AVALIAÇÃO LABORATORIAL DE EFUSÃO HEMORRÁGICA ABDOMINAL AGUDA ASSOCIADA AO ROMPIMENTO DE NEOFORMAÇÃO ESPLÊNICA EM CÃO: RELATO DE CASO  
1GABRIELY AMARO DE OLIVEIRA BORGES, 2ÍTALO MORELLI MIACRI SOUZA, 3STHEFANY PRISCILA DA CUNHA, 4EUGÊNIA PIVETTA MONTEIRO RODRIGUES , 5ÁGATHA FERREIRA XAVIER DE OLIVEIRA
1Residente em Patologia Clínica Veterinária no Hospital Veterinário (UEM) - campus Umuarama, PR
2Discente do Programa de Pós-Graduação em Produção Sustentável e Saúde Animal (UEM) - campus Umuarama, PR
3Residente em Patologia Clínica Veterinária no Hospital Veterinário (UEM) - campus Umuarama, PR
4Discente do Programa de Pós-Graduação em Produção Sustentável e Saúde Animal (UEM) - campus Umuarama, PR
5Docente da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – campus Umuarama, PR
Introdução: Hemoperitônio, ou efusão hemorrágica abdominal, consiste no acúmulo de sangue na cavidade peritonial, cuja principal causa não traumática advém da presença de neoformações especialmente em baço, podendo também se originar em fígado ou demais locais da cavidade abdominal (MILLAR et al., 2022). Dentre as neoplasias abdominais mais comuns em cães, o hemangiossarcoma esplênico é apontado como o mais frequente e constantemente associado a hemorragias espontâneas, uma vez que seu rompimento corresponde a um risco iminente de morte por consequência ao choque hipovolêmico (THRALL, 2021). O objetivo desse trabalho foi relatar um caso de hemoperitônio agudo em cão, secundário à ruptura de uma neoplasia mesenquimal esplênica.
Relato de caso: Foi atendido no Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Maringá (HV-UEM) um cão da raça Shih Tzu, fêmea, de 15 anos, apresentando abdômen distendido, mucosas levemente hipocoradas, hipotensão (80 mmHg), normocardia (160 BPM), normopneia (32 MRPM) e com teste de balotamento positivo, indicando a presença de líquido livre em região abdominal. O animal foi prontamente levado para a realização do exame A-FAST, no qual observou-se intensa presença de líquido livre em janelas hepato-diafragmática, espleno-renal, cisto-cólica e hepato-renal, além da presença de neoformação em janela espleno-renal apresentando vascularização e mensurando 5,91cm x 5,50cm. Imediatamente foi realizado abdominocentese e o material foi encaminhado para o setor de Patologia Clínica para análise. O líquido apresentou coloração avermelhada, de aspecto turvo. Na análise química, notou-se intensa presença de bilirrubina. A contagem celular apontou 2.184.000/µL de eritrócitos e 31.552/µL de células nucleadas. Devido intensa presença de hemácias, foi realizada a mensuração do hematócrito da efusão, que evidenciou um valor de 14% em relação ao líquido total. Na análise citológica, foi observada uma acentuada presença de eritrócitos que frequentemente apresentavam alterações morfológicas como anisocitose, policromasia e presença de corpúsculos de Howell-Jolly. Dentre as células nucleadas, notou-se moderada presença de neutrófilos, que ocasionalmente apresentavam em formato bastonete, além de discreta presença de macrófagos, plaquetas, linfócitos e eosinófilos. Foi determinado a concentração de proteína total (4,7 g/dL) e glicose (86,0 mg/dL) da efusão a partir do sobrenadante obtido por meio de centrifugação (3.000 RPM), através do analisador semi-automático. Nesse processo, notou-se que o sobrenadante apresentou coloração moderadamente amarelada. As alterações do hemograma demonstraram uma anemia (hematócrito 17%) macrocítica e hipocrômica com presença de metarrubrícitos (18%), intensa anisocitose, policromasia e Corpúsculos de Howell-Jolly (CHJ), além de desvio a esquerda, linfopenia e trombocitopenia. O perfil bioquímico-sérico demonstrou elevação da concentração de creatinina (2,8 mg/dL), ureia (179,0 mg/dL) e hipoalbuminemia (2,4 g/dL), com discreta presença de icterícia. No mesmo dia do atendimento o animal foi a óbito, dessa forma- realizou-se análise citopatológica post mortem da massa esplênica, revelando uma neoplasia mesenquimal.
