CÉLULAS-TRONCO NA REGENERAÇÃO TECIDUAL: UMA REVISÃO DE LITERATURA SOBRE FUNDAMENTOS BIOLÓGICOS E ASPECTOS IMUNOMODULATÓRIOS  
1ANA BEATRIZ MARREIRO OLIVEIRA, 2CARLOS EDUARDO MACHADO GONTIJO, 3MARIA CLARA TIMÓTEO FRANÇA, 4ELENIZA DE VICTOR ADAMOWSKI
1Acadêmico do Curso de Medicina da UNICESUMAR
2Acadêmico do Curso de Medicina da UNICESUMAR
3Acadêmico do Curso de Medicina da UNICESUMAR
4Docente Drª do Curso de Medicina da UNICESUMAR
Introdução: Terapias com células-tronco mesenquimais (MSCs) surgiram como uma alternativa promissora, dado seu potencial para modular vias envolvidas na cicatrização de feridas (Huang et al., 2025). Segundo Sakai et al. (2021), essas células somáticas com propriedades imunomodulatórias e pluripotência podem ser obtidas de diversas fontes, como medula óssea, cordão umbilical e tecido adiposo, que se mostrou mais acessível e rico em células estromais autólogas, qualificando-se como autoenxerto. Ainda de acordo com Sakai et al. (2021), além da facilidade de obtenção, as MSCs de origem adiposa (ADSCs) demonstram potencial para restaurar a estrutura e função de órgãos comprometidos, o que reforça o interesse em utilizá-las como alternativa diante dos desafios encontrados em microambientes inflamatórios, como ocorre em feridas crônicas.
Objetivo: Esta revisão de literatura envolveu a busca de estudos na plataforma PubMed com os termos “Stem Cells” e “Tissue Regeneration”, dos quais 6 artigos foram escolhidos para análise e discussão.
Desenvolvimento: Huang et al. (2025) explicam que as MSCs obtidas do cordão umbilical e das vilosidades coriônicas demonstraram potencial significativo na cicatrização de úlceras diabéticas, atuando por meio de ativação da via PI3K/AKT. Esse mecanismo estimula a proliferação de queratinócitos, a formação de novos vasos sanguíneos e a deposição de colágeno, evidenciando desempenho superior quando comparadas a outras fontes perinatais, como a decídua basal humana (Huang et al., 2025). Apesar do alto potencial das células-tronco, seu desempenho terapêutico pode ser limitado por condições locais adversas, como inflamação persistente e estresse oxidativo, que prejudicam a regeneração tecidual (Sakai et al., 2021). Isso é especialmente preocupante em doenças como o diabetes mellitus, que dificulta a cicatrização por reduzir a vascularização e a migração de fibroblastos (Chang et al., 2023). De acordo com Zhang et al. (2023), estudos mostraram que a versatilidade das ADSCs tem sido explorada na regeneração do nervo ciático, porém, embora essas células possam se diferenciar em neurônios e células semelhantes às de Schwann, sua eficiência é limitada pela baixa sobrevida no microambiente oxidativo, reforçando seu papel como fator limitante da eficácia terapêutica. Para superar esse obstáculo, o pré-tratamento com resveratrol aumentou a resistência à apoptose e potencializou a regeneração nervosa (Zhang et al., 2023). Chang et al. (2023) afirmam que estudos com células-tronco derivadas do tecido adiposo (ADSCs) também têm mostrado avanços significativos na neutralização do ambiente hostil ao serem tratadas com fatores de crescimento como o FGF. Chang et al. (2023) também enfatizam que as ADSCs demonstraram maior tolerância ao estresse oxidativo e aumentaram a mobilidade e a capacidade regenerativa, favorecendo a cicatrização e revascularização de feridas diabéticas. O efeito benéfico do FGF está associado à sua capacidade de promover a diferenciação endotelial das ADSCs e estimular sua pluripotência (Chang et al., 2023). Outra linha de investigação tem focado na modulação imune por engenharia genética das MSCs. A superexpressão de interleucinas como IL-4, IL-10 e IL-13 levou à polarização de macrófagos do tipo M1 para M2, reduzindo a inflamação e acelerando a reepitelização. Essa abordagem reforça a ideia de que as MSCs atuam por mecanismos parácrinos e imunorregulatórios além do potencial regenerativo direto (Wu et al., 2025). Em complemento, Sakai et al. (2021) declaram que o próprio tecido adiposo contém células com perfil M2, que contribui para o controle da inflamação e favorece o reparo tecidual. Ensaios clínicos conduzidos com infusão intra-hepática de células estromais derivadas do tecido adiposo demonstraram segurança e eficácia na manutenção da função hepática em pacientes com cirrose associada à esteato-hepatite, mostrando o potencial translacional dessas terapias (Sakai et al., 2021). Segundo Nanić et al. (2022), o microtransplante de células em pele envelhecida demonstrou restaurar a densidade celular, estimular a proliferação de células-tronco epidérmicas e rejuvenescer as matrizes de colágeno I e III, reativando os mecanismos de cicatrização mesmo em tecidos senescentes. Nanić et al. (2022) ainda destacam que isso é especialmente relevante ao considerar que a senescência celular reduz a capacidade regenerativa ao longo do tempo, afetando diretamente o nicho de células-tronco e a homeostase tecidual.
Conclusão: As terapias baseadas em células-tronco representam uma das mais promissoras frentes da medicina regenerativa. Além de sua capacidade de diferenciação, o papel imunomodulador dessas células tem se mostrado crucial no combate a processos inflamatórios crônicos, porém, para que essas terapias se tornem realmente eficazes, é preciso compreender com mais profundidade como as células-tronco se comportam dentro do tecido lesionado e como interagem com o ambiente ao seu redor. Esse cuidado é essencial para tornar essas estratégias mais seguras, personalizadas e aplicáveis no cuidado real das pessoas.
Referências:
CHANG, S. Y. et al. Human Fibroblast Growth Factor-Treated Adipose-Derived Stem Cells Facilitate Wound Healing and Revascularization in Rats with Streptozotocin-Induced Diabetes Mellitus. Cells, v. 12, n. 8, p. 1146, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.3390/cells12081146. Acesso em: 1 jul. 2025.
HUANG, J. et al. Mesenchymal stem cells from perinatal tissues promote diabetic wound healing via PI3K/AKT activation. Stem Cell Research & Therapy, v. 16, p. 59, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s13287-025-04141-8. Acesso em: 2 jul. 2025.
NANIĆ, L. et al. In Vivo Skin Regeneration and Wound Healing Using Cell Micro-Transplantation. Pharmaceutics, v. 14, n. 9, p. 1955, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.3390/pharmaceutics14091955. Acesso em: 1 jul. 2025.
SAKAI, Y. et al. Clinical trial of autologous adipose tissue-derived regenerative (stem) cells therapy for exploration of its safety and efficacy. Regenerative Therapy, v. 18, p. 97–101, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.reth.2021.04.003. Acesso em: 2 jul. 2025.
WU, D. et al. Preclinical study of engineering MSCs promoting diabetic wound healing and other inflammatory diseases through M2 polarization. Stem Cell Research & Therapy, v. 16, n. 1, p. 113, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s13287-025-04248-y. Acesso em: 2 jul. 2025.
ZHANG, Z. et al. Effects of adipose derived stem cells pretreated with resveratrol on sciatic nerve regeneration in rats. Scientific Reports, v. 13, n. 1, p. 5812, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41598-023-32906-9. Acesso em: 2 jul. 2025.