Escherichia coli NA MICROBIOTA INTESTINAL DE SERPENTES: REVISÃO DE LITERATURA  
1HELOIZA DE OLIVEIRA MARCHI, 2VITOR YUKIO TAKAHASHI, 3JORGE FERNANDES DE AZEVEDO, 4HENRIQUE SUSUMU TANAKA, 5FRANCIELI GESLEINE CAPOTE BONATO, 6DANIELA DIB GONCALVES
11Discente do Curso de Medicina Veterinária da UNIPAR, bolsista do PIBIC/UNIPAR
2Acadêmico do Curso de Medicina Veterinária da UNIPAR
3Acadêmico do Curso de Doutorado Em Ciência Animal Com ênfase Em Produtos Bioativos da UNIPAR
4Acadêmico do Curso de Doutorado Em Ciência Animal Com ênfase Em Produtos Bioativos da UNIPAR
5Doutorado Em Ciência Animal Com ênfase Em Produtos Bioativos - Turma Viii
6Docente da UNIPAR
Introdução: As serpentes, popularmente conhecidas como cobras no Brasil, são répteis vertebrados pertencentes à Classe Reptilia (Albuquerque, 2022) e desempenham um papel essencial no equilíbrio dos ecossistemas (Blaylock e Boomker, 2001). No Brasil, são reconhecidas por sua ampla diversidade, abrigando aproximadamente 405 espécies de serpentes das 795 espécies de répteis reconhecidas no país (SBH, 2020). O crescente aumento do contato entre serpentes e humanos, seja para fins acadêmicos, científicos ou para domesticação, tem elevado a preocupação com a saúde pública (Ramos et al., 2019). Esses animais podem ser portadoras de agentes infecciosos e de potencial zoonótico, o que torna fundamental o estudo de sua microbiota (Blaylock e Boomker, 2001). A presente revisão se dedica ao estudo da Escherichia coli, uma bactéria comum na microbiota intestinal de mamíferos e aves, entretanto, pouco estudada nos répteis (Zhang et al., 2019). Entender a microbiota intestinal das serpentes é crucial, já que apresentam funções únicas e podem afetar fortemente os processos fisiológicos do hospedeiro (Costea et al., 2018). Por isso, é necessário realizar o isolamento e a identificação dos microrganismos patogênicos para compreender e tratar infecções, especialmente em ambientes onde há uma intensa interação entre serpentes e seres humanos (Wannmacher, 2004).
Objetivo: Realizar um levantamento bibliográfico sobre a microbiota intestinal de serpentes, com ênfase na presença de Escherichia coli.
Desenvolvimento: Segundo o censo, o Brasil ocupa a 9ª posição entre os países com maior número de répteis domesticados, somando 2,2 milhões de animais (IBGE, 2013). Executar o estudo da microbiota intestinal de serpentes é fundamental para o diagnóstico de doenças e para o aprimoramento do manejo das populações criadas em cativeiro (Kohl, Skopec e Dearing, 2014). Alterações na microbiota intestinal podem influenciar o funcionamento do cérebro e do sistema nervoso (Kundu et al., 2017), além de desempenharem um papel importante na determinação do crescimento, imunidade e no índice de sobrevivência desses animais (Rosshart et al., 2017). Embora os estudos com foco na detecção de cepas de E. coli em isolados de répteis sejam limitados (Ramos et al., 2019), foi relatado que o transporte dessa bactéria ocorre principalmente pelo grupo filogenético B1, que geralmente é relacionado a patógenos diarreogênicos (Gordon e Cowling, 2003). Apesar da presente associação entre bactérias e serpentes, e da influência que esses microrganismos podem ter sobre os humanos, a sua caracterização e distribuição são pouco exploradas (Dipineto et al., 2014). Em 2022, foi realizado um extenso estudo na Polônia, onde analisaram 67 amostras fecais de répteis (cobras, tartarugas e lagartos), no qual 47,8% das amostras foram detectadas com E. coli. Sendo a sua incidência ligeiramente maior em cobras (51,6%) em comparação com tartarugas e lagartos (ambos com 44,4%). Em 50% das cepas foram encontrados genes de virulência, sendo os mais comuns traT, fyuA e irp-2, associados a patótipos extraintestinais (ExPEC). Uma cepa apresentou genes típicos de E. coli patogênica