EXPOSIÇÃO NOTURNA À LUZ AZUL: ALTERAÇÕES NA SÍNTESE HEPÁTICA DE ÁCIDOS BILIARES E REPERCUSSÕES NO METABOLISMO LIPÍDICO  
1LETÍCIA OLIVEIRA DE QUEVEDO, 2GIULIANA FERNANDES MILITÃO, 3MARIA EDUARDA DE OLIVEIRA VACCARI, 4ISADORA MARTINS PIFFER, 5LUCIANO SERAPHIM GASQUES
1Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
2Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
3Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
4Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
5Docente da UNIPAR
Introdução: A luz azul é uma radiação visível com comprimento de onda entre 400 e 490 nm, presente de forma natural na luz solar e emitida artificialmente em dispositivos como LEDs, celulares e computadores (Tosini et al., 2016). A exposição noturna a esse espectro luminoso pode comprometer a homeostase metabólica ao desregular o relógio biológico hepático (Guan et al., 2022). Essa desorganização circadiana está relacionada a alterações em vias fisiológicas fundamentais, incluindo a síntese de ácidos biliares e o metabolismo lipídico (Tosini et al., 2016). 
Objetivo: Revisar e analisar as evidências científicas disponíveis sobre os efeitos da exposição noturna à luz azul na síntese hepática de ácidos biliares e no metabolismo lipídico, destacando os mecanismos circadianos envolvidos e suas repercussões na homeostase metabólica. 
Desenvolvimento: Estudos em camundongos mostram que a luz azul contínua eleva a corticosterona plasmática e altera a expressão de genes, como Clock (que codifica uma proteína central no controle do ritmo circadiano, regulando a transcrição de outros genes) e Bmal1 (fator de transcrição que, em parceria com Clock, ativa genes que controlam o ritmo circadiano), favorecendo o acúmulo de lipídios hepáticos e intensificando processos inflamatórios. Esses efeitos ocorrem em parte devido ao aumento de espécies reativas de oxigênio e à redução da capacidade antioxidante (Guan et al., 2022). A desregulação circadiana também reduz a expressão rítmica de Cyp7a1 (gene que codifica a colesterol 7α-hidroxilase, enzima chave na etapa inicial da síntese de ácidos biliares), comprometendo a produção desses metabólitos e alterando sua reserva, com repercussões na absorção de lipídios e na homeostase energética. Esses efeitos são ainda mais exacerbados por dietas ricas em gordura, que promovem perda da ritmicidade hepática e aumento de ácidos graxos livres, evidenciando a interação entre fatores ambientais e hábitos alimentares (Ferrell; Chiang, 2015). Além disso, a exposição à luz azul noturna ativa o eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal, elevando a corticosterona, que sinaliza via receptor de glicocorticoide (GR, glucocorticoid receptor). GR interage com elementos do ciclo circadiano, incluindo REV-ERBα/β (receptores nucleares que reprimem a transcrição de alguns genes), e com reguladores metabólicos, promovendo a reprogramação transcricional que favorece lipogênese e inflamação. Estudos recentes indicam que a via GR/REV-ERBs é um dos principais mecanismos pelos quais a luz azul noturna altera o metabolismo lipídico hepático (Guan et al., 2024). Por outro lado, a suplementação com melatonina mostrou-se capaz de reverter o acúmulo lipídico hepático e restaurar perturbações na via GR/REV-ERBs, bem como a expressão rítmica de genes, sugerindo efeito protetor e ressincronização do relógio hepático (Guan et al., 2024). Em humanos, a crononutrição exerce papel importante na regulação metabólica: maior ingestão calórica no período da manhã está associada a um melhor controle glicêmico e maior eficiência na perda de peso, reforçando a importância de alinhar hábitos alimentares aos ritmos circadianos (Poggiogalle et al., 2018). 
Conclusão: As evidências atuais indicam que a exposição noturna à luz azul exerce efeitos significativos sobre a regulação circadiana hepática, interferindo na síntese de ácidos biliares e no metabolismo lipídico. Estudos experimentais demonstram associação com acúmulo de lipídios, estresse oxidativo e inflamação, especialmente quando somados a hábitos alimentares inadequados. Estratégias como a crononutrição e a suplementação com melatonina têm se mostrado promissoras na mitigação desses efeitos, embora ainda haja lacunas quanto à tradução desses resultados para a prática clínica em humanos. Dessa forma, tais evidências ressaltam a necessidade de estratégias preventivas e terapêuticas que considerem a interação entre luz artificial noturna, ritmos circadianos e hábitos de vida.
Referências:
FERRELL, J. M.; CHIANG, J. Y. Short-term circadian disruption impairs bile acid and lipid homeostasis in mice. Cellular and Molecular Gastroenterology and Hepatology, v. 1, n. 6, p. 664-677, 2015. 
GUAN, Q.; WANG, Z.; CAO, J.; DONG, Y.; CHEN, Y. Monochromatic blue light not green light exposure is associated with continuous light-induced hepatic steatosis in high fat diet fed-mice via oxidative stress. Ecotoxicology and Environmental Safety, v. 239, p. 113625, 2022. 
GUAN, Q.; WANG, Z.; CAO, J.; DONG, Y.; TANG, S.; CHEN, Y. Melatonin restores hepatic lipid metabolic homeostasis disrupted by blue light at night in high-fat diet-fed mice. Journal of Pineal Research, 2024. 
POGGIOGALLE, E.; JAMSHED, H.; PETERSON, C. M. Circadian regulation of glucose, lipid, and energy metabolism in humans. Metabolism, v. 84, p. 11-27, 2018. 
TOSINI, G.; FERGUSON, I.; TSUBOTA, K. Effects of blue light on the circadian system and eye physiology. Molecular Vision, v. 22, p. 61-72, 2016.