ATIVIDADE ANTIMICROBIANA DO EXTRATO HIDROETANÓLICO DE Panus strigellus  
1DOUGLAS HENRIQUE CUSTODIO HOTZ, 2BEATRIZ NABAS VICENTE, 3KAMILLA GOBO PESSANHA, 4SELMA ALVES RODRIGUES, 5JULIANA SILVEIRA DO VALLE, 6MARIA GRACIELA IECHER FARIA NUNES
1Discente do Curso de Medicina da UNIPAR
2Discente do Curso de Medicina da UNIPAR
3Discente do programa de pós-graduação em Biotecnologia Aplicada à Agricultura
4Discente do programa de pós-graduação em Ciência Animal com Ênfase em Produtos Naturais
5Docente da graduação e do programa de pós-graduação em Biotecnologia Aplicada à Agricultura
6Docente da graduação e do programa de pós-graduação em Biotecnologia Aplicada à Agricultura
Introdução: A crescente resistência de microrganismos aos antibióticos convencionais torna urgente a busca por novas fontes de compostos bioativos. Nesse contexto, o macrofungo Panus strigellus, um basidiomiceto comestível consumido por comunidades indígenas na Amazônia (Llanos-López et al., 2023), demonstra grande potencial biotecnológico. Em relação ao seu crescimento, é relatado na literatura que o metabolismo fúngico pode ser influenciado pela suplementação de nutrientes como o ferro, que, em basidiomicetos como Lentinus crinitus, pode ter sua bioacumulação aumentada em até 9000 vezes (Meniqueti et al., 2021), embora o impacto de tal condição na produção de metabólitos por P. strigellus permaneça inexplorado. Todavia, a espécie já é reconhecida por produzir compostos da família da hipnofilina, um sesquiterpeno com conhecida atividade antimicrobiana (Llanos-López et al., 2023), e outros, como os lentinoides, que apresentam ação inibitória contra Enterococcus faecalis e Pseudomonas aeruginosa (Vásquez et al., 2018). Apesar dessas evidências, o espectro de ação antimicrobiana de P. strigellus ainda não foi completamente elucidado.
Objetivo: Diante disso, este trabalho objetiva investigar a atividade antimicrobiana do extrato hidroetanólico do fungo cultivado em dois meios, um com e outro sem ferro, contra bactérias de interesse clínico.
Material e métodos: A biomassa micelial de Panus strigellus foi cultivada, na presença  (90 µg/mL) ou não de ferro, macerada em nitrogênio líquido e submetida à extração com etanol/água (80:20), obtendo-se extratos na concentração de 66,6 mg/mL. A atividade antimicrobiana foi avaliada frente a Staphylococcus aureus ATCC 29213, Staphylococcus epidermidis ATCC 12228, Escherichia coli ATCC 25922 e Salmonella Typhi ATCC 19214. Os inóculos bacterianos foram padronizados de acordo com escala 0,5 McFarland (1,5 × 10⁸ UFC/mL) e diluídos em caldo Mueller Hinton para obtenção de 1,5 × 10⁷ UFC/mL. A concentração inibitória mínima (CIM) foi determinada pelo método de microdiluição em caldo, com leitura realizada por cloreto de trifeniltetrazólio (1,0%) (CLSI, 2015). Os dados foram analisados estatisticamente por ANOVA, com teste de Tukey (p < 0,05).
Resultados: O CIM variou de 5,54 a 22,2 mg/mL. Comparando a atividade dos extratos, apenas S. epidermidis apresentou diferenças significativas, com CIM de 8,65 e 16,65 mg/mL para os extratos com e sem ferro, respectivamente. Para o extrato com ferro, não houve diferença estatística entre os resultados dos microrganismos (CIM entre 8,35 e 22,2 mg/mL). Já para o extrato sem ferro, as bactérias Gram-negativas (5,54 e 8,35 mg/mL) apresentaram melhores resultados do que as Gram-positivas (16,65 mg/mL). 
