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| CONSIDERAÇÕES PARA A COMPREENSÃO FENOMENOLÓGICA-EXISTENCIAL DO USO ABUSIVO DE DROGAS | |
| 1MARIA LUIZA SOARES ALVES, 2JORGE ANTONIO VIEIRA | |
| 1Acadêmica do PIC/UNIPAR 2Docente da UNIPAR |
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| Introdução: O uso abusivo de drogas é um fenômeno complexo e de interesse em variados setores da ciência psicológica, na qual não se encontra uma explicação consensual sobre a questão dos motivos e fatores intervenientes neste fenômeno. A fenomenologia existencial propõe elucidar o ser humano como posto no mundo compreendendo a amplitude da sua existência, e nessa perspectiva podemos ensaiar uma compreensão do uso abusivo de drogas através da fenomenologia existencial (Sodelli, 2010). Objetivo: Analisar o uso abusivo de drogas numa perspectiva fenomenológica existencial Heideggeriana. Desenvolvimento: A concepção de homem proposta na visão fenomenológica existencial é de que o sujeito está lançado no mundo sem um destino pré determinado, ele se constrói no e com o mundo e a partir de suas (in)decisões vai (des)compondo os significados de sua existência. Heidegger (1993) desenvolve esta tese a partir do termo “Dasein", ser-aí, o existente humano como ser de possibilidades, e se refere à situação de que o homem não é fixo, mas está lançado no mundo para se constituir em relação com ele: "Numa compreensão fenomenológica existencial, todo ente humano (Dasein) existe lançado em um mundo, cuidando de sua existência, cuidando de habitar, encontrando-se com tudo que lhe convoca” (Sipahi e Vianna, 2001, p.504). Nesse sentido, o homem se difere dos demais seres e objetos pela sua experiência de existência e finitude como possibilidade de ser, “o homem nasce possibilidade e não determinação” (Sodelli, 2010). Isso significa que o ser humano estabelece uma relação com o mundo na busca de sentido, e a partir disso vai construindo a ambientação de seu lugar de vida, de seu trabalho, de seu fazer. Nesse processo existencial ele vive a angústia diante das possibilidades de existir, da finitude, fragilidade e precariedade que compõem a vida e é responsável por suas ações e pelo (des)cuidado com elas e as coisas que o cerca (Sodelli, 2010). O Dasein é abertura para a construção do sujeito, pois todas as suas escolhas resultam no significado de sua existência, e isto se apresenta tanto como possibilidade de criação de si mesmo, quanto como fonte de angústia e vulnerabilidade, pois o sujeito deve carregar consigo seus sucessos e fracassos, dando conta do próprio existir e sentido para as coisas do mundo diante de inúmeras incertezas. Neste sentido, o sujeito é sempre chamado para decidir sobre o modo como vai cuidar de seu ser, o que pode ser sentido como empenho na construção de uma existência autêntica, mas também um fardo a se carregar, devido a condição humana de possibilidade de ser e incerteza e as vivência de angústia. A experiência da liberdade, da finitude e da responsabilidade em dar sentido à existência e o confronto com a possibilidade da própria morte descrevem a experiência da nossa existência como uma vivência que pode ser esmagadora e paralisante, e é desta vulnerabilidade existencial que se origina a abertura para o possível uso abusivo de drogas, enquanto promessa de uma tranquilidade no viver (Sodelli, 2010). Como resultado se estabelece uma relação desfigurada com a droga que livra o sujeito da consciência de responsabilidade sobre a construção de seu futuro. Assim como afirmam Sipahi e Vianna (2001, p.504) “a dependência revela-se como uma das possibilidades de aliviar-se da tarefa do cuidar, na precariedade do viver”. O uso abusivo de drogas permite que o sujeito experimente uma vida alienada de suas responsabilidades e mais prazerosa, porém inautêntica e que não comporta o cuidado de si e suas relações. Outro fator a ser considerado é que o consumo praticado na busca de diminuição do sofrimento e angústia existencial será mediado pela forma como cada um busca cuidar de seu ser no mundo, fazendo com que a experiência de uso seja única de sujeito para sujeito, com cada um dando sentido próprio para a experiência e continuidade do uso abusivo. Assim, compreende-se que o problema se apresenta na relação estabelecida com o uso da substância e não a substância em si, e portanto, conforme destaca Sodelli (2010, p.641) “não se pode referir ao padrão do uso de drogas apenas pelas propriedades farmacológicas das substâncias, mas por um conjunto de fatores intrínsecos: a droga, o indivíduo e o meio social”. Em vista disso, compreende-se que o uso abusivo de drogas não é uma condição imutável e que o que marca se o consumo será feito de maneira nociva, não são apenas fatores biológicos, mas também do sentido do consumo atribuído pelo próprio sujeito. Conclusão: O uso abusivo de drogas não é um determinante ou fato insuperável, mas um fenômeno singular que se apresenta para cada sujeito de forma única a depender de suas vivências intencionais. A compreensão deste fenômeno do uso abusivo de drogas repercute na clínica psicoterápica da abordagem fenomenológica-existencial ao possibilitar a prática terapêutica voltada para a ressignificação do sujeito em relação a sua existência, o resgate de sua autonomia e abertura a novas possibilidades de futuro, numa perspectiva de responsabilização e autenticidade. |
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| Referências: BARBOSA, M. D. Um olhar clínico diante do alcoolista: a fenomenologia existencial e suas contribuições. Revista Sítio Novo, Vol. 1, p. 158-167, 2017. ISSN 2594-7036. Disponível em: https://sitionovo.ifto.edu.br/index.php/sitionovo/article/view/56/47. Acesso em: 2 ago. 2025. HEIDEGGER, M. Ser e o Tempo. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 1993. SIPAHI, F. M.; VIANNA, F. C. Uma análise da dependência de drogas numa perspectiva fenomenológica existencial. Análise Psicológica, Lisboa, v. 19, n. 4, p. 503-507, out. 2001. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0870-82312001000400002. Acesso em: 2 ago. 2025. SODELLI, M. A abordagem proibicionista em desconstrução: compreensão fenomenológica existencial do uso de drogas. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 15, n. 3, p. 637-644, maio 2010. Disponível em: https://pdfs.semanticscholar.org/3bc5/928c0a81199855d5f106a2b18c3c67098b2d.pdf. Acesso em: 2 ago. 2025. |
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