A RESSURGÊNCIA DE DOENÇAS PREVENÍVEIS POR VACINAS, NO CONTEXTO DA HESITAÇÃO VACINAL
1PEDRO HENRIQUE MARTINS FERNEDA, 2GIOVANI DANTAS DE OLIVEIRA, 3SOFIA HECK SCHEUER, 4RAPHAEL CHALBAUD BISCAIA HARTMANN
1 Acadêmico do curso de Medicina da Unipar
2Acadêmico do Curso de Medicina da UNIPAR
3Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
4Docente da UNIPAR
Introdução: No Brasil, entre os anos de 1960 e 1970, as doenças que poderiam ser prevenidas através de imunização (vacinas), tinham caráter endêmico, que, em articulação com a diarréia, ocasionaram altíssimas taxas de mortalidade infantil (ASSIS et al., 2023). Na década de 70, no Brasil, surge o Programa Nacional de Imunização -PNI surgiu no Brasil, a fim de coordenar as ações de vacinação. No ano de 1977 foi publicado o primeiro calendário de vacinação, trazendo as vacinas de caráter obrigatório no primeiro ano de vida: vacina Bacilo Calmette Guerin (BCG), vacina oral poliomielite (VOP); difteria, tétano e coqueluche (DTP), e vacina sarampo. Atualmente, a quantidade de vacinas aumentou e há, aproximadamente, 8 tipos de vacinas oferecidas gratuitamente para crianças e adultos, que protegem contra mais de 20 doenças (CUNHA, 2021, apud ASSIS et al., 2023). Atualmente, previne cerca de 2 a 3 milhões de óbitos por ano e, se a cobertura vacinal fosse bem-sucedida a nível mundial, poderiam ser evitadas mais 1,5 milhão de mortes (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2021, apud SILVA et al., 2025). Atualmente, o Brasil é reconhecido como um dos países que oferecem o maior número de vacinas de forma gratuita no mundo (Marinho et al., 2023 apud COSTA; MARTINS, 2025).
Objetivo: Realizar uma revisão de literatura integrativa acerca da hesitação vacinal e reemergência de doenças preveníveis.
Desenvolvimento: Além disso, a pandemia de COVID-19, que teve início em 2020, exacerbou ainda mais a situação da cobertura vacinal mundial. Durante o pico da pandemia, muitos programas de vacinação foram suspensos ou tiveram suas atividades drasticamente reduzidas devido ao foco total nos esforços para combater o coronavírus. As unidades de saúde, sobrecarregadas, não puderam realizar campanhas de vacinação de rotina, e muitos pais deixaram de levar seus filhos para a aplicação das vacinas de rotina devido ao medo do contágio. Além disso, a pandemia também aumentou a desconfiança em relação às vacinas, principalmente com a chegada de novas vacinas contra a COVID-19, que geraram controvérsias e debates públicos em várias partes do mundo (SANTOS; CRISTOVÃO, DIONÍZIO, 2024; RODRIGUES et al., 2022 apud COSTA; MARTINS, 2025). O declínio da cobertura vacinal no Brasil é apontado como fator determinante para a reemergência de doenças imunopreveníveis, sobretudo o sarampo e a poliomielite, que haviam sido eliminados ou estavam sob controle. De acordo com Assis et al. (2023), a poliomielite não apresenta casos autóctones desde 1989; entretanto, a redução da cobertura vacinal nos últimos anos elevou o risco de reintrodução do vírus, situação semelhante à vivenciada pelo sarampo, que teve circulação interrompida em 2016, mas retornou de forma epidêmica a partir de 2018. Os surtos de sarampo registrados no Brasil em 2018 e 2019 ilustram esse retrocesso, com mais de 10 mil casos confirmados em 2018, principalmente na região Norte, em estados que já apresentavam índices de imunização inferiores a 95%, meta preconizada pelo Ministério da Saúde (Silva et al., 2021). A entrada de imigrantes vindos da Venezuela, onde havia surtos ativos, associada à baixa cobertura nacional, contribuiu para a disseminação do vírus, culminando na perda do certificado de eliminação concedido pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) em 2016 (Silva et al., 2021). Além dos aspectos epidemiológicos, fatores socioculturais e informacionais também interferem diretamente na adesão vacinal. A circulação de notícias falsas, amplificadas pelas redes sociais, favorece a hesitação vacinal, alimentando desconfiança quanto à segurança e eficácia das vacinas (Silva et al., 2021; Loureiro et al., 2024). Segundo Bonani e Souza (2021), esse cenário compromete não apenas o controle de doenças já erradicadas, mas também a prevenção contra novas ameaças, como a COVID-19, uma vez que a recusa ou atraso vacinal pode agravar crises sanitárias futuras. Portanto, observa-se que a reemergência de doenças preveníveis por imunização resulta da conjugação de múltiplos fatores, entre eles a queda da cobertura vacinal, barreiras de acesso aos serviços de saúde, desinformação e fluxos migratórios. Para enfrentar esse cenário, políticas públicas devem priorizar estratégias de educação em saúde, campanhas de esclarecimento contra fake news, ampliação do acesso aos imunobiológicos e monitoramento contínuo das coberturas vacinais (Assis et al., 2023; Silva et al., 2021; Bonani; Souza, 2021).
