AVALIAÇÃO PRELIMINAR DA APLICAÇÃO DE ÁGUA SUBCRÍTICA PARA OBTENÇÃO DE FENÓLICOS DAS FOLHAS E TALOS DE CENOURA  
1LAURA MARIA GUADALUPE MARQUINI MARTINS NAVAS, 2CAMILA DA SILVA
1Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade UEM/IFPR, bolsista CAPES
2Docente da Universidade Estadual de Maringá (UEM)
Introdução: A cenoura (Daucus carota L.) é amplamente consumida e valorizada mundialmente (Anjani et al., 2022) e no Brasil sua produção ultrapassou 700 mil toneladas em 2017 (Carvalho et al. 2021). Contudo, sua folhagem verde é geralmente separada logo após a colheita sendo destinada para alimentação animal ou simplesmente disposta como resíduo agrícola (Song et al., 2018). Porém, essas partes apresentam um perfil fitoquímico promissor (Bardakçi, 2024; Kim et al., 2023). Extrações utilizando esse tecido foliar como matriz têm potencial para separar compostos de interesse e ampliar suas aplicações e valor agregado (Hassan et al., 2025). Tecnologias como a extração com água subcrítica têm sido aplicadas para otimizar o rendimento de compostos (Cheng et al., 2021; Song et al., 2018). Essa terminologia faz referência às condições que estão abaixo do ponto crítico da água e consiste no aquecimento da água com pressão controlada, possibilitando atingir elevadas temperaturas (100 a 374°C) e permanecer em estado líquido (Vergara-Salinas et al., 2012). Esse método tem relevância por ser ambientalmente mais sustentável quando comparado a extrações convencionais utilizando solventes químicos, podendo ainda apresentar resultados interessantes quanto à recuperação de compostos bioativos, especialmente polifenóis, como os flavonoides presentes na matriz vegetal (Cheng et al., 2021). Além disso, foi demonstrado que extração com água subcrítica (EAS) é eficaz na hidrólise de materiais lignocelulósicos, contribuindo para a liberação de compostos fenólicos associados à parede celular vegetal (Cheng et al., 2021) ao mesmo tempo que altera a matriz vegetal, podendo resultar um resíduo de extração ainda com potencial para outras aplicações. Apesar do potencial promissor, ainda são escassos os estudos sistematizados e recentes sobre composição dos extratos advindo das folhas e talos, que possam consolidar horizontes para o aproveitamento integral do alimento e economia circular (Nimmyel e Lohdip, 2022).
Objetivo: Avaliar e comparar o teor de compostos fenólicos totais das folhas e talos da cenoura, investigando o potencial da extração com água subcrítica.
Material e método: Esse estudo utilizou como matéria prima folhas e talos de cenoura Daucus carota L secos e triturados, obtidos por meio de doação de um produtor do município de Maringá, Paraná. A umidade do material utilizado foi de 6,12 ± 0,89 (folhas) e 6,98 ± 0,01 (talos). Os extratos foram obtidos utilizando um sistema de pressurização com temperatura, pressão e vazão controladas, previamente detalhado por Costa et al.. (2023) e adaptado. Para as extrações foram utilizados folhas, talos e uma mistura de folhas e talos (1:1 m/m), o tempo de extração estática foi de 20min e o tempo de coleta foi 30min a uma vazão de 1,000 mL min-1. Em todas as extrações foram mantidas as configurações de pressão (10MPa), e temperatura (125°C). O teor de compostos fenólicos totais (CFT) foram determinados pelo método de Folin-Ciocalteu, adaptado de Singleton et al. (1999) e os resultados expressos em mg equivalentes de ácido gálico (EAG) por grama de amostra seca (folhas e talos).
Resultados: A concentração de fenólicos totais presentes no extrato das folhas de cenoura foi de 10,27 ± 0,41 mg EAG/g, da mistura de folhas com talos (1:1 m/m) foi de 7,67 ± 0,40 mg EAG/g e de talos foi 2,80 ± 0,06 mg EAG/g.
