IMPACTOS DO USO DE SUBSTÂNCIAS LÍCITAS E ILÍCITAS NA GESTAÇÃO: RISCOS PARA O BINÔMIO MATERNO-FETAL  
1ANA BEATRIZ QUEIROZ DA SILVA, 2CAMILLE SIMÕES VICTORIA, 3PRISCILA LUIZA MELLO
1Discente do curso de Medicina da Faculdade de Guarulhos – FAG / União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo – UNIESP
2Discente do curso de de Medicina da Faculdade de Guarulhos - FAG / União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo - UNIESP
3Docente do curso de de Medicina da Faculdade de Guarulhos – FAG / União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo – UNIESP
Introdução: A gravidez é um período de profundas alterações fisiológicas e metabólicas, essenciais para o desenvolvimento fetal saudável. Contudo, a exposição a drogas lícitas e ilícitas nesse período representa um dos fatores de risco mais relevantes para a saúde materno-infantil, visto que muitas substâncias psicoativas ultrapassam a barreira placentária e atingem diretamente o feto. Considerando a imaturidade dos sistemas hepático e renal fetais, há maior suscetibilidade aos efeitos tóxicos, que podem comprometer não apenas o desenvolvimento intrauterino, mas também a saúde da criança a curto, médio e longo prazo (RIGO, F. L. et al., 2020).
Objetivo: Revisar a literatura científica acerca dos impactos do uso de substâncias lícitas e ilícitas na gestação, com ênfase nos mecanismos fisiopatológicos e nos riscos clínicos para o binômio materno-fetal.
Desenvolvimento: Os efeitos deletérios das drogas durante a gestação podem ser compreendidos a partir de seus mecanismos de transferência placentária. O processo mais comum é a difusão passiva, em que moléculas pequenas, lipossolúveis e não ionizadas atravessam facilmente as membranas placentárias. Além disso, ocorre o transporte facilitado, como no caso da metadona, que utiliza transportadores de nutrientes, e o transporte ativo, mediado por proteínas específicas, descrito para alguns antibióticos. Esses mecanismos são críticos, pois o feto, em razão da imaturidade hepática e renal, apresenta dificuldade em metabolizar e excretar substâncias, o que prolonga a exposição e potencializa efeitos tóxicos (NATIONAL INSTITUTE ON DRUG ABUSE, 2020). Assim, a presença de drogas no organismo materno pode resultar em alterações funcionais e comportamentais no indivíduo em formação, incluindo distúrbios de aprendizado, cognição e comportamento (SOUSA et al., 2016). Entre as substâncias mais estudadas, os opioides estão fortemente associados à síndrome de abstinência neonatal (SAN), caracterizada por choro intenso, tremores, distúrbios do sono, vômitos e dificuldades alimentares. Patrick et al., 2015 identificaram que até 60% dos neonatos expostos intrauterinamente a opioides desenvolvem SAN, exigindo internação em unidades neonatais, cuidados intensivos e, em alguns casos, tratamento farmacológico com morfina ou metadona. O álcool, por sua vez, está relacionado à síndrome alcoólica fetal (SAF), cuja tríade clássica inclui dismorfismos craniofaciais, atraso no crescimento intrauterino e déficits neurocognitivos permanentes. Não existe dose segura de álcool durante a gravidez, o que torna a abstinência absoluta a única conduta preventiva. O tabaco provoca hipóxia fetal crônica devido à ação da nicotina e do monóxido de carbono, sendo responsável por aumento nos índices de baixo peso ao nascer, parto prematuro, mortalidade perinatal e maior predisposição a doenças respiratórias recorrentes, como bronquiolite e asma. Já as drogas estimulantes ilícitas, como cocaína, crack e metanfetaminas, causam intensa vasoconstrição, elevando o risco de descolamento prematuro de placenta, condição potencialmente fatal para mãe e feto. Além disso, estudos recentes demonstram que a exposição intrauterina a essas substâncias pode provocar alterações estruturais cerebrais, refletindo em convulsões, alterações motoras e dificuldades de aprendizagem ao longo da infância (CARDOSO et al., 2025). Do ponto de vista social, o uso de drogas durante a gestação está intimamente associado a contextos de vulnerabilidade, como baixa escolaridade, pobreza, violência doméstica, ausência de rede de apoio e dificuldade de acesso aos serviços de saúde (MACHADO et al., 2021). Essas condições não apenas intensificam os danos biológicos, mas também dificultam estratégias de prevenção, acompanhamento e tratamento. O enfrentamento desse problema exige, portanto, políticas públicas que integrem saúde, assistência social e educação, ampliando o acesso ao pré- natal e à atenção especializada (GAMBOA et al., 2022). Além disso, ressalta-se a necessidade de formação e sensibilização profissional. Médicos, enfermeiros, psicólogos e demais integrantes da equipe multiprofissional devem estar preparados para identificar gestantes em situação de risco, adotar condutas livres de estigmas e preconceitos e oferecer um cuidado integral pautado em evidências. Estratégias de redução de danos, combinadas a intervenções educativas e acompanhamento contínuo, podem contribuir para minimizar os impactos dessas exposições na saúde materno-fetal (PATRICK et al., 2015).