Conclusão: A hesitação vacinal e a consequente queda nas coberturas representam ameaças à saúde pública no Brasil. Doenças como sarampo e poliomielite voltaram a se manifestar devido a desinformação, barreiras de acesso e fluxos migratórios. Embora altas coberturas tenham garantido conquistas, como a certificação de eliminação do sarampo em 2016, a redução vacinal a partir de 2017 levou ao ressurgimento de surtos e à perda desse reconhecimento. Assim, políticas públicas permanentes são fundamentais para estimular a adesão populacional, combater notícias falsas e garantir cobertura homogênea acima de 95%, assegurando a proteção coletiva e a preservação dos avanços do Programa Nacional de Imunização.
Referências:
ASSIS, A. F. Q.; SILVA, K. L. F.; ANGEL, D. J. Políticas de vacinação e a reemergência da poliomielite e do sarampo no Brasil. Brazilian Journal of International Health and Science, v. 1, n. 1, p. 1–12, 2023. Disponível em: https://bjihs.emnuvens.com.br/bjihs/article/view/261. Acesso em: 25 ago. 2025.
BONANI, L. O.; SOUZA, G. S. A importância da vacinação infantil para a erradicação do sarampo. Brazilian Journal of Health Review, v. 4, n. 3, p. 82–95, 2021. DOI: 10.34119/bjhrv4n3-011. Disponível em: https://doi.org/10.34119/bjhrv4n3-011. Acesso em: 24 ago. 2025.
COSTA, L. P.; MARTINS, L. M. IMPACTOS DA QUEDA DA COBERTURA VACINAL NA REINTRODUÇÃO DE DOENÇAS IMUNOPREVENÍVEIS: UMA REVISÃO DA LITERATURA. Revista Multidisciplinar em Saúde, v. 7, n. 2, p. 12–27, fev. 2025. DOI: 10.36557/2674-8169.2025v7n2p12-27. Disponível em: https://doi.org/10.36557/2674-8169.2025v7n2p12-27. Acesso em: 23 ago. 2025.
FERNANDES, M. S. Sarampo, doença reemergente e seus determinantes: revisão narrativa. 2022. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Enfermagem) – Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiânia, 2022. Disponível em: https://repositorio.pucgoias.edu.br/jspui/handle/123456789/4631. Acesso em: 23 ago. 2025.
LOUREIRO, A. A. R.; DUTRA, H. F.; GONÇALVES, E. B. D.; PEREIRA, F. O. S.; ARGOLO, B. M.; FONSECA, R. M.; et al. Efeitos da campanha de vacinação nas internações e mortalidade relacionados ao sarampo no Brasil na última década. Ciência & Saúde Coletiva, v. 29, n. 5, e20042022, 2024. DOI: 10.1590/1413-81232024295.20042022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1413-81232024295.20042022. Acesso em: 25 ago. 2025.
SILVA, F. A. R.; ALENCAR, S. P.; SILVA, V. S.; RAPADO, L. N. A importância das vacinas na prevenção e erradicação de doenças. Revista REMECS, [S. l.], v. 4, n. 1, p. 1–12, 2025. Disponível em: http://revistaremecs.com.br/index.php/remecs/article/view/72. Acesso em: 25 ago. 2025.