Discussão: Verificou-se que o extrato hidroetanólico da biomassa de P. strigellus possui atividade antibacteriana frente as quatro bactérias testadas, o que está em conformidade com trabalhos anteriores, que já haviam identificado o potencial da espécie contra outros microrganismos (Vásquez et al., 2018). Porém, os resultados mostraram uma expansão do seu espectro de ação conhecido, com a demonstração inédita de atividade inibitória contra S. epidermidis e S. Typhi. A atividade contra E. coli é notável, visto que um estudo anterior com compostos purificados de P. strigellus não detectou inibição abaixo de 66,6 µg/mL (Llanos-López et al., 2023). A capacidade do extrato de inibir tanto bactérias Gram-positivas quanto Gram-negativas é relevante, pois os metabólitos precisam superar as distintas barreiras estruturais de cada grupo. A parede das Gram-positivas possui uma espessa camada de peptidoglicano com ácidos teicóicos, cuja D-alanilação é um mecanismo de resistência. Já as Gram-negativas apresentam a membrana externa como barreira adicional e seletiva (Cuervo-Parra et al., 2024). A suplementação de ferro no cultivo pode ter atuado como modulador do perfil antimicrobiano, pois o extrato sem ferro suplementado foi mais eficaz (p < 0,05) contra as Gram-negativas. Essa diferença pode ser explicada pela regulação do ferro, onde, em deficiência do mineral, fungos ativam a síntese de sideróforos para sua captação, via que é reprimida em altas concentrações de ferro por fatores como as proteínas GATA (Pecoraro et al., 2021). Tal redirecionamento metabólico pode ter induzido P. strigellus a produzir um perfil distinto de metabólitos, explicando a atividade superior contra S. epidermidis na presença de ferro.
Conclusão: O extrato hidroetanólico de P. strigellus demonstrou atividade antimicrobiana de amplo espectro contra as bactérias Gram-positivas e Gram-negativas de importância clínica testadas, expandindo o seu espectro de ação conhecido. Destaca-se também a atividade aumentada do extrato contra S. epidermidis quando suplementado por ferro. Estes resultados abrem novas perspectivas tanto para a utilização do potencial antimicrobiano do P. strigellus quanto para a otimização de bioprocessos, nos quais a manipulação de nutrientes como o ferro pode ser utilizada para direcionar a produção de compostos específicos com potencial para o desenvolvimento de novos fármacos.
Referências:
CLSI - CLINICAL LABORATORY STANDARDS INSTITUTE. Methods for dilution antimicrobial susceptibility test for bacteria that grow aerobically, 7th. Approved standard M7-A10, 2015.
CUERVO-PARRA, Jaime Alioscha et al. Bioquímica de la pared celular de Gram positivas y Gram negativas. Pädi Boletín Científico de Ciencias Básicas e Ingenierías del ICBI, v. 12, n. 23, p. 1-8, 2024.
LLANOS-LÓPEZ, Natalia A. et al. Panapophenanthrin, a rare oligocyclic diterpene from Panus strigellus. Metabolites, v. 13, n. 7, p. 848, 2023.
LYSAKOVA, Valeria et al. Antibacterial and antifungal activity of metabolites from basidiomycetes: A review. Antibiotics, v. 13, n. 11, p. 1026, 2024.
MENIQUETI, Adriano Borges et al. Iron bioaccumulation in Lentinus crinitus mycelia cultivated in agroindustrial byproducts. Waste and Biomass Valorization, v. 12, n. 9, p. 4965-4974, 2021.
PECORARO, Lorenzo et al. Biosynthesis pathways, transport mechanisms and biotechnological applications of fungal siderophores. Journal of Fungi, v. 8, n. 1, p. 21, 2021.
VÁSQUEZ, Roger et al. Lentinoids A–D, new natural products isolated from Lentinus strigellus. Molecules, v. 23, n. 4, p. 773, 2018.