A PERCEPÇÃO DO ENFERMEIRO DO CAPS II QUANTO À ASSISTÊNCIA PRESTADA À PACIENTES COM TERAPIA ANTIPSICÓTICA DE AÇÃO PROLONGADA  
1CASSIA APARECIDA CALIONI SAGGIORATO, 2ISABELA STRUB OLDRA, 3ANGELA ARIANE DALZOTO GRANISKA RIBAS
1Acadêmica do Curso de Enfermagem da Universidade Paranaense - UNIPAR
2Acadêmica do Curso de Enfermagem da UNIPAR
3Docente do Departamento de Enfermagem da Universidade Paranaense – UNIPAR
Introdução: Após a Reforma Psiquiátrica brasileira em 2001, a Lei Antimanicomial extinguiu os hospitais psiquiátricos e redirecionou o modelo assistencial em saúde mental para priorizar os direitos humanos. Políticas públicas promoveram a descentralização da atenção e o cuidado comunitário, sendo o paciente protagonista de seu tratamento, conforme diretrizes nacionais e da Organização Mundial de Saúde (SANTOS et al., 2023).
Os antipsicóticos possibilitaram avanços significativos no manejo de transtornos psiquiátricos, o desenvolvimento de novas gerações buscou maior eficácia e segurança (CORDEIRO et al., 2023). 
Com a Reforma Psiquiátrica, consolidou-se o modelo psicossocial, no qual a enfermagem atua de forma multidisciplinar, promovendo acolhimento, prevenção, contenção em surtos e reabilitação, além de terapias complementares (TC) e escuta qualificada, favorecendo a reinserção social em condições psíquicas adequadas (PERES et al., 2022).
Objetivo: Analisar a percepção do enfermeiro relacionado à assistência prestada à pacientes submetidos à terapia antipsicótica de ação prolongada.
Material e Métodos: Trata-se de uma pesquisa exploratória, descritiva, transversal, de campo e qualitativa, realizada com enfermeiros atuantes há pelo menos um ano no CAPS II de Francisco Beltrão–PR, selecionados por conveniência. A coleta de dados é realizada por entrevista estruturada, gravada em dispositivo pessoal da pesquisadora e posteriormente transcrita, com uso de codinomes para garantir o anonimato. A entrevista buscou investigar o perfil dos enfermeiros, ações de enfermagem direcionadas a pacientes em uso de antipsicóticos de ação prolongada e os desafios enfrentados. Os dados foram analisados conforme o método de Bardin, resguardando os princípios éticos e legais envolvidos. Seguindo normas destinada a pesquisas que envolvem seres humanos. Todos os participantes foram esclarecidos a respeito da natureza da pesquisa. O termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi assinado pela participante. A pesquisa foi submetida pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNIPAR - Universidade Paranaense (CAAE: 88597625.0.0000.0109).
Resultados e Discussão: Acácia, enfermeira do CAPS II, relatou ter 15 anos de formação, especialização em saúde mental e 10 anos de atuação na área e experiência no CAPS AD III. O CAPS não é a primeira escolha de muitos recém-formados, que ingressam na área sem preparo adequado e aprendem na prática, como apontam Silva et al. (2013). Acácia destaca a carência de especialização em saúde mental e a necessidade de manejo diferenciado para lidar com pacientes psiquiátricos. Essa percepção converge com Girade et al. (2006), que evidenciam o despreparo profissional, a fragilidade da formação generalista, a ausência de educação continuada e a escassez de literatura e cursos de atualização na área. A Resolução COFEN nº 678/2021 orienta a prática da enfermagem em saúde mental, destacando ambiente terapêutico, apoio matricial, comunicação e atenção domiciliar. As ações de Acácia envolvem orientação sobre adesão ao tratamento, escuta qualificada, apoio familiar e grupos de apoio. Bechelli (2003a) aponta a baixa adesão ao tratamento, acentuada em pacientes psiquiátricos, pela polifarmácia, medo, abandono de consultas e longos intervalos entre atendimentos. Acácia confirma esse desafio, ressaltando sobre a polifarmácia e a dificuldade de seguimento terapêutico. Bechelli (2003b) reforça que os efeitos colaterais e o impacto na qualidade de vida contribuem para a interrupção do tratamento. Acacia destaca o papel do médico com visão diferenciada, que valoriza as TC, atividade física e grupos de orientação como parte essencial do cuidado, também fala sobre a relevância da atenção primária, visitas domiciliares de enfermeiros e ACS, que auxiliam na organização das medicações e fortalecem a continuidade do tratamento entre os retornos ao CAPS.
