BISFENOL A EM MAMADEIRAS: EVIDÊNCIAS SOBRE MIGRAÇÃO E SEGURANÇA INFANTIL - UMA REVISÃO NARRATIVA  
1AMANDA FELISBERTO LIMA, 2ERICK DOUGLAS MESQUITA COSTA, 3RICARDO DE MELO GERMANO
1Acadêmico de Medicina PIC/UNIPAR
2Acadêmico de Medicina PIC/UNIPAR
3Docente Titular de Fisiologia e do Programa de Pós-graduação em Ciência Animal da UNIPAR
Introdução: Mamadeiras de vidro eram usadas para alimentar bebês com leite em fórmula no século XIX. No entanto, o vidro é pesado e propenso a quebrar durante o manuseio de bebês, aumentando a probabilidade de acidentes durante o uso. Por esse motivo, mamadeiras plásticas, mais leves, fáceis de manusear e resistentes, foram introduzidas e, atualmente, constituem a principal escolha das famílias. Além disso, esses produtos são mais baratos para adquirir e substituir. Contudo, a maioria dos plásticos contém uma variedade de aditivos, alguns dos quais podem ser tóxicos, o que despertou preocupações crescentes sobre sua segurança (Ali et al., 2018).  Entre esses aditivos, destaca-se o Bisfenol A (2,2-bis(4-hidroxifenil)propano; BPA), um disruptor endócrino antropogênico estabelecido, e um dos produtos químicos com maior volume de produção em todo o mundo. Ele é utilizado na produção de plásticos de policarbonato (PC) e resinas epóxi, estando presente em diversos produtos de consumo, como recipientes para alimentos, produtos de papel, brinquedos, equipamentos médicos e eletrônicos. O uso generalizado de BPA na indústria plástica levou à sua ampla distribuição no meio ambiente e, consequentemente, à inevitável exposição humana a esse composto por meio de fontes alimentares e não alimentares (Siddique et al., 2021).
Objetivo: Avaliar, em revisão narrativa, as evidências científicas sobre a liberação de bisfenol A em mamadeiras de policarbonato, incluindo produtos rotulados como “BPA-free”, e seus potenciais riscos à saúde infantil.
Desenvolvimento: A revisão foi conduzida nas base de dados Pubmed e Google Acadêmico, considerando artigos publicados utilizando os descritores “Bisfenol A”; “Mamadeiras”; “Migração”. Foram incluídos quatro estudos que abordavam os riscos de contaminação do alimento infantil. O BPA é eliminado do corpo em adultos por desintoxicação no fígado, e esse processo requer reservas de retinóides hepáticos. Em crianças, o processo de desintoxicação hepática pode não estar totalmente desenvolvido, portanto, os lactentes são mais vulneráveis ao BPA do que os adultos. A principal fonte de exposição em bebês é a lixiviação de BPA de mamadeiras plásticas (80%), enquanto 19% provêm de fórmulas líquidas embaladas em plástico de PC ou latas, apenas 1% da exposição geralmente é proveniente de fórmula infantil (Ali et al., 2018). Um estudo, na Coreia do Sul, investigou a migração de BPA a partir de mamadeiras de PC submetidas a uso repetido. Os pesquisadores observaram que, em mamadeiras novas, os níveis de BPA liberados foram muito baixos (0,03 ppb a 40 °C e 0,13 ppb a 95 °C), contudo, em mamadeiras utilizadas por seis meses, a migração aumentou significativamente, atingindo 0,18 ppb a 40 °C e até 18,47 ppb a 95 °C (Nam; Seo; Kim, 2010). O estudo concluiu que a elevação da temperatura, sobretudo acima de 80 °C, e o envelhecimento do material favorecem a liberação do BPA, devido a processos de degradação do PC e aumento do espaçamento entre as cadeias poliméricas. Por outro lado, uma pesquisa realizada no Canadá avaliou a migração do BPA e de seus análogos em 20 marcas de mamadeiras disponíveis no mercado, os resultados indicaram que, embora o BPA tenha sido detectado, suas concentrações permaneceram baixas e não apresentaram aumento com o tempo de uso dos recipientes (Siddique et al., 2021). Os autores sugeriram que os análogos de BPA encontrados não estariam incorporados de forma significativa à estrutura do polímero, mas poderiam ser provenientes de resíduos superficiais do processo de fabricação. Um estudo realizado na Jordânia por Ali et al. (2018) avaliou a presença de BPA em mamadeiras de PC comercializadas com o rótulo “livre de BPA”. Embora os resultados tenham mostrado que nenhuma amostra ultrapassou a Ingestão Diária Tolerável internacionalmente estabelecida, os autores chamaram atenção para um ponto crítico: o uso combinado de mamadeiras contendo BPA com outros utensílios plásticos pode levar ao alcance desse limite. Dessa forma, mesmo quando cada produto isolado apresenta níveis de migração considerados seguros, a exposição cumulativa decorrente do contato com diferentes fontes de BPA representa um risco potencial à saúde infantil. Diante dessas evidências e do potencial risco à saúde, órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Food and Drug Administration (FDA), passaram a acompanhar os níveis de segurança do BPA em materiais destinados ao contato com alimentos. Nesse contexto, a Anvisa proibiu a utilização do BPA em mamadeiras, após estudos apontarem que a substância poderia migrar para o conteúdo das embalagens quando exposta a altas temperaturas. Tais ações têm como objetivo reduzir a exposição da população ao composto, sobretudo em lactentes e crianças pequenas, grupo considerado mais suscetível a seus potenciais efeitos. (Resende Neto, 2025).
Conclusão: As evidências disponíveis demonstraram que o BPA presente em mamadeiras plásticas pode migrar para o conteúdo dos recipientes, especialmente sob condições de uso prolongado e altas temperaturas, configurando um risco potencial à saúde infantil devido à vulnerabilidade fisiológica dos lactentes. Tais achados fundamentam a necessidade de pesquisas contínuas para avaliar a exposição cumulativa e de revisões periódicas das quantidades permitidas pelas normas regulatórias, garantindo a proteção das crianças e a segurança dos produtos em contato com alimentos.
Referências:
ALI, M. et al. Testing baby bottles for the presence of residual and migrated bisphenol A. Environmental Monitoring and Assessment, v. 191, n. 1, Dez. 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s10661 -018-712 6-0. Acesso em: 2 set. 2025.
NAM, S.-H.; SEO, Y.-M.; KIM, M.-G. Bisphenol A migration from polycarbonate baby bottle with repeated use. Chemosphere, v. 79, n. 9, p. 949–952, Maio. 2010. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.chemosphere. 2010.02.049. Acesso em: 2 set. 2025.
‌RESENDE NETO, P. Bisfenol A: o perigo invisível na infância. Protocolos em Química, v. 3, n. 2, p. 12–15, Maio. 2025. Disponível em: https://protocolosemquimica.com/wp-content/uploads/2025/05/revista-protocolos- v3-n2-2025.pdf. Acesso em: 2 set. 2025.
‌SIDDIQUE, S. et al. Investigation of the migration of bisphenols from baby bottles and sippy cups. Current Research in Food Science, v. 4, p. 619–626, Set. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.crfs.2021.08.0 06. Acesso em: 2 set. 2025.