CIÊNCIA EM RISCO: O PATOLÓGICO REESCRITO POR DISPOSITIVO IDEOLÓGICO  
1ISADORA CAMARGO PACHER, 2ANGELO MARCIO DAS CHAGAS DE SOUZA JUNIOR
1Acadêmica do curso de Psicologia Unipar
2Docente da UNIPAR
Introdução: Este trabalho analisa como certas interpretações pós-estruturalistas sobre linguagem e poder podem funcionar como dispositivos ideológicos. Reflete-se sobre a criação de novas semânticas no meio acadêmico, especialmente na psicologia.
Objetivo: Com base na psicanálise lacaniana, discute-se a leitura do sujeito no contexto social, considerando que a linguagem atual frequentemente reduz aspectos psicológicos a termos imprecisos, muitas vezes presentes em discursos acadêmicos e jurídicos, distantes de seu real significado clínico.
Desenvolvimento: Podemos identificar dois segmentos onde isso ocorre: o uso intencional da simbologia em setores como a publicidade, que explora fragilidades do público-alvo por meio da comunicação contextualizada; e movimentos científicos articulados com outras áreas, que utilizam a simbologia, amparados pela ciência, para direcionar novos saberes. Um exemplo do segundo caso é a resolução nº 163 do CONANDA, que considera abusiva e ilegal a publicidade voltada a crianças e adolescentes (CONANDA, 2014), por reconhecer que se trata de um público em desenvolvimento e, portanto, vulnerável a conteúdos que exploram intencionalmente suas fragilidades para fins econômicos. Também nas áreas de saúde mental observa-se o uso simbólico para modificar terminologias consolidadas, como no caso do termo “pedófilo”, que vem sendo substituído por expressões como “Minor-Attracted Person (MAP)” ou “Pessoas Atraídas Sexualmentepor Menores de Idade”. O tema é debatido sob dois argumentos principais: o primeiro defende uma abordagem mais compreensiva; o segundo, alinha-se a interesses políticos de grupos pró-pedofilia (Woodlock, 2024). Em 2011, o grupo B4U-ACT organizou um simpósio para propor mudanças no DSM da American Psychiatric Association (APA), sugerindo substituir “transtorno” por “atração” e excluir critérios que classificam o desejo como patológico. Tais iniciativas revelam a vulnerabilidade da ciência clínica à captura ideológica da linguagem. Para Lacan, o sujeito é efeito da linguagem, e o desejo só se sustenta ao atravessar a castração simbólica, não sendo um direito absoluto. O perverso, ao recusá-la, busca manter o gozo sem limites, usando a linguagem como escudo. Na psicologia histórico-cultural, a linguagem media a consciência e, se usada ideologicamente, anestesia o real e disfarça a violência como inclusão. Ao transformar condutas patológicas em categorias identitárias com viés não científico, o limite entre ciência e ideologia se confunde, impactando a psicologia. Vygotsky (2001) afirma que a linguagem não só expressa o pensamento, mas o molda. Assim, mudar termos altera a percepção e o julgamento social. Blanchard (2009) destaca que trocar a terminologia não elimina as implicações clínicas, éticas e legais: chamar de “atração” não retira a pedofilia da categoria de transtorno. Heather Brunskell-Evans (2020) critica a normalização do dano sexual sob o pretexto da diversidade, alertando para o “colapso ético das fronteiras” e que “o dano é reembalado como identidade”. A crítica alcança Michel Foucault, que, embora tenha analisado poder e sexualidade, defendeu em 1970 a abolição da idade de consentimento na França. Em 1978, afirmou que “a sexualidade infantil não deve ser reprimida pelo pânico moral do mundo adulto.” Tais posturas mostram como a dissolução dos limites simbólicos pode aceitar a neutralização científica dos danos das parafilias. Outro caso emblemático é Alfred Kinsey, que em “Sexual Behavior in the Human Male” (1948) usou relatos de abusadores confessos para relatar supostas “respostas fisiológicas” infantis a estímulos sexuais, sem denunciá-los, naturalizando o ato em nome de uma “ciência sexual”, configurando grave violação ética (GOODE, 2011). Pesquisas mostram que a sexualização precoce e o abuso infantil têm efeitos devastadores, como maior incidência de depressão, transtornos de ansiedade e uso abusivo de substâncias. Crianças abusadas também apresentam dificuldades escolares, evasão e problemas de concentração. O trauma compromete a autoestima e a confiança, dificultando vínculos afetivos na vida adulta. Muitas vezes, deixa marcas profundas na percepção de si e do mundo, gerando vergonha e culpa persistentes. Socialmente, as vítimas enfrentam estigmatização e isolamento, perpetuando o ciclo de sofrimento e vulnerabilidade.
Diante do cenário atual, em que a linguagem se torna campo de disputa simbólica, este trabalho reafirma a importância de sustentar limites científicos na nomeação do desejo. A clínica e a cultura só serão sustentáveis se forem capazes de nomear o que fere, em vez de protegê-lo sob a máscara da linguagem inclusiva.
Conclusão: Ao revisar a literatura sobre temas como estes, é possível entender que uma linha de raciocínio está se estabelecendo e implica diretamente no que diz respeito ao tratamento das parafilias, pois, na ausência da análise adequada sobre o tema por parte dos pares, e a presença de um viés ideológico e produções acadêmicas de grupos pró-pedofilia, criam-se trabalhos e atalhos legais que modificam a percepção da sociedade sobre o que é o abuso sexual infantil e suas particularidades, deixando a sociedade ainda mais vulnerável.
Referências:
BLANCHARD, R. The DSM diagnostic criteria for pedophilia. Archives of Sexual Behavior, v. 38, n. 3, p. 335-340, 2009.
BRUNSKELL-EVANS, H. Inventing transgender children and young people. Newcastle upon Tyne: Cambridge Scholars Publishing, 2020.
CONANDA. Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Resolução nº 163, de 13 de março de 2014. Brasília, 2014. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda. Acesso em: 1 set. 2025.
CONAR. Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária. Publicidade infantil. São Paulo, 2014. Disponível em: https://www.conar.org.br/. Acesso em: 1 set. 2025.
FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
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GOODE, E. Moral panics and the pedophilia problem. Sociological Perspectives, v. 54, n. 1, p. 1-19, 2011.
KINSEY, A. C. Sexual behavior in the human male. Philadelphia: W. B. Saunders, 1948.
LACAN, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
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