Conclusão: O uso de substâncias lícitas e ilícitas na gestação representa um desafio complexo, que envolve tanto mecanismos biológicos quanto determinantes sociais. A exposição intrauterina compromete de forma significativa o desenvolvimento fetal e neonatal, com consequências imediatas e repercussões que podem se estender por toda a vida. Nesse sentido, a assistência multiprofissional, a implementação de políticas públicas eficazes e a abordagem livre de estigmas são fundamentais para garantir proteção à saúde da mãe e do filho. A ampliação do debate científico sobre o tema contribui para fortalecer práticas clínicas e sociais voltadas à promoção da saúde.
Referências:
CARDOSO, N. M. et al. Práticas médicas de redução de danos relacionados ao aborto inseguro na atenção primária à saúde na cidade de São Paulo, Brasil: contextos e barreiras para efetivação. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 41, n. 4, abr. 2025. Disponível em: https://cadernos.ensp.fiocruz.br/csp. Acesso em: 22 jun. 2025.
GAMBOA, R. et al. Impacto do uso de drogas durante a gravidez no neurodesenvolvimento de neonatos. Educação e Saúde, [s. l.], v. 10, n. 2, p. 45-52, 2022.
KLIEGMAN, R. M. et al. Nelson textbook of pediatrics. 21. ed. Philadelphia: Elsevier, 2020.
NATIONAL INSTITUTE ON DRUG ABUSE. Substance use while pregnant and breastfeeding. [S. l.]: NIDA, 2020. Disponível em: https://nida.nih.gov/. Acesso em: 6 set. 2025.
NATIONAL INSTITUTE ON DRUG ABUSE. Substance use in women and pregnancy. Bethesda: National Institutes of Health, 2020. Disponível em: https://nida.nih.gov/publications/substance-use-in-women/pregnancy. Acesso em: 17 jun. 2025.
PATRICK, S. W. et al. Neonatal abstinence syndrome and associated health care expenditures: United States, 2000-2012. New England Journal of Medicine, Boston, v. 372, n. 22, p. 2118-2126, maio 2015. Disponível em: https://doi.org/10.1056/NEJMsa1500439. Acesso em: 11 jul. 2025.
RIGO, F. L. et al. Efeitos do uso de drogas lícitas e ilícitas durante a gestação. Revista Médica de Minas Gerais, Belo Horizonte, v. 30, supl. 1, 2020. Disponível em: http://www.rmmg.org/artigo/detalhes/2795. Acesso em: 14 jul. 2025.
SOUSA, J. P. A.; FERNANDES, A.; CARVALHO, A. Farmacocinética das drogas na gravidez: implicações clínicas. Revista Portuguesa de Cardiologia, Lisboa, v. 35, n. 9, p. 479-490, set. 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.repc.2015.11.024. Acesso em: 12 jul. 2025.