OBESIDADE GENÉTICA EM CRIANÇAS: DEFICIÊNCIA DE LEPTINA E DEFEITOS EM SEU RECEPTOR  
1GEÓRGIA FERNANDES DE ALMEIDA, 2MARIA LUIZA BASSO ZANATA, 3LUCIANO SERAPHIM GASQUES
1Acadêmica do Curso de Medicina - PIBIC/UNIPAR
2Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR - PIC UNIPAR
3Docente da UNIPAR
Introdução: Nas últimas décadas, a epidemiologia mundial sofreu alterações, com a desnutrição infantil cedendo lugar à obesidade infantil em uma verdadeira pandemia, mesmo em países subdesenvolvidos (Santos; Silva, 2020). Apesar de os casos de obesidade endógena/genética corresponderem a apenas cerca de 1% dos casos, esse tema é relevante pois problemas como a deficiência congênita de leptina e defeitos em seu receptor levam crianças e adultos a quadros de obesidade mórbida (Bertoletti; Garcia-Santos, 2012; Dubern, 2015). 
Objetivo: Este resumo tem como objetivo analisar a influência da deficiência da leptina e dos defeitos em seu receptor na origem da obesidade genética infantil.
Desenvolvimento: Sobre a obesidade endógena, a via da leptina adipocina (LEP) é uma das principais envolvidas, sendo esta um hormônio secretado pelos adipócitos, com importante função na homeostase de glicose e lipídios, além de seu papel sistêmico na inflamação, imunidade e reprodução (Kuchler et al., 2020; Torres et al., 2021). A LEP age no receptor de leptina (LEPR), na superfície dos núcleos arqueados do hipotálamo, como sinal aferente em um ciclo de feedback negativo, regulando a saciedade e a homeostase energética pela ativação da via da propiomelanocortina (POMC) (Ayoama et al., 2018; Kuchler et al., 2020). Alterações em genes da LEP (7q31.3) e nos receptores LEPR (1p31), bem como de outras proteínas relacionadas à via, prejudicam a regulação do apetite e geram um quadro crítico de obesidade em consequência da hiperfagia (Ayoama et al., 2018). A obesidade nestes casos costuma ter início precoce, com aumento de peso logo após o nascimento, e mutações do gene da LEP são responsáveis não apenas pela deficiência congênita de leptina e pela obesidade severa, mas também pela resistência à insulina, doença hepática não gordurosa, hiperglicemia, comprometimento cognitivo e anomalias endocrinológicas associadas (Kuchler et al., 2020; Torres et al., 2021). Em casos de deficiência de LEP, os níveis são baixos ou indetectáveis no soro (< 1 ng/mL); quando há mutação no gene LEPR, o receptor formado é deficiente e leva ao acúmulo de leptina sérica ineficiente (Ayoama et al., 2018; Kuchler et al., 2020). É de amplo conhecimento o fato de que crianças obesas apresentam mais problemas do que crianças com peso normal, gerando distúrbios como ansiedade, depressão, isolamento social, estresse, agressividade e baixa autoestima, o que repercute diretamente em sua vivência social, além de acarretar problemas orgânicos futuros, como diabetes mellitus tipo 2, doenças cardiovasculares (como hipertensão arterial), doenças musculoesqueléticas, distúrbios respiratórios (como asma e apneia do sono), dislipidemia, esteatose hepática não alcoólica e síndrome metabólica (Ferreira et al., 2021; Santos; Silva, 2020). Nas diretrizes de tratamento para a obesidade infantil, os medicamentos ainda não são considerados como primeira escolha, sendo priorizadas intervenções não farmacológicas, como mudanças nos hábitos alimentares, introdução de exercícios físicos na rotina e acompanhamento psicoterapêutico. No entanto, na ausência de resultados satisfatórios com essas medidas, devem ser avaliados critérios como idade e grau de obesidade, juntamente com exames sanguíneos e genéticos, com o objetivo de associar o tratamento farmacológico (Torres et al., 2021). A administração de leptina demonstrou efetividade apenas em casos de deficiência congênita de leptina, contribuindo para o controle do peso e redução dos riscos de doenças associadas à obesidade. Estudos de reposição em uma criança de 9 anos excessivamente obesa e com carência congênita de leptina demonstram sua importância, pois após 1 ano de injeções diárias de leptina, houve reversão completa do quadro de obesidade (Torres et al., 2021; Ayoama et al., 2018). A forma ativa da Leptina é a Metreleptina, composta por 146 aminioácidos de leptina madura. A dose inicial recomendada máxima é de 0,13 mg/Kg se o peso corporal < 40 Kg e dose máxima de 10mg/Kg/dia se o peso corporal for > 40 Kg, em doses subcutâneas 1 vez ao dia, ou divididas em 2 doses ao dia. Os principais efeitos colaterais apresentados são cefaléia, dor abdominal e hipoglicemia e cuidados importantes são o uso de fármacos metabolizados pelo CYP450 e medicamentos de índice terapêutico estreito (Torres et al., 2021). 
Conclusão: Diante do exposto, é clara associação da deficiência de leptina e dos defeitos em seu receptor com quadros de obesidade mórbida. Intervenções precoces são importantes para evitar complicações, como a administração de leptina recombinante, uma abordagem relativamente simples para tratar a deficiência congênita de leptina. Ainda, a família exerce papel essencial na promoção de hábitos saudáveis e, quando necessário, no apoio ao uso de medicamentos.
Referências:
AOYAMA, Elisângela de Andrade et al. Genética e meio ambiente como principais fatores de risco para a obesidade. Brazilian Journal of Health Review, v. 1, n. 2, p. 477-484, 2018. 
BERTOLETTI, Juliana; GARCIA-SANTOS, Seille Cristine. Avaliação do estresse na obesidade infantil. Psico, v. 43, n. 1, 2012. 
DUBERN, Beatrice. Deficiência de leptina. In: ECOG Free Obesity eBook. Paris: Hospital Trousseau, 2015. Traduzido para o português pelo Grupo Nacional de Estudo e Investigação em Obesidade Pediátrica (GNEIOP). Tradutora: Benedita Bianchi Aguiar. Revisor: Miguel Costa. 
FERREIRA, Bruna Rocha et al. Fatores associados à obesidade infantil: uma revisão de literatura. Revista Eletrônica Acervo Científico, Goiânia, v. 25, p. e6955, 2021.
KUCHLER, Joice Cristina et al. Associação entre polimorfismos no gene/receptor da leptina e obesidade: uma revisão de literatura. Revista de Saúde Pública do Paraná (Online), Pato Branco, v. 3, n. 1, p. 120–128, 08 jul. 2020. 
SANTOS, Gabriela Martins; SILVA, Carlos Alberto Figueiredo. Obesidade infantil e seus impactos psicológicos e sociais. Intercontinental Journal on Physical Education, Pato branco, v. 2, n. 3, p. 0-1, 2020. 
TORRES, Tais Santos et al. Tratamentos farmacológicos na obesidade infanto-juvenil: Revisão da literatura/Pharmacological treatments in children and youth obesity: Literature revision. Brazilian Journal of Development, Curitiba, v. 7, n. 6, p. 56968-56980, jun. 2021.