REPERFUSÃO HEPÁTICA NO TRANSPLANTE: COMPARAÇÃO ENTRE PERFUSÃO NORMOTÉRMICA E HIPOTÉRMICA  
1EMERSON FRANCO DE NOVAIS, 2FERNANDA EMANOELI SOUZA, 3KAUAN MAYER REVERS, 4BRUNA VIEIRA TOKANO RAMOS, 5MARIANA VITORIA GASPERIN
1Acadêmico do Curso de Medicina da UNIPAR
2Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
3Acadêmico do Curso de Medicina da UNIPAR
4Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
5Docente da UNIPAR
Introdução: Segundo Liu e Man (2023), a lesão por isquemia/reperfusão (I/R) hepática é um evento inevitável no transplante de fígado e constitui um dos principais fatores para disfunção precoce do aloenxerto, não função primária e, em casos graves, falência aguda do enxerto. Tal processo resulta de uma cascata complexa que envolve disfunção microcirculatória, hipóxia tecidual, estresse oxidativo, morte celular e ativação das respostas imune inata e adaptativa, levando a danos estruturais e funcionais ao parênquima hepático (Cannistra et al., 2016). Nesse cenário, entre as estratégias modernas de preservação de órgãos, a perfusão mecânica dinâmica (PMD) destaca-se pelo potencial de reduzir a lesão por I/R em comparação ao armazenamento estático a frio, sendo a perfusão oxigenada hipotérmica (POH) uma das abordagens mais promissoras, com evidências pré-clínicas de atenuação da disfunção mitocondrial, do estresse oxidativo, da inflamação e da ativação imune (Yue et al., 2023). Assim, o presente estudo revisou a literatura dos últimos dez anos (2015-2025), priorizando trabalhos de maior robustez metodológica e baixo risco de viés, com o objetivo de avaliar e comparar os principais pontos positivos e negativos de cada técnica e sua aplicabilidade clínica.
Objetivo: Comparar as técnicas de perfusão normotérmica e hipotérmica na reperfusão hepática, destacando mecanismos, vantagens, limitações e aplicabilidade clínica na redução da lesão por isquemia/reperfusão.
Desenvolvimento: A lesão por I/R hepática representa uma das principais causas de falência no transplante de fígado, cuja relevância aumenta com o uso crescente de órgãos provenientes de doadores com critérios expandidos (Rampes; Ma, 2019). Apesar dos avanços cirúrgicos e nos métodos de preservação, a I/R permanece um desafio central (Liu; Man, 2023). Ainda, segundo os mesmos autores, as características como esteatose e desproporção entre tamanho do enxerto e do receptor intensificam a disfunção mitocondrial e metabólica. Assim, a POH reduz a taxa metabólica hepática, preserva a integridade mitocondrial e promove reposição gradual de oxigênio, limitando a formação de espécies reativas de oxigênio, e reduzindo a ativação de células inflamatórias (Liew et al., 2021; Cannistrà et al., 2016). Desse modo, em uma meta-análise com seis ensaios clínicos (854 receptores; 1124 fígados), a POH aumentou a sobrevida do enxerto (p = 0,02), reduziu eventos adversos graves em transplantes com critérios expandidos (p = 0,03) e diminuiu a incidência de colangiopatia isquêmica clinicamente relevante (p = 0,03) em comparação ao armazenamento estático a frio (Tingle et al., 2023). Já a PN mantém o órgão em temperatura fisiológica, fornecendo oxigênio e substratos energéticos continuamente, o que permite avaliação funcional pré-implante e potencial resgate de órgãos marginais (Liew et al., 2021). Apesar disso, na meta-análise de Tingle et al. (2023), a perfusão normotérmica (PN) não apresentou benefícios significativos sobre mortalidade ou complicações relevantes (p = 0,90), embora tenha reduzido em até 50% a taxa de descarte de órgãos em um dos estudos. Complementando as evidências clínicas, estudo experimental com ratos Wistar submetidos a 45 minutos de isquemia hepática mostrou que a hipotermia tópica (10 °C) reduziu significativamente os níveis de AST (1403 ± 1234 vs. 454 ± 213 U/L) e ALT (730 ± 680 vs. 271 ± 211 U/L) em comparação ao grupo normotérmico, ambos com p < 0,01 (Abdo et al., 2017).
Conclusão: A lesão por I/R hepática continua sendo um desafio crítico no transplante de fígado, especialmente diante do uso crescente de órgãos com critérios expandidos. A POH apresenta evidência robusta para melhorar a sobrevida do enxerto e reduzir complicações relevantes, enquanto a PN pode ter papel estratégico na ampliação do pool de doadores e na avaliação funcional do enxerto, apesar de seus benefícios clínicos diretos permanecerem incertos. No cenário futuro, a integração seletiva de ambas, de acordo com o perfil do doador, logística e experiência institucional, pode representar a abordagem mais eficiente. Estudos prospectivos de longo prazo são essenciais para consolidar seu papel na prática clínica.
Referências:
ABDO, Emilio Elias et al. Preliminary results of topical hepatic hypothermia in a model of liver ischemia/reperfusion injury in rats. Arquivos de gastroenterologia, v. 54, n. 3, p. 246-249, 2017.
CANNISTRÀ, Marco et al. Hepatic ischemia reperfusion injury: A systematic review of literature and the role of current drugs and biomarkers. International journal of surgery, v. 33, p. S57-S70, 2016.
LIEW, Belle et al. Liver transplant outcomes after ex vivo machine perfusion: a meta-analysis. British Journal of Surgery, v. 108, n. 12, p. 1409-1416, 2021.
LIU, Jiang; MAN, Kwan. Mechanistic insight and clinical implications of ischemia/reperfusion injury post liver transplantation. Cellular and molecular gastroenterology and hepatology, v. 15, n. 6, p. 1463-1474, 2023.
RAMPES, Sanketh; MA, Daqing. Hepatic ischemia-reperfusion injury in liver transplant setting: mechanisms and protective strategies. Journal of biomedical research, v. 33, n. 4, p. 221, 2019.
TINGLE, Samuel J. et al. Machine perfusion in liver transplantation. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 9, 2023.
YUE, Pengpeng et al. Hypothermic oxygenated perfusion attenuates DCD liver ischemia–reperfusion injury by activating the JAK2/STAT3/HAX1 pathway to regulate endoplasmic reticulum stress. Cellular & Molecular Biology Letters, v. 28, n. 1, p. 55, 2023.