do curso de Medicina Veterinária da Universidade Estadual de Maringá
3Discente de pós graduação do curso de Medicina Veterinária da Universidade Estadual de Maringá
4Residente de medicina veterinária da uem na área de patologia clínica
5Residente de medicina veterinária da uem na área de patologia clínica
6Docente da UNIPAR
Introdução: Infecções e processos inflamatórios desencadeiam uma resposta aguda que acelera a neutropoiese, promovendo a liberação de neutrófilos tóxicos. Essas células imaturas apresentam alterações visíveis na microscopia, como basofilia citoplasmática, presença de grânulos tóxicos, corpúsculos de Döhle, núcleos hipossementados e a formação de células gigantes ou dimórficas (LAMBERT et al., 2016). Essas mudanças indicam inflamação severa (SAHOTA et al., 2019) e uma intensa resposta imune, especialmente em infecções bacterianas (CHANDER et al., 2023).
Objetivo: Realizar uma investigação retrospectiva nos hemogramas realizados no Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – Campus Umuarama, buscando identificar a presença de neutrófilos tóxicos, bem como os diagnósticos associados.
Material e Métodos: O presente estudo utilizou dados de hemogramas provenientes de prontuários eletrônicos do sistema do Hospital Veterinário da UEM, no período entre janeiro e junho de 2025. Foi feita uma pesquisa detalhada nos eritrogramas que continham a identificação de toxicidade neutrofílica na avaliação morfológica celular.
Resultados: Em uma análise de 75 casos, as doenças com presença de neutrófilos tóxicos mais frequentes foram a erliquiose (29,33%) e a parvovirose (20,00%). Outras condições, embora menos comuns, também foram observadas, incluindo trauma (8,00%), gastroenterite (6,67%) e neoplasias (6,67%). Já as intoxicações, pancreatite, cinomose, piometra e leptospirose apresentaram uma incidência de 2,67% individualmente. Uma variedade de outros diagnósticos isolados (1,33% cada) somou os 16% restantes do total, abrangendo quadros como sepse, picada de aranha-marrom, hemangiossarcoma, entre outros.
Discussão: A erliquiose e a parvovirose foram as patologias mais relacionadas ao achado de toxicidade neutrofílica. Este achado, na erliquiose, pode estar relacionado com a fisiopatologia da doença, uma vez que a infecção pela bactéria Ehrlichia canis desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica que afeta diretamente a medula óssea (ESPINO-SOLÍS et al., 2023). Diferente disso, na parvovirose canina, causada pelo Carnivore protoparvovirus 1 (CPPV-1), observa-se mais comumente pancitopenia, ou seja, a diminuição de todas as linhagens de células sanguíneas, além da translocação bacteriana intestinal associada (ALVES, 2018). A presença de neutrófilos tóxicos na parvovirose é um reflexo da resposta medular acelerada, que, sob o estímulo da septicemia secundária, libera células imaturas na corrente sanguínea. A toxicidade neutrofílica também foi observada em outras condições, como trauma (8,00%), gastroenterite (6,67%) e neoplasias (6,67%). Esses quadros clínicos, apesar de distintos, desencadeiam uma resposta inflamatória sistêmica, seja por lesão tecidual, agressão à mucosa intestinal ou processos imunológicos mais complexos (LAMBERT et al., 2016). As demais patologias, incluindo intoxicação, pancreatite, cinomose, piometra e leptospirose, representaram 2,67% da amostra individualmente. Apesar de menos frequentes, essas condições são capazes de induzir um estresse inflamatório sistêmico que resulta na presença de neutrófilos tóxicos (MASABANDA, 2025).Sendo a toxicidade neutrofílica é um indicador inespecífico, porém sensível, de patologias subjacentes (MASABANDA, 2025), mostrando a capacidade do organismo de reagir a patógenos. Isso está em consonância com Garden et al. (2019), que sugerem que infecções podem levar à desregulação imunológica, diminuição da imunotolerância e ao desenvolvimento de doenças imunomediadas.
Conclusão: Em cães, diversas patologias de origem inflamatória, infecciosa, neoplásica e traumática podem levar à presença de neutrófilos tóxicos. A análise dos dados demonstrou que este achado é um biomarcador de inflamação severa, com maior prevalência em casos de erliquiose e parvovirose. A identificação de neutrófilos tóxicos no hemograma, portanto, é um recurso diagnóstico valioso, que alerta para a gravidade do quadro clínico e auxilia na tomada de decisões terapêuticas imediatas.
Referências:
ALVES, Fernanda dos Santos. Aspectos clínicos, laboratoriais e terapêuticos de cães naturalmente infectados pelo Parvovirus (PVC-2). 2018. Tese (Doutorado em Medicina Veterinária) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Botucatu, 2018. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/items/0dd401a2-f26d-463d-9250-4c2d7dc6f4dd. Acesso em: 3 set. 2025.
CHANDER, S. et al. Toxic granules in neutrophils in sepsis patients: Does it really helpful? Muller Journal of Medical Sciences and Research, v. 14, n. 1, p. 19-22, 2023. Disponível em: https://journals.lww.com/mjmr/fulltext/2023/14010/toxic_granules_in_neu-trophils_in_sepsis_patients_.5.aspx. Acesso em: 3 set. 2025.
ESPINO-SOLÍS, G. P. et al. Clinical and pathological factors associated with Ehrlichia canis in companion dogs. The Journal of Infection in Developing Countries, v. 17, n. 11, p. 1598-1605, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.3855/jidc.17961. Acesso em: 3 set. 2025.
GARDEN, O. A. et al. ACVIM consensus statement on the diagnosis of immune-mediated hemolytic anemia in dogs and cats. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 33, n. 2, p. 313-334, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1111/jvim.15441. Acesso em: 3 set. 2025.
LAMBERT, J. L.; FERNANDEZ, N. J.; ROY, M. F. Association of presence of band cells and toxic neutrophils with systemic inflammatory response syndrome and outcome in horse with acute disease. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 26, p. 85-87, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1939-1676.2011.00862.x. Acesso em: 3 set. 2025.
MASABANDA, Angel Isaias Pandashina; PILACUAN, María José Romero; RAMOS, Erika Alejandra Vega. Granulaciones tóxicas: un marcador clave en sepsis. Revista Peruana de Ciencias de la Salud, Lima, v. 7, n. 1, p. 62-68, 2025. DOI: 10.37711/rpcs.2025.7.1.563. Disponível em: https://revistas.udh.edu.pe/RPCS/article/view/705. Acesso em: 3 set. 2025.