GAMIFICAÇÃO E INTERDISCIPLINARIEDADE COMO ESTRATÉGIAS PARA REPENSAR A POLÍTICA CURRICULAR DO ENSINO MÉDIO  
1JENNIFER GUTERRES DIAS
1Mestranda em Educação, na Universidade Federal do Pampa – UNIPAMPA, Campus Jaguarão/RS, Licenciada em Ciências da Natureza
Introdução: O cenário educacional brasileiro contemporâneo exige práticas pedagógicas que rompam com a lógica tecnicista e fragmentada de ensino, nessa perspectiva, as reflexões de Paulo Freire seguem fundamentais, ao afirmar que “educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante” (FREIRE, 1996, p. 25), ressaltando que a educação deve ir além da mera transmissão de conteúdos, constituindo-se como um ato político voltado à transformação da realidade. A articulação entre Gamificação e Interdisciplinaridade constitui, assim, uma estratégia pedagógica potente para engajar os estudantes de forma ativa, crítica e criativa, conectando o conteúdo escolar a desafios contemporâneos, como a crise ambiental proveniente do efeito estufa. A pesquisa desenvolvida, parte da realidade local de Uruguaiana/RS e do bioma Pampa, visando à oferta de um curso de extensão sobre gamificação, para professores/as da área de ciências da natureza atuantes do ensino médio, utilizando como exemplo durante o curso, um jogo educativo interdisciplinar elaborado pela autora, que promove a conscientização ecológica e o protagonismo juvenil, tensionando as possibilidades de reinvenção do currículo. Frigotto (2010) destaca que, quando reduzida a uma lógica instrumental, a educação perde seu papel formativo e emancipador, para ele, a escola não é neutra, tampouco os conhecimentos que nela circulam, a proposta insere-se no debate sobre as contradições da política curricular vigente e sua tendência à fragmentação dos saberes, buscando alternativas que resgatem a totalidade do conhecimento em sua relação com a vida concreta dos sujeitos.
Objetivo: A pesquisa tem como objetivo analisar os limites e as possibilidades da aplicação da gamificação no Ensino Médio, a partir das práticas pedagógicas desenvolvidas por docentes da área de Ciências da Natureza no município de Uruguaiana/RS, com o intuito de refletir sobre suas contribuições para a construção de propostas que dialoguem com e influenciam a política curricular vigente.
Desenvolvimento: A partir do mapeamento realizado, propõe-se a elaboração e o desenvolvimento de um artefato pedagógico interdisciplinar voltado à área de Ciências da Natureza. Trata-se de uma investigação fundamentada nos princípios do materialismo histórico-dialético como método, o que permite compreender a realidade educacional como resultado das contradições históricas, sociais e econômicas. Segundo (MARX, 2008, p.23), “não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência”, evidenciando que a educação deve considerar as condições concretas em que os sujeitos estão inseridos. Esse recurso pedagógico tem como finalidade integrar diferentes saberes de forma inovadora, interativa e contextualizada, promovendo o protagonismo dos estudantes e o diálogo com a realidade local. A proposta apoia-se nas contribuições de Paulo Freire, que defende uma educação dialógica, crítica e transformadora, comprometida com a formação de sujeitos autônomos e conscientes de seu papel social. Como afirma Ramos (2008), a interdisciplinaridade pode configurar-se como resistência à lógica disciplinar e funcionalista presente na organização do currículo escolar, ao mesmo tempo em que favorece a construção de um conhecimento mais integral e contextualizado. Nesse contexto, o uso da gamificação configura-se como uma estratégia pedagógica potente para articular diferentes áreas do conhecimento, estimular a ludicidade e ampliar o engajamento dos estudantes com os conteúdos escolares, promovendo reflexões críticas a partir de problemas reais do seu contexto sociocultural (MEIRA et al., 2019). Como desdobramento prático da pesquisa e visando ampliar seu alcance, propõe-se a implementação de um curso de extensão voltado a professores da Educação Básica, especialmente da área de Ciências da Natureza. A ação extensionista reforça o compromisso da universidade com a comunidade escolar, ao promover a valorização do trabalho docente e incentivar práticas pedagógicas alinhadas aos desafios da educação pública atual, o curso de extensão busca aproximar teoria e prática, contribuindo para a formação crítica e socialmente engajada dos profissionais da educação.
Conclusão: Conclui-se que a gamificação, quando compreendida e aplicada de forma crítica e contextualizada, pode se constituir em uma estratégia pedagógica significativa, especialmente no ensino de Ciências da Natureza. A experiência destaca a importância de valorizar o protagonismo docente e aponta o curso de extensão como uma ação formativa capaz de fortalecer a inovação e o engajamento na educação, sua efetividade, no entanto, depende do alinhamento com as realidades escolares e das necessidades concretas dos estudantes nesse sentido, torna-se imprescindível a existência de políticas curriculares que incentivem a formação continuada de professores e o compartilhamento de experiências pedagógicas, de modo a assegurar a sustentabilidade e a coerência da proposta.
Referências:
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FRIGOTTO, Gaudêncio. A produtividade da escola improdutiva. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2010.
MARX, Karl. Prefácio. In: ______. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 23.
MEIRA, Luciano; GOMES, Mônica; FALCÃO, Taciana. Gamificação na educação: desafios e possibilidades. Recife: UFPE, 2019.
RAMOS, Marize. Interdisciplinaridade: um conceito em movimento. In: FAZENDA, Ivani Catarina Arantes (Org.). Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. 6. ed. Campinas, SP: Papirus, 2008.