REVISÃO SOBRE O APROVEITAMENTO DE FOLHAS E TALOS DE CENOURA: COMPOSIÇÃO NUTRICIONAL, PROPRIEDADES BIOATIVAS E PERSPECTIVAS
1LAURA MARIA GUADALUPE MARQUINI MARTINS NAVAS, 2CAMILA DA SILVA
1Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade UEM/IFPR, bolsista CAPES
2Docente da Universidade Estadual de Maringá (UEM)
Introdução: A cenoura (Daucus carota L.) é amplamente consumida e valorizada, principalmente, por suas raízes tuberosas de sabor adocicado e ricas em carotenoides. O Brasil, de acordo com Carvalho et al. (2021), é autossuficiente na produção dessa olerícola, ultrapassando 700 mil toneladas em 2017. A folhagem verde é geralmente separada logo após a colheita e acaba destinada para alimentação animal ou simplesmente descartada como resíduo agrícola (Song et al., 2018). Porém, essas partes são comestíveis, podem ser introduzidas na alimentação para benefícios nutricionais e apresentam um perfil fitoquímico promissor (Bardakçi, 2024; Kim et al., 2023). Extrações utilizando esse tecido foliar como matriz têm potencial para separar compostos de interesse e ampliar suas aplicações e valor agregado (Hassan et al., 2025). Tecnologias como a extração com água subcrítica têm sido aplicadas para otimizar o rendimento de compostos (Song et al., 2018). Apesar do potencial promissor, ainda são escassos os estudos sistematizados que sobre composição, bioatividade, segurança e aplicabilidade desse material, que possam abrir horizontes para o aproveitamento integral do alimento e economia circular.
Objetivo: Este estudo caracteriza-se como uma revisão de literatura, descritiva e exploratória, com o intuito de reunir e organizar o conhecimento científico sobre as folhas de cenoura.
Desenvolvimento: A análise da literatura sobre folhas e talos de Daucus carota L. aponta um potencial fitoquímico, ainda subexplorado. Os dados extraídos foram organizados em quatro categorias principais: caracterização nutricional; extratos; aplicações alimentares; e toxicidade. Quanto a caracterização fitoquímica e nutricional, os materiais analisados (folhas e talos) apresentaram composição com alto valor nutricional, proteínas (até 24,48%), ácidos graxos insaturados (1162,56 mg/100g), pigmentos como clorofila, β-caroteno (até 8,7 mg/100g). Complementarmente, Keilwagen et al. (2017) identificaram nas folhas 31 compostos voláteis como sabineno, borneol e β-pineno, ressaltando o potencial aromático para aplicações farmacológicas. A quantidade de vitamina C encontrada nas folhas de cenoura (7,1 mg/g) e alguns minerais (Mg: 11,2 mg/100g; K: 205,1 mg/100g; Fe: 22,7 mg/100g e Zn: 5,1 mg/100g) foi superior aos valores encontrados em folhas de outras raízes tuberosas como beterraba e nabo (Hassan et al., 2025), assim como a disponibilidade de Ca, Na e P (44,4; 46,7 e 36,4 %). OS estudos de extratos e seus compostos bioativos apresentam variada concentração nas folhas e talos, sobretudo de fenólicos, flavonoides e voláteis. Bardakçi et al. (2024) identificaram teores de fenóis totais entre 104 e 917 mg/100g e significativa capacidade antioxidante total (até 556 mg/100g) em folhas frescas. Extratos de etanol e acetona revelaram forte ação antioxidante e antimicrobiana, com destaque para compostos como luteolina, apigenina, quercetina e ácido cinâmico encontrados nas folhas (Kim et al., 2023; Hwang et al., 2023 e Hassan et al., 2025), os quais também demonstraram possíveis efeitos anti-inflamatórios. A extração com água subcrítica (EAS) destacou-se como método emergente por evitar o uso de solventes potencialmente tóxicos e que teve relativamente melhor desempenho na extração do composto luteolina (Song et al., 2018). A 210ºC, 8MPa e 113,5 min, o estudo de Song et al. (2018) obteve um extrato por EAS com quantidade de fenólicos totais (42,8 EAG mg/g) superior às cascas de manga, cebola e resíduo de vinícolas. Das aplicações alimentares estudas, a incorporação de folhas de cenoura demonstrou boa aceitabilidade sensorial e valor nutricional melhorado quando comparada com a formulação convencional. Produtos como biscoitos, massas, bolos e pães enriquecidos apresentaram aumento de fibras (até 12%), proteínas, minerais e capacidade antioxidante (Silva et al., 2020). O β-caroteno apresentou incremento significativo na formulação (Kaur e Kochar, 2009). A avaliação toxicológica sugere ausência de toxicidade aguda e subaguda em doses de até 2000 mg/kg (Nimmyel et al., 2024). Estudos em coelhos e pequenos roedores mostraram boa digestibilidade sem efeitos adversos (Abdullahi et al., 2024).