Discussão: Os resultados dos extratos obtidos a partir do talo da cenoura indicaram menor teor de fenólicos em comparação aos extratos de folhas. O extrato preparado utilizando uma mistura de folhas e talos, em proporção de 1:1 em massa, sugeriu um valor intermediário. Esses resultados são consistentes aos encontrados na literatura, que indicam variada concentração de compostos bioativos, sobretudo fenólicos. Bardakçi et al. (2024) obtiveram extratos utilizando metanol com teores de fenóis totais entre 1,04 e 9,17 mg EAG/g para o conteúdo foliar. A metodologia de Kim et al., 2023 obteve um extrato com 1,20 mg EAG/g de folhas de cenoura a partir de uma extração aquosa em autoclave, por 10 minutos. Por outro lado, o estudo comparativo empregando a técnica de extração com agua subcrítica realizado por Song et al., 2018 alcançou um teor de compostos fenólicos ligeiramente inferiores a 10 mg EAG/g para o extrato das folhas da cenoura nas condições de 110ºC por 20min e 8MPa. Ensaios que utilizaram toda a parte aérea da cenoura apontam resultados de 9,59 mg EAG/g em água (por 24h sob agitação). Dessa forma, é possível concluir que o presente estudo é sustentado pelos resultados reportados na literatura e evidencia uma diferença significativa no teor de compostos das folhas e talos, além de apontar uma metodologia emergente que pode trazer possível vantagens com relação ao tempo e condições de processamento.
Conclusão: As folhas e os talos de cenoura, configuram-se como fontes de compostos fenólicos totais que podem ter valor agregado e potencial de uso. O método de extração utilizando água em condições subcríticas se mostrou favorável na recuperação de CFT e apontou que teores maiores estão presentes nas folhas da cenoura quando comparados aos talos.
Referências:
ANJANI, Gemala; AYUSTANINGWARNO, F.; EVIANA, Rafika. Critical Review on the Immunomodulatory Activities of Carrotʼs β-carotene and Other Bioactive Compounds. Journal of Functional Foods, v.99, p.105303, 2022.
BARDAKÇI, Merve S.; ÖZÇELIK, A.; KARACABEY, Erkan. Does Daucus carota L. Leaf Provide a High Potential as a Source of Bioactive Constituents: a Case Study about the Influences of Process/Storage Conditions. Food Science & Nutrition, v.12, n.8, p5882–5889, 2024.
CARVALHO, Agnaldo Donizete Ferreira de et al. Cenoura: Daucus carota L. Brasília, DF: Embrapa Hortaliças, 2021. 74 p.
CHENG, Yan et al. Subcritical Water Extraction of Natural Products. Molecules, v26, n13, p.4004, 2021.
HASSAN, Amro B. et al. Valorization of wasted plant parts: Mineral bioavailability, antioxidant, and antimicrobial properties of wasted aerial parts of selected root vegetables. Horticulturae, v.11, n4, p361, 2025.
KIM, Ji Soo; LIM, J. H.; CHO, Somi K. Effect of Antioxidant and Anti-inflammatory on Bioactive Components of Carrot D. carota L. Leaves from Jeju Island. Applied Biological Chemistry, v.66, n.1, 2023.
NIMMYEL, Nannim V.; LOHDIP, A. M. Phytochemicals, Tannins Characterization and Antimicrobial Analyses of Dried Carrot Greens Extracts. International Journal of Advanced Multidisciplinary Research Studies, v2, n.1, p89–94, 2022.
SINGLETON, Vernon L.; ORTHOFER, R.; LAMUELA-RAVENTÓS, Rosa M. Analysis of Total Phenols and Other Oxidation Substrates and Antioxidants by Means of Folin-Ciocalteu Reagent. In: PACKER, Lester (Ed.). Methods in Enzymology. New York Academic Press, 1999. p152–178.
SONG, Yuan et al. Effect of subcritical water on the extraction of bioactive compounds from carrot leaves. Food Chemistry, v.246, p.221–228, 2018.
VERGARA-SALINAS, José R. et al. Effects of temperature and time on polyphenolic content and antioxidant activity in the pressurized hot water extraction of deodorized thyme Thymus vulgaris. Journal of Agricultural and Food Chemistry, v60, n44, p10920–10929, 2012.