intestinal (IPEC), e outra foi classificada como híbrida (ExPEC + IPEC). A grande maioria das cepas foi sensível aos antibióticos testados, entretanto, 28% apresentaram algum tipo de resistência, principalmente à estreptomicina, e apenas uma cepa foi classificada como multirresistente (MDR). A maior parte das cepas eram comensais e pertencia ao grupo filogenético B1 (65,6%), mas grupos patogênicos relacionados a ExPEC (A, B2 e D) também foram encontrados principalmente nas serpentes. A análise genética (Rep-PCR) relatou uma alta diversidade entre os isolados, com 27 perfis distintos entre as 32 cepas. O material utilizado (fezes de répteis) foi coletado por donos de animais de estimação e de pet shops, enfatizando a importância de sempre utilizar boas práticas de higiene ao manipular esses animais (Dec et al., 2022). Outro estudo, realizado no Brasil, analisou 76 répteis, onde 52 (68,4%) amostras foram isolados para E. coli, sendo que 38 (50%) eram isolados de cobras. Em relação aos grupos filogenéticos, quase 89% (46/52) das cepas de E. coli pertenciam ao grupo B1, com maior propensão de isolamento desse grupo em cobras e lagartos. Algumas cepas também mostraram resistência a antibióticos como cefalotina e ciprofloxacino. Os resultados desse estudo indicam que os répteis, especialmente os carnívoros, podem ser reservatórios importantes de bactérias patogênicas e resistentes, representando risco à saúde pública (Ramos et al., 2019).
Conclusão: Através dos estudos analisados, pode-se notar a importância de conhecer a microbiota intestinal das serpentes, principalmente pela presença de cepas de E. coli com potencial patogênico, que podem representar um risco à saúde humana. Por isso, é essencial o cuidado no manejo desses animais e a adoção de boas práticas de higiene para prevenir possíveis infecções acidentais.
Referências:
Albuquerque, N. R. de. Manual de identificação das serpentes peçonhentas de Mato Grosso do Sul. Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 2022.
Blaylock, R. S. M.; Boomker, J. D. F. Normal oral bacterial flora from some southern African snakes. The Onderstepoort Journal of Veterinary Research, 2001.
Costea, P. I. et al. Enterótipos na composição da comunidade microbiana intestinal. Nature Microbiology, 2018.
Dec, M. et al. Perfis de virulência e suscetibilidade a antibióticos de cepas de Escherichia coli de répteis de estimação. Pathogens, 2022.
Dipineto, L. et al. Oral flora of Python regius kept as pets. Letters in Applied Microbiology, 2014.
Gordon, D. M.; Cowling, A. A distribuição e estrutura genética de Escherichia coli em vertebrados australianos: efeitos do hospedeiro e geográficos. Microbiology, 2003.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). População de animais de estimação no Brasil – 2013. São Paulo: Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação, 2013.
Kohl, K. D.; Skopec, M. M.; Dearing, M. D. O cativeiro resulta em perdas díspares de diversidade microbiana intestinal em hospedeiros intimamente relacionados. Conservation Physiology, 2014.
Kundu, P. et al. Nosso microbiota intestinal: o eu interior e evolução. Cell, 2017.
Ramos, C. P. et al. Identificação e caracterização de isolados de Escherichia coli, Salmonella spp., Clostridium perfringens e C. difficile de répteis no Brasil. BioMed Research International, 2019.
Rosshart, S. P. et al. A selva promove a aptidão do hospedeiro e melhora a resistência a doenças. Cell, 2017.
SBH – Sociedade Brasileira de Herpetologia. Brazilian reptiles list of species. 2020.
Wannmacher, L. Uso indiscriminado de antibióticos e resistência microbiana: uma guerra perdida. Uso Racional de Medicamentos: temas selecionados, 2004.
Zhang, B. et al. Comparative analysis and characterization of the gut microbiota of four farmed snakes from southern China. PeerJ, 2019.