O LIPEDEMA ALÉM DO VIÉS ESTÉTICO: REVISÃO DOS ASPECTOS CLÍNICOS E MORFOLÓGICOS E A DIFICULDADE DIAGNÓSTICA DESTA CONDIÇÃO CRÔNICA  
1ISADORA MARTINS PIFFER, 2LUCIANO SERAPHIM GASQUES
1Acadêmica do Curso de Medicina da UNIPAR
2Docente da UNIPAR
Introdução: O lipedema é uma doença de natureza complexa, mal compreendida e, portanto, frequentemente subdiagnosticada. Trata-se de uma doença crônica e progressiva que acomete o tecido adiposo e é descrita como acúmulo simétrico de gordura em membros, porém não afetando pés e mãos. Logo, deve-se reconhecer a etiologia e a necessidade de uma abordagem multiprofissional para diagnóstico e manejo adequados (Amato et al., 2025).
Objetivo: Este trabalho visa verificar na literatura os aspectos clínicos, morfológicos e diagnósticos do lipedema, bem como sua relação com a obesidade e a resistência ao emagrecimento.
Desenvolvimento: Trata-se de uma doença crônica que predomina entre mulheres adultas, estimando-se que entre 1 e 11% convivam com essa doença (Barros et al., 2023). As fases de maior incidência de manifestação do lipedema na mulher sugerem íntima relação com mudanças e variações hormonais, manifestando ou agravando durante a puberdade, menopausa, gestação e puerpério. Na puberdade pode ser erroneamente relacionado ao comum ganho de peso desta etapa do desenvolvimento, sendo ignorado (Barros et al., 2023). O diagnóstico equivocado ocorre pelo desconhecimento e similaridades com outros distúrbios de gordura, como as lipodistrofias, o linfedema e a obesidade. Embora o lipedema se diferencie das demais por afetar apenas membros inferiores e superiores, de forma a poupar mãos e pés, outros distúrbios de gordura podem coexistir (Poojari, 2023). Além do acúmulo de gordura, o lipedema habitualmente está acompanhado por dor, sensibilidade ao toque, edema e equimoses recorrentes nos membros afetados. Nos membros inferiores em específico, é comum haver sensação de peso, retenção de líquidos e queimação, sintomas fortemente associados à dificuldade de redução de peso e volume, sobretudo nessas regiões (Amato et al., 2022). Ao investigar a sintomatologia, nota-se uma série de alterações morfológicas, inflamatórias e vasculares que contribuem para sua apresentação clínica distinta. Dentre essas alterações, destaca-se a hiperplasia e hipertrofia dos adipócitos no tecido adiposo subcutâneo (SAT), o que leva à formação de nódulos firmes e sensíveis ao toque, decorrentes do agrupamento anormal destes adipócitos aumentados, associados à infiltração de células imunes e à fibrose intersticial, especialmente ao redor dos adipócitos. A referida infiltração de células imunes se caracteriza pelo aumento de células do sistema imune inato e adaptativo, como mastócitos, macrófagos e linfócitos T, os quais formam um componente inflamatório ativo no SAT afetado, causando dor no paciente e perpetuando as alterações teciduais. Paralelamente, há um aumento da deposição de colágeno na Matriz Extracelular, contribuindo para o endurecimento do tecido e intensifica a formação dos nódulos, comprometendo a comunicação celular e a capacidade regenerativa do tecido e favorecendo a progressão da doença. Além disso, pacientes com lipedema podem apresentar hipervascularização com maior densidade capilar, além de dilatação e disfunção dos vasos linfáticos. A alteração vascular favorece o extravasamento de fluido para o interstício, enquanto o comprometimento da drenagem linfática local dificulta a remoção desse fluido, intensificando seu acúmulo. A sinergia desses dois fatores leva à progressiva deformidade e agravamento do característico quadro de edema crônico (Poojari, 2023). Isoladamente, o lipedema pode não aumentar o riso de comorbidades metabólicas, mas pode prejudicar a prática de exercícios e a adoção de um estilo de vida saudável; fatores cruciais na manutenção de um perfil metabólico saudável. Esses pacientes costumam ter fraqueza muscular, dificultando a função e o ganho de massa muscular e favorecendo o sedentarismo. Apesar de lipedema e obesidade não terem relação de causa direta entre si, a obesidade pode exacerbar os sintomas do lipedema e até favorecer seu aparecimento em pessoas predispostas. Em um tratamento atenuante da progressão dos sintomas, é essencial a adoção de um estilo de vida saudável e o controle do peso corporal, pois a coexistência pode agravar os sintomas inflamatórios. Para o melhor prognóstico de um paciente obeso, uma perda de peso significativa é necessária, mas é importante pontuar que a dor e o acúmulo de gordura característico do lipedema podem não ser resolvidos apenas com a perda de peso, exigindo tratamento adicionais (Amato et al., 2022).
Conclusão: Diante da complexidade clínica e morfológica do lipedema, é urgente ampliar sua compreensão. Seus sinais e sintomas, embora característicos, são frequentemente confundidos com outras disfunções do tecido adiposo, dificultando o diagnóstico precoce e o manejo adequado. As alterações inflamatórias e estruturais reforçam a natureza crônica e debilitante da doença, especialmente quando associada à obesidade. Em vista disso, a adoção de uma abordagem multiprofissional que considere o controlar o peso e mudar o estilo de vida, aliados ao tratamento individual com intervenções específicas para o lipedema, se faz fundamental para melhorar o prognóstico e a qualidade de vida daqueles acometidos por essa condição.
Referências:
AMATO, A. C. M. et al. Consenso Brasileiro de Lipedema pela metodologia Delphi. Jornal Vascular Brasileiro, v. 24, 2025.
AMATO, A. C. M. et al. Prevalência e fatores de risco para lipedema no Brasil. Jornal Vascular Brasileiro, v. 21, 2022.
BARROS, B. C. S. et al. Lipedema: Um Desafio Clínico. Cadernos Brasileiros de Medicina, v. XXXVI, n. 1-4, p. 1–91, 2023.
POOJARI, A.; DEV, K.; RABIEE, A. Lipedema: Insights into Morphology, Pathophysiology, and Challenges. Biomedicines, v. 10, n. 12, p. 3081, 30 nov. 2022.