A INFÂNCIA ENTRE O DESEJO E A SOCIEDADE: UM OLHAR PSICANALÍTICO SOBRE EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO PSÍQUICO  
1MARIANA VELONI CHIARAGATTO, 2SERGIO BEZERRA PINTO JUNIOR
1Discente de graduação do 6º período do curso de Psicologia na Universidade Paranaense - UNIPAR
2Docente do Curso de Psicologia na Universidade Paranaense - UNIPAR, Doutorando em Educação na Universidade Estadual de Maringá - UEM
Introdução: Freud (1905), em sua teoria do desenvolvimento psicossexual, destacou a infância como período fundante da vida psíquica, no qual se estruturam os principais elementos que orientarão a constituição do sujeito. Em sua segunda tópica, aprofunda os conceitos de Inconsciente, Pré-consciente e Consciente, introduzindo Id, Ego e Superego. Seu trabalho possibilitou compreender o desenvolvimento humano frente à teoria psicossexual, como modelo explicativo do psiquismo e instrumento relevante para a formação da personalidade. Levando em consideração as exposições de Freud (1923) na obra “O eu e o id”, a base do caráter já está formada e os traços fundamentais do ego tendem a estar consolidados quando o professor entra em cena na vida da criança. No contexto atual, marcado por transformações sociais, a compreensão da infância ganha novas dimensões, especialmente diante do impacto da educação e das práticas sociais na formação subjetiva. Evidenciam-se, portanto, as contribuições da teoria freudiana para a compreensão dos desafios enfrentados por crianças, famílias e instituições educativas.
Objetivo: Discutir as implicações sociais e educacionais da psicanálise freudiana para o desenvolvimento da infância no contexto atual.
Desenvolvimento: O encontro entre psicanálise e educação auxilia a esclarecer os mecanismos psíquicos que sustentam o processo ensino-aprendizagem, sendo possível articular ambas quando a educação é entendida como discurso social. A linguagem, fundamento das instituições humanas, é passível de leitura psicanalítica. Kupfer (2007) afirma que essa aproximação amplia o trabalho do psicanalista e também do educador. Enquanto prática clínica, a psicanálise permite ao sujeito subjetivar suas relações com o real, o simbólico e o imaginário, o que implica também um processo educativo. Silva (2007) explica que para Freud, a educação carrega um ideal que a move, mas encontra limites que a impedem de sua plena realização. O ideal buscado pela educação é algo da ordem do impossível. No campo educacional, a psicanálise oferece instrumentos para pensar a escola não apenas como espaço de transmissão de conhecimento, mas de socialização e elaboração psíquica. O desenvolvimento psíquico ocorre sempre em relação ao outro; por isso, o professor, enquanto autoridade simbólica, exerce papel essencial na introdução de limites e no sustento do desejo de aprender. Freud identificava o desejo de saber em busca de um saber sexual. Aprender implica a presença de desejo, projeto, perspectiva e busca de realização; exige superação da passividade e capacidade de engendrar um ato autônomo. Esse movimento só se torna possível com a necessária desvinculação da autoridade dos pais idealizados na infância, conforme aponta Freud (1909). Para o autor (1900, p. 517), "nada senão o desejo pode colocar nosso aparelho anímico em ação”. A educação, sob a ótica psicanalítica, deve mediar o encontro entre o desejo infantil e as demandas sociais em um processo paradoxal: de um lado, a escola e os cuidadores oferecem condições para o desenvolvimento simbólico, da linguagem e da socialização; de outro, impõem restrições que frequentemente colidem com a espontaneidade e a criatividade próprias da infância.
Conclusão: Pensar a infância entre o desejo e a sociedade significa reconhecer que o sujeito em formação não é apenas produto de condicionamentos externos, mas portador de uma singularidade que resiste às normas sociais. Para a psicanálise, a compreensão do funcionamento intelectual é indissociável da totalidade constitutiva do sujeito, envolvendo afetos, fantasias, pulsões e desejos. Georges Mauco (1980, p. 72) afirma que “uma das contribuições da psicanálise à educação consiste em elucidar a importância do mestre como modelo e possibilitador de diálogo. Como modelo, porque a teoria psicanalítica não deve ser confundida com ausência de autoridade e liberdade total para a realização de desejos reprimidos”. No âmbito educacional, instaura-se um saber que confere ao ato pedagógico uma dimensão ética, colaborando com as disciplinas humanas e fundamentando práticas educativas. Para Pinheiro (2011, p. 35) “a psicanálise tem muito mais a contribuir com a educação que unicamente pelo trabalho com crianças em idade pré-escolar ou com problemas mentais graves que exigem um trabalho especial”. Compreender a infância a partir da psicanálise implica assumir a tensão entre desejo e sociedade como constitutiva do desenvolvimento psíquico. A educação pode ser vista menos como adaptação e mais como espaço de subjetivação, em que a criança se constrói como sujeito singular em meio às exigências coletivas. Por fim, trago a reflexão de Kupfer (2007): como principal espaço de formação no mundo contemporâneo, qual o discurso dominante no campo da educação, no Brasil? Constata-se a predominância de um discurso que aponta para o fracasso e a falência do sistema, embora se mantenha a supervalorização da escola como via privilegiada de ascensão social. Assim, tornam-se necessárias mais pesquisas sobre a relação entre psicanálise e educação, bem como sobre as formas de implicação da psicanálise na vida escolar.
Referências:
ANTONELLI, C. M. Mal-estar na adolescência contemporânea, constituição subjetiva e laço social: diálogos entre psicanálise e educação. 2022. 116 p. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Centro de Ciências Humanas, Programa de Pós Graduação em Educação, Francisco Beltrão, 2022. Disponível em: https://tede.unioeste.br/bitstream/tede/6491/5/Claudia%20Maio%20Antonelli%202022.pdf. Acesso em: 3 set. 2025.
FREUD, S. A interpretação dos sonhos (1900).  In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. v. IV-V. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
FREUD, S. O eu e o Id; Autobiografia e outros textos (1923-1925). São Paulo: Companhia das Letras, 1. ed., 2011, v. 16 das Obras Completas.
FREUD, S. Romances familiares (1909 [1908]. In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. v. IX.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). São Paulo: Companhia das Letras, 1. ed., 2016, v. 6 das Obras Completas.
KUPFER, M. C. Educação para o futuro: psicanálise e educação. 3. ed. São Paulo: Escuta, 2007.
MAUCO, G. Psicanálise e educação: o mestre do impossível. São Paulo: Scipione, 2001.
OLIVEIRA, C. E. C. de; OLIVEIRA, D. M. A. de. Psicanálise e educação: um olhar psicanalítico sobre a relação professor e aluno. Revista Transformar, [s. l.], v. 14, n. 2, p. 231-243, ago./dez. 2020. Disponível em: https://www.fsj.edu.br/transformar/index.php/transformar/article/view/492. Acesso em: 3 set. 2025.
PINHEIRO, G. Psicanálise e educação da sustentação do enigma à construção do saber. 1. ed. Curitiba: CRV, 2014.
SILVA, R. I. da. Psicanálise e educação: vias para subversão do sujeito. Inter-Ação: Revista da Faculdade de Educação da UFG, Goiânia, v. 32, n. 1, p. 127-157, jan./jun. 2007. Disponível em: https://revistas.ufg.br/interacao/article/view/1403/2570.  Acesso em: 3 set. 2025.