VARIAÇÃO ANATÔMICA NA BIFURCAÇÃO DO NERVO ISQUIÁTICO: RELATO DE CASO   
1BEATRIZ WENDY MAYUMI SAKAMA, 2ÁGATA APARECIDA TINTI, 3GIOVANNA BEATRIZ DE LIMA FÁVARO, 4JAZIEL BARROS DOS SANTOS, 5THAIS AYUMI HASHIMOTO, 6MARNA ELIANA SAKALEM
1Acadêmica da Universidade Estadual de Londrina
2Acadêmica da Universidade Estadual de Londrina
3Acadêmica da Universidade Estadual de Londrina
4Acadêmico da Universidade Estadual de Londrina
5Acadêmica da Universidade Estadual de Londrina
6Docente da Universidade Estadual de Londrina
Introdução: O nervo isquiático é considerado o maior nervo periférico do corpo humano, resultante das raízes lombossacras de L4 a S3. Normalmente, ele deixa a pelve através do forame isquiático maior, inferior ao ventre do músculo piriforme, percorre a região glútea e segue pela face posterior da coxa até a fossa poplítea, onde se divide em nervo tibial e nervo fibular comum (ARAGÃO et al., 2022).
Entretanto, estudos anatômicos mostram que, nesse trajeto, o nervo pode apresentar modificações. Entre as variações mais descritas estão a divisão alta do nervo, a emergência por diferentes porções do forame isquiático e o cruzamento incomum em relação ao músculo piriforme, eventualmente superior ao músculo ou perfurando seu ventre. Tais variações podem influenciar diretamente a prática clínica, uma vez que estão associadas a maior risco de compressão neural, como na síndrome do piriforme, além de terem impacto em procedimentos ortopédicos e anestésicos (IKIZ et al., 2009; NATSIS et al., 2014; BROOKS et al., 2011).
Assim, a descrição de achados anatômicos incomuns contribui para a compreensão da diversidade morfológica do nervo isquiático e auxilia na prevenção de diagnósticos equivocados ou complicações cirúrgicas. Neste trabalho, relata-se uma variação anatômica do nervo isquiático observada em dissecação cadavérica.
Relato de caso: Um exemplar cadavérico humano, previamente dissecado para fins didáticos, apresenta variação na altura de bifurcação do nervo isquiático. Diferentemente do padrão clássico, em que o nervo mantém-se único até a fossa poplítea, nesta peça ele já se encontrava dividido em nervo tibial, medial, e nervo fibular comum, lateralmente, na porção proximal da região posterior da coxa. Ambos os ramos seguiam de forma independente ao longo de todo o compartimento posterior da coxa, sem o envoltório conjuntivo comum habitualmente descrito.
Discussão: Variações no nível de bifurcação do nervo isquiático já foram descritas na literatura, sendo registradas bifurcações na fossa poplítea, nas regiões inferior, média e superior da coxa, e até mesmo proximalmente à saída do nervo da região glútea (PRAKASH et al., 2010). Um estudo recente relatou variações no nível de bifurcação entre os dois membros inferiores de um mesmo cadáver: no terço superior da coxa direita e na porção média da coxa esquerda (ATONI et al., 2022). Essas variações podem ser importantes nos casos de trauma ou compressão dos nervos, visto que a separação mais proximal pode significar que um ou outro nervo escape da lesão, resultando em diferentes manifestações clínicas (PRAKASH et al., 2010). Além disso, as bifurcações mais proximais, como no caso do presente relato, podem acarretar na falha do bloqueio anestésico da fossa poplítea (VLOKA et al., 2001). 
Um aspecto adicional relevante é que a alta divisão do nervo isquiático, apesar de não ser a apresentação mais comum, possui grande relevância clínica. Esse arranjo anatômico, observado em uma parcela de casos, pode resultar em lesões iatrogênicas em procedimentos, como em cirurgias da região glútea ou injeções intramusculares profundas, visto que os ramos tibial e fibular comum podem seguir trajetos independentes desde níveis mais proximais, exigindo técnicas mais específicas de abordagem (ADIBATTI et al., 2014) . Por outro lado, alguns estudos indicam que variações na região glútea podem estar associados à síndrome do piriforme, quando o nervo isquiático atravessa ou passa acima do músculo, o que favorece o seu aprisionamento pelas fibras musculares. Consequentemente, a presença de trajetos atípicos nessa região pode modificar a localização considerada segura para as injeções intramusculares, ampliando o risco de lesões inadvertidas (IKIZ et al., 2018).
Conclusão: O conhecimento acerca das variações anatômicas no nervo ciático torna-se essencial na prática cirúrgica, tanto no manejo anestésico e de vacinas quanto em procedimentos mais invasivos envolvendo a região. O entendimento da associação anatomoclínica, em casos de dor ciática e de traumas, também é importante para a aplicação de medidas adequadas. Nesse sentido, é possível concluir que o relato de variâncias encontradas durante o estudo cadavérico possui grande importância para a prática clínica.
 
Referências:
ADIBATTI, M. et al. Study on variant anatomy of Sciatic Nerve. Journal of Clinical and Diagnostic Research, v. 8, n. 8, p. AC07-AC09, 2014. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25302181/. Acesso em: 8 set. 2025.
​ARAGÃO, J. A. et al. Divisão alta do nervo isquiático (síndrome piriforme): relato de caso e revisão da literatura. In: VARIAÇÕES ANATÔMICAS. 1. ed. Aracaju: Editora Científica Digital, 2022. p. 112-119. DOI: https://doi.org/10.37885/220207675.
ATONI, A. D. et al. Anatomic Variation of the Sciatic Nerve: A Study on the Prevalence, and Bifurcation Loci in Relation to the Piriformis and Popliteal Fossa. Acta Medica Academica, v. 51, n. 1, p. 52-58, 2022. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9982851/. Acesso em: 7 set. 2025.
​BROOKS, J. B. B. et al. Variações anatômicas do nervo ciático em um grupo de cadáveres brasileiros. Revista Dor, São Paulo, v. 12, n. 4, p. 332-336, 2011. DOI: https://doi.org/10.1590/S1806-00132011000400012.
IKIZ, Z. A. A. et al. Variant anatomy of sciatic nerve and their clinical implications. Ege Tıp Dergisi, v. 57, n. 2, p. 88-93, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.19161/etd.414980.
​NATSIS, K. et al. Anatomical variations between the sciatic nerve and the piriformis muscle: a contribution to surgical anatomy in piriformis syndrome. Surgical and Radiologic Anatomy, Paris, v. 36, n. 3, p. 273-280, 2014. DOI: https://doi.org/10.1007/s00276-013-1180-7.
​PRAKASH et al. Sciatic nerve division: a cadaver study in the Indian population and review of the literature. Singapore Medical Journal, v. 51, n. 9, p. 721-723, 2010. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20938613/. Acesso em: 7 set. 2025.
​VLOKA, J. D. et al. The division of the sciatic nerve in the popliteal fossa: anatomical implications for popliteal nerve blockade. Anesthesia & Analgesia, v. 92, n. 1, p. 215-217, 2001. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11133630/. Acesso em: 7 set. 2025.