Discussão: De acordo com concentração proteica e contagem de células nucleadas, determinou-se que se tratava de uma efusão do tipo exsudato, além disso, por meio da análise citológica e percentual de hemácias presentes, a efusão foi classificada como hemorrágica (RIZZI et al., 2021). Em cães, principalmente acima de 10 anos de idade, a principal causa de hemoperitônio é o rompimento de neoplasias intra-abdominais em baço (GAZSI-HULL, GOIC E BUTLER, 2025), assim como observado neste relato. Os achados citológicos da efusão apontaram para uma hemorragia ativa e recente, devido à similaridade dos achados morfológicos do eritrograma, como anisocitose, policromasia e a presença de CHJ e principalmente pela presença de plaquetas, que quando observadas em pouca quantidade e associadas a ausência de eritrofagocitose, indicam hemorragia aguda (ECLINPATH, 2025). Outro fato marcante é a proximidade do hematócrito determinado em ambas as amostras. Wellman e Radin (2020) citam que uma efusão hemorrágica precisa ter um hematócrito ≥25% do sangue periférico, sendo o valor deste caso de 82,4%. Anemia e trombocitopenia são achados comuns em pacientes com hemangiossarcoma, resultantes de sangramento intracavitário ou hemólise microangiopática. Tais achados, além da citologia realizada, tornam essa neoplasia o principal diagnóstico diferencial do presente caso. Além disso, a discreta icterícia observada pode ser atribuída à anemia hemolítica, quadro frequente em síndromes paraneoplásicas (CAMBOIM et al., 2017; DALLANORA et al., 2023).
Conclusão: A semelhança entre achados citológicos da efusão abdominal e do hemograma permitiram rapidamente determinar que se tratava de uma hemorragia aguda, com potencial risco de óbito do paciente por choque hipovolêmico, indicando possível rompimento da neoformação esplênica observada no exame de imagem. As análises laboratoriais, principalmente quando realizadas de forma imediata em casos emergenciais, possibilitam o diagnóstico rápido e preciso, direcionando o manejo clínico adequado.
Referências:
CAMBOIM, A. S.; et al. Manifestação de síndrome paraneoplásica em um cão com hemangiossarcoma cutâneo: relato de caso. Brazilian Journal of Veterinary Medicine, v. 39, n. 2, p. 126–132, 2017. DOI: 10.29374/2527-2179.bjvm025016.
DALLANORA, E.; et al. Hemangiossarcoma em um cão: relato de caso. In: MOSTRA CIENTÍFICA DA MEDICINA VETERINÁRIA, 4., 2023, Erechim. Anais [...]. Erechim: Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, 2023.
ECLINPATH. Peritoneal fluid. eClinpath, 2025. Disponível em: https://eclinpath.com/cytology/effusions-2/peritoneal-fluid. Acesso em: 4 set. 2025.
GAZSI-HULL, K.; et al. Use of Epsilon Aminocaproic Acid in Perioperative Stabilization of Canine Spontaneous Hemoperitoneum. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care, Monroeville, v. 35, n. 3, p. 189–196, ago. 2025. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/vec.13468. Acesso em: 26 ago. 2025.
MILLAR, S. L.; et al. Premature death in dogs with nontraumatic hemoabdomen and splenectomy with benign histopathologic findings. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 260, supl. 1, p. S9–S14, 15 jan. 2022.
RIZZI, T. E. et al. Efusões: abdominal, torácica e pericárdica. In: COWELL, R. L. Diagnóstico citológico e hematologia de cães e gatos. São Paulo: Medvet, 2021. p. 235–355.
THRALL, Mary Anna. Abdominal and thoracic fluid analysis in dogs and cats. In: SHARKEY, Leslie C.; RADIN, M. Judith; SEELIG, Davis (Ed.). Veterinary cytology. 1. ed. Hoboken: John Wiley & Sons, 2021. cap. 52, p. 695–707.
WELLMAN, M. L.; RADIN, M. J. Effusion Cytology. Clinicians Brief, The Ohio State University, mar. 2020.