A COMUNICAÇÃO DO FUTURO ALGORITMIZADA: ENTRE PROBABILIDADES E POSSIBILIDADES SOBRE A PERSPECTIVA DE APPADURAI  
1CARLOS BATISTA
1Doutorando bolsista CAPES/PROSUP
Introdução: O ato de se comunicar é uma necessidade básica dos seres humanos, os tornando relacionais e colaborativos, logo sociais, delimitando e moldando seus modos (Bordenave, 2017, p. 23-32). Observam-se, de forma conjunta, desde as primeiras comunicações caracterizadas por pinturas rupestres até as formas atuais digitais meios culturais das quais se baseiam e dão suporte as suas configurações e interpretações. Por isso se hoje se conceitua a sociedade da informação digital, a mesma traz como base o protagonismo cada vez maior do algoritmo (Kaufman, 2019). Sendo assim a questão principal que norteia e justifica essa pesquisa é se todas essas interações presentes podem projetar narrativas de futuros?
Objetivo: Em vista desses conceitos, o objetivo principal neste estudo de revisão é de como a comunicação do futuro, observada através de um presente digital proeminente pode ser exemplificada. Para isso utilizou-se como teórico principal o pesquisador Appadurai (2015) que versa em suas investigações, ora por um futuro de probabilidades, ora de possibilidades. Igualmente buscou-se conceituar, de maneira breve e sequencial, concepções sobre comunicação e o algorítmico fundamentas por autores da área.
Desenvolvimento: Para França (2014) a comunicação é uma prática interacional e cotidiana que se caracteriza pela transversalidade na área das ciências sociais, associada e complementada por outros campos como a sociologia e a psicologia. Deste modo, seus objetos de estudos são variados, não se limitando exclusivamente a meios, mas também aos agentes que a compõem incluindo o próprio ato comunicacional (ibidem, p. 39-60). Os fenômenos comunicacionais analisados em vista dos métodos e de suas teorias permitem reconhecer e justificar narrativas presentes e futuras. Assim, apresenta-se a comunicação tecnológica envolvida em projeções apoiadas no algorítmico, entendido com um conjunto de instruções matemáticas para resolução de cálculos (Jenkins, 2009). O algorítmico foi utilizado inicialmente na lógica formal e a aritmética, no entanto com o avanço das ciências exatas, promovidas no século XX pela ciência da computação, suas aplicações ganharam destaque e tornaram-se base para a programação computacional (Hora, 2023, p. 13-16). A sua grande vantagem é a aplicabilidade em dispositivos eletrônicos, nos quais permitem que suas instruções sejam executadas e interpretadas associando seus resultados a banco de dados que as combinam e a maximizam         , criando novas arquiteturas interacionais (ibidem, p. 17-52). Em consequência, a presente comunicação computacional pode investir em projeções de narrativas futuras, transformando e materializando tendências. O pesquisador Arjun Appadurai, teórico base para este ensaio, preconiza no capítulo XV da sua obra: “El futuro como hecho cultural: ensayos sobre la condición global” (2015) dois tipos de vertentes para o futuro baseadas em campos éticos. A primeira é de ordem probabilística, ou seja, determinada como provável em vista dos viesses empreendedores, tecnológicos e capitalistas presentes na sociedade e o segunda é envolta em possibilidades, conceituada como uma força oposta englobando o inclusivo, consequentemente o igualitário e comunitário (Appadurai, 2015). Essas duas perspectivas sobre o prisma da comunicação vinculadas à questão algorítmica são discutíveis, pois o digital também compreende a inclusão, no entanto respeitando determinadas narrativas, leiam-se instruções preconizadas, modulando autonomias (ibidem). Por fim, a sofisticação tecnológica que vivenciamos demanda cada vez mais recursos, não só do ponto de vista material como comunicacioal, fatos que se “conectam” aos interesses mercantilistas e na busca por resultados econômicos, isto é, o algorítmico não se processa através de interações emocionais, mas sim discursionais e previamente determinadas (Kaufman, 2019).
Conclusão: Conclui-se mediante às abordagens e o objetivo proposto que os atuais desenvolvimentos técnicos algorítmicos para uma comunicação futura envolvem probabilidades que se autointitulam facilitadoras, no sentido de serem inclusivas, no entanto são claramente tendenciosas pois representam naturais interesses de empresas e instituições que as representam, por isso vagam entre promessas utópicas, pouco fundamentadas e até contraditórias quando detalhadas (Barbero, 1997). Em contrapartida observam-se possibilidades comunicacionais desafiadoras pelas características de inclusibilidade e coletividade que o senso critico da parte probabilística estimula, uma vez que o “projeto” de comunicação do futuro já é delineado sem margem para discussão ou rupturas. Entende-se com isso um futuro algoritmizado materializado por construções discursivas, sendo que as duas vertentes propostas por Appadurai demonstram diferentes delineamentos ideológicos de narrativas. Não exatamente o futuro em si, mas sim como ele é projetado, construído no presente e jamais pronto, por isso o desenvolvimento do letramento algoritmizado se faz necessário para compreender seus resultados interacionais, logo o meio social que se comunica (Fiorin, 2014, p. 74-82).
Referências:
APPADURAI, Arjun. El futuro como hecho cultural: ensayos sobre la condición global. Traducción de: Silvia Villegas. Fondo de Cultura Económica de Argentina, S.A. México D.F. 2015, p. 241-280.
BARBERO, Jesus Martín. Dos meios às mediações: Comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997.
FIORIN, José Luiz. Comunicação e Linguagem in: CITELLI, Adilson; BERGER, Christa; BACCEGA, Maria Aparecida; LOPES, Maria Immacolata Vassalto de; FRANÇA, Vera Veiga (orgs.) Dicionário de Comunicação: escolas, teorias e autores. São Paulo: Contexto, 2014, p. 74-82.
FRANÇA, 2019, O Objeto da comunicação/ A comunicação como objeto in: HOHLFELDT, Antonia; MARTINO, Luiz C; FRANÇA, Vera Veiga (orgs.) Teorias da Comunicação: conceitos, escolas e tendências. 15 ed, Petrópolis, RJ: Vozes, 2019, p. 39-60.
HORA, Nina da. My News Explica: Algoritmos. São Paulo: Edições 70, 2023.
JENKINS, Henry. Cultura da Convergência: A colisão entre os velhos e novos meios de comunicação. Tradução de Susana Alexandria. São Paulo: Aleph, 2009.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. Editora 34, 1999.
KAUFMAN, Dora. A inteligência artificial irá suplantar a inteligência humana? Barueri, SP, Estação das Letras e Cores, 2019.