TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO (TOC): MECANISMOS NEUROBIOLÓGICOS E TRATAMENTO  
1GISELE MAYUMI NAKAMURA, 2MARIA CAROLINA BERNARDI GARCIA, 3LUIZ FELIPE PORFIRIO PELEGRINELI, 4GABRIEL VINICIUS DA SILVA, 5ANA ALICE DIAS NOGUEIRA DA CRUZ, 6GUILHERME NOGUEIRA DERENUSSON
1Acadêmico do PIC/UNIPAR
2Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
3Acadêmico do Curso de Medicina da UNIPAR
4Acadêmico do Curso de Medicina da UNIPAR
5Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
6Docente da UNIPAR
Introdução: O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) é um transtorno psiquiátrico crônico que causa sofrimento significativo e prejuízo na vida dos pacientes (STEIN et al., 2019). Ele é caracterizado por obsessões, pensamentos repetitivos e indesejados, e compulsões, comportamentos realizados para aliviar a ansiedade (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013). Estudos indicam que o TOC está ligado a alterações em circuitos cerebrais que envolvem o córtex e os gânglios da base, responsáveis pelo controle de pensamentos e comportamentos (STEIN et al., 2019).
Objetivo: Analisar os principais mecanismos associados ao TOC e revisar os tratamentos mais utilizados.
Desenvolvimento: Este trabalho é uma revisão narrativa baseada em artigos das bases PubMed e SciELO, priorizando revisões sistemáticas, diretrizes clínicas e ensaios clínicos (MAO et al., 2022). O TOC é um transtorno complexo que envolve fatores genéticos e ambientais, com hereditariedade estimada em 40–50% em estudos com gêmeos (STEIN et al., 2019). Assim, há predisposição biológica, mas o ambiente contribui para o desencadeamento dos sintomas (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013). Na fisiopatologia, os modelos mais aceitos apontam alterações nos circuitos cortico-estriato-tálamo-corticais (CSTC), relacionados ao controle de pensamentos e comportamentos (STEIN et al., 2019). Essa disfunção dificulta a interrupção de pensamentos indesejados, favorecendo compulsões (BIRIA et al., 2023). Estudos de neuroimagem mostram aumento da atividade em regiões como córtex orbitofrontal e corpo estriado, reforçando essa associação (STEIN et al., 2019). Do ponto de vista neuroquímico, há desequilíbrios em circuitos de serotonina, dopamina, GABA e glutamato (KARTHIK; KANDASAMY; REDDY, 2020). Alterações na atividade de glutamato foram associadas à maior gravidade de sintomas compulsivos (BIRIA et al., 2023), abrindo espaço para novas terapias (KARTHIK; KANDASAMY; REDDY, 2020). O tratamento envolve psicoterapia e farmacoterapia. A terapia cognitivo-comportamental (TCC), especialmente a técnica de Exposição e Prevenção de Resposta (ERP), é considerada padrão-ouro de eficácia clínica, em comparação com outras técnicas psicoterápicas utilizadas no tratamento do transtorno (MAO et al., 2022). Ensaios clínicos mostram que a ERP reduz significativamente os sintomas e apresenta efeitos duradouros (MAO et al., 2022). Na farmacoterapia, os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) são considerados primeira escolha de tratamento (REDDY et al., 2017). Eles aumentam a atividade de circuitos cerebrais de serotonina, reduzindo a intensidade dos sintomas (REDDY et al., 2017). A clomipramina, um antidepressivo tricíclico, é considerada eficaz, porém menos tolerada (REDDY et al., 2017). Em média, metade dos pacientes apresenta melhora clínica com inibidores de recaptação de serotonina (ISRS), embora a remissão completa seja menos comum (REDDY et al., 2017). Em casos resistentes, estratégias de potencialização são necessárias. Antipsicóticos atípicos em baixas doses, como risperidona e aripiprazol, mostram benefício em parte dos pacientes, principalmente nos casos graves ou com tiques associados (REDDY et al., 2017). Estima-se que até um terço responda a essa estratégia (VEALE et al., 2014). Outro recurso é a neuromodulação. A estimulação magnética transcraniana (EMT) apresentou melhora moderada dos sintomas em meta-análises (GRASSI et al., 2023). Já a estimulação cerebral profunda (DBS) é restrita a casos refratários e geralmente investigada em protocolos experimentais (STEIN et al., 2019). Terapias adjuvantes que atuam nas vias glutamatérgicas, como memantina, lamotrigina e N-acetilcisteína, encontram-se em estudo, porém com resultados ainda inconclusivos (KARTHIK; KANDASAMY; REDDY, 2020). Apesar disso, representam novas possibilidades para pacientes que não respondem ao tratamento convencional (BIRIA et al., 2023).
Conclusão: O TOC é um transtorno multifatorial que envolve alterações cerebrais e desequilíbrios neuroquímicos. O tratamento mais tolerado e eficaz combina a utilização de ERP com ISRS. Em casos resistentes, a associação com antipsicóticos, técnicas de neuromodulação e terapias adjuvantes relacionadas ao sistema glutamatérgico ampliam as opções disponíveis. O manejo deve ser individualizado, considerando gravidade, comorbidades e resposta às intervenções.
Referências:
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and statistical manual of mental disorders (DSM-5). 5. ed. Arlington: American Psychiatric Publishing, 2013.
BIRIA, M.; BANCA, P.; HEALY, M. P.; et al. Cortical glutamate and GABA are related to compulsive behaviour in individuals with obsessive compulsive disorder and healthy controls. Nature Communications, v. 14, n. 3324, 2023. DOI: 10.1038/s41467-023-38695-z.
GRASSI, G.; CECCHELLI, C.; VIGNOZZI, L.; PACINI, S. Will Transcranial Magnetic Stimulation Improve the Treatment of Obsessive–Compulsive Disorder? A Systematic Review and Meta-Analysis of Current Targets and Clinical Evidence. Life (Basel), v. 13, n. 7, p. 1494, 2023. DOI: 10.3390/life13071494.
KARTHIK, S.; KANDASAMY, A.; REDDY, Y. C. J. Research on glutamate in obsessive-compulsive disorder. Indian Journal of Psychiatry, v. 62, n. 7, p. 102–110, 2020. DOI: 10.4103/psychiatry.IndianJPsychiatry_804_19.
MAO, L.; HU, M.; LUO, L.; et al. The effectiveness of exposure and response prevention combined with pharmacotherapy for obsessive-compulsive disorder: A systematic review and meta-analysis. Frontiers in Psychiatry, v. 13, p. 973838, 2022. DOI: 10.3389/fpsyt.2022.973838.
REDDY, Y. C. J.; SUNDAR, A. S.; NARAYANASWAMY, J. C.; MATH, S. B. Clinical practice guidelines for Obsessive-Compulsive Disorder. Indian Journal of Psychiatry, v. 59, supl. 1, p. S74–S90, 2017. DOI: 10.4103/0019-5545.196976.
STEIN, D. J.; COSTA, D. L. C.; LOCHNER, C.; et al. Obsessive-compulsive disorder. Nature Reviews Disease Primers, v. 5, n. 1, p. 52, 2019. DOI: 10.1038/s41572-019-0102-3.
VEALE, D.; MILES, S.; SMALLCOMBE, N.; et al. Atypical antipsychotic augmentation in SSRI treatment refractory obsessive-compulsive disorder: a systematic review and meta-analysis. BMC Psychiatry, v. 14, p. 317, 2014. DOI: 10.1186/s12888-014-0317-5.