Conclusão: Comumente tratadas como resíduos, as folhas e os talos de cenoura revelam-se como fontes de compostos bioativos com alto valor e potencial de uso, principalmente pela presença de fitoquímicos — flavonoides, carotenoides, compostos voláteis e minerais — cujas propriedades antioxidantes, antimicrobianas e nutricionais os tornam promissores. Do ponto de vista tecnológico, os métodos de extração e processamento descritos na literatura permitem separar satisfatoriamente compostos de interesse. Recomenda-se o desenvolvimento de estudos contemporâneos e integrados, que promovam a valorização efetiva desses resíduos, maior abordagem e discriminação entre folhas e talos, e tragam mais dados de referência em extratos, bioacessibilidade e estabilidade dos compostos bioativos.
Referências:
ABDULLAHI, A. Y. et al. Effect of carrot leaves on growth performance and nutrient digestibility of grower mongrel rabbit. Nigerian Journal of Animal Production, v. 51, n. 2, p.1354–1356, 2024.
BARDAKÇI, M. S.; ÖZÇELIK, A.; KARACABEY, E. Does Daucus carota leaf provide a high potential as a source of bioactive constituents. Food Science and Technology, v. 12, n. 8, p. 5882–5889, 2024.
CARVALHO, A. et al. Cenoura: Daucus carota L. Brasília: Embrapa Hortaliças, 2021
HASSAN, A. B. et al. Valorization of wasted parts: mineral bioavailability, antioxidant, and antimicrobial properties of selected root vegetables. Horticulturae, v. 11, n. 4, p. 361, 2025.
HWANG, J. et al. Efficiency of the enzymatic conversion of flavone glycosides isolated from carrot leaves and anti-inflammatory effects. Molecules, v. 28, n. 11, p. 4291, 2023.
KAUR, T.; KOCHAR, G. K. Development and sensory evaluation of β-carotene rich food preparations using underexploited carrot greens. Journal of Human Ecology, v. 28, n. 3, p. 207–212, 2009.
KEILWAGEN, J. et al. The terpene synthase gene family of carrot identification of QTLs and candidate genes associated with terpenoid volatile compounds. Frontiers in Plant Science, v. 8, p. 1930, 2017.
KIM, J. S.; LIM, J. H.; CHO, S. K. Effect of antioxidant and anti-inflammatory activities on bioactive components of carrot leaves. Applied Biological Chemistry, v. 66, n. 1, p.1–10, 2023.
NIMMYEL, N. V. et al. TLC profiling, antioxidant and toxicity studies of chlorophyll extracted from dried carrot greens. International Journal of Research and Innovation in Applied Science, v. 9, n.1, p.17–25, 2024.
SILVA, F. N. da; OLIVEIRA, T.; ASSUMPÇÃO, G. Avaliação da aceitação sensorial de biscoito com farinha de talos e folhas de cenoura. Brazilian Journal of Development, v. 6, n.12, p. 96109–96114, 2020.
SONG, Y. et al. Effect of subcritical water on the extraction of bioactive compounds from carrot leaves. Food Chemistry, v. 246, p. 221–228, 2018.