Conforme Nasim, Nawaz e Nasim (2025), a associação do tratamento medicamentoso com terapias e intervenções nutricionais mostra-se mais eficaz na redução de sintomas, prevenção de recaídas e promoção da integração social. Acácia utiliza da auriculoterapia, reconhecendo seus benefícios e destacando a dificuldade de adesão devido à necessidade de sessões frequentes. Schmid e Brunisholz (2007) evidenciaram boa aceitação e melhora significativa em pacientes em uso de antipsicóticos associado a TC, como procedimentos psicológicos e sensoriais, foram associadas ao tratamento medicamentoso.
Conclusão: A assistência de enfermagem a pacientes em uso de antipsicóticos de ação prolongada no CAPS enfrenta desafios relacionados à adesão, polifarmácia, formação generalista e falta de capacitação específica. Estratégias como escuta qualificada, orientações, apoio familiar e articulação com a atenção primária mostram-se efetivas no acompanhamento. O uso combinado de terapias farmacológicas e TC, contribui para reduzir recaídas, melhora a qualidade de vida e fortalece o protagonismo do paciente. Contudo, as lacunas na literatura quanto à percepção do enfermeiro evidenciam a necessidade de novos estudos sobre essa prática.
Referências:
BECHELLI, L. P. DE C. (2003a). Antipsicóticos de ação prolongada no tratamento de manutenção da esquizofrenia: Parte I. Fundamentos do seu desenvolvimento, benefícios e nível de aceitação em diferentes países e culturas. Rev Latino-Americana de Enfermagem, v. 11, n. 3, p. 341–349, maio 2003. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-11692003000300012.  Acesso em: 04 set. 2025.
BECHELLI, L. P. DE C. (2003b). Antipsicóticos de ação prolongada no tratamento de manutenção da esquizofrenia. Parte II. O manejo do medicamento, integração da equipe multidisciplinar e perspectivas com a formulação de antipsicóticos de nova geração de ação prolongada. Rev Latino-Americana de Enfermagem, v. 11, n. 4, p. 507–515, jul. 2003. Disponivel em: https://doi.org/10.1590/S0104-11692003000400014 Acesso em: 04 set. 2025.
CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 678, de 30 de agosto de 2021. Aprova a atuação da Equipe de Enfermagem em Saúde Mental e em Enfermagem Psiquiátrica. Diário Oficial da União, Brasília, 26 ago. 2021. Disponível em: www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-678-2021 Acesso em: 04 set. 2025.
CORDEIRO, Daiane Maria; PEREIRA, Guilherme Antoniacomi; BORGES, Rafael Nunes. Revisão clínica: introdução de antipsicóticos na atenção primária à saúde. Rev Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, Rio de Janeiro, v. 18, n. 45, p. 2930, 2023. DOI: 10.5712/rbmfc18(45)2930. Disponível em: https://rbmfc.org.br/rbmfc/article/view/2930 Acesso em: 04 set. 2025.
GIRADE, M. DA G.; CRUZ, E. M. N. T. DA; STEFANELLI, M. C. Educação continuada em enfermagem psiquiátrica: reflexão sobre conceitos. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 40, n. 1, p. 105–110, mar. 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0080-62342006000100015 Acesso em: 04 set. 2025.
NASIM, R.; NAWAZ, S.; NASIM, M. T. Os efeitos de medicamentos antipsicóticos e terapias não farmacológicas na esquizofrenia. Targets, v. 3, n. 1, p. 10, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.3390/targets3010010 Acesso em: 04 set. 2025.
PERES, M. A. DE A. et al. Twenty years of the brazilian psychiatric reform: meanings for psychiatric and mental health nursing. Texto & Contexto - Enfermagem, v. 31, p. e20220045, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1980-265X-TCE-2022-0045en Acesso em: 04 set. 2025.
SANTOS, D. G. P. M. L.; SILVA, F. P.; GUEDES, T. G.; VENTURA, C. A. A.; SILVA, R. A.; FRAZAO, I. S. Guia da gestão autônoma da medicação como ferramenta educativa do enfermeiro na atenção psicossocial. Enferm Foco, v. 14, e-202371, dez. 2023. Disponível em: https://enfermfoco.org/article/guia-da-gestao-autonoma-da-medicacao-como-ferramenta-educativa-do-enfermeiro-na-atencao-psicossocial/ Acesso em: 04 set. 2025.
SCHMID, G. B.; BRUNISHOLZ, K. Evaluation der Inanspruchnahme komplementärmedizinischer Heilverfahren bei schizophrenen PatientInnen. Forschende Komplementärmedizin, v. 14, n. 3, p. 167–172, 2007. DOI: https://doi.org/10.1159/000102759 Acesso em: 04 set. 2025.
SILVA, N. S. et al. Percepção de enfermeiros sobre aspectos facilitadores e dificultadores de sua prática nos serviços de saúde mental. Rev Brasileira de Enfermagem, v. 66, n. 5, p. 745–752, set. 2013. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0034-71672013000500016 Acesso em: 04 